EM NOME DA LUZ

Arthur Streeton, Early Summer Gorse in Bloom, 1888
Arthur Streeton, Tojo florido no início do verão, 1888

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EM NOME DA LUZ

perdoa, perdoa tudo.
em nome das manhãs frescas
dos dias quentes, em nome das ervas
que são ervas mas valem
o teu poema, em nome das prístinas vozes
dos pássaros que se assenhoreiam da terra,
em nome da luz

perdoa. perdoa tudo

11 de maio de 2022

TAMBÉM ROTHKO A TUDO O MAIS RENUNCIOU

Mark Rothko – “Untitled” 1955orange-and-yellow
Mark Rothko, Sem Título, 1955

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TAMBÉM ROTHKO A TUDO O MAIS RENUNCIOU

nunca como eu amaste as coisas simples,
a pele de um fruto, a castidade das pétalas, o brutal ruminar das ondas
no molhe

nunca como eu desejaste o coração tímido
dos minúsculos corpos acesos na terra, a luz que transborda
de pedra em pedra, o rigor de uma equação na
música barroca

também Rothko a tudo o mais renunciou
pela pobreza dos seus campos abertos.
também ele preferiu a evidência da luz a todas as clausuras da boca
ou do amor

nunca como eu atravessaste tu
o silêncio, as formas nuas, ou o abismo ou o brutal ruminar das ondas
perdendo o juízo no molhe

COMPARTMENT C, CAR 193

Edward Hopper, Compartiment Car, 1938

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COMPARTMENT C, CAR 193

oh, a América profunda, essa metáfora que Hopper
tinha no pensamento, quando em 1938 pintou
as entranhas da solidão

quem é essa mulher por quem nos apaixonamos
obliquamente? como dizer não
a esse negro aveludado da roupa ao entardecer?

oh, a América! esse verme gordo engolindo
paisagens! e eu estava dentro dele em 1938, quando
Hopper pintou a minha própria solidão