EM NOME DA LUZ

Arthur Streeton, Early Summer Gorse in Bloom, 1888
Arthur Streeton, Tojo do início do verão em flor, 1888

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EM NOME DA LUZ

perdoa, perdoa tudo.
em nome das manhãs frescas
dos dias quentes, em nome das ervas
que são ervas mas valem
o teu poema, em nome das prístinas vozes
dos pássaros que se assenhoreiam da terra,
em nome da luz

perdoa. perdoa tudo

11 de maio de 2022

DEUS

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Foto retirado do banco de imagens Pixabay

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DEUS

Dieu
je t’apelle
comme si tu existais
Anise Kolz

Mendonça encontrava deus nos baldios,
Eliot descobriu-o (a ele e a três leopardos albinos)
debaixo de um junípero azul,
Cocteau tocou-o na face mais fresca
da almofada

aos quarenta e cinco preocupa-me
em lado nenhum o ter descortinado ainda

talvez desconfie do vento, do vento que desalinha
os cabelos e nos enregela os ossos,
quando rente ao mar caminhamos lado a lado
e nevoenta – espumosa – a tarde cai sobre a cidade
e dedos longínquos de vapor – invisíveis –
acendem e ocultam e amam os lampiões

VOU CONTAR-TE

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Fotografia de Роман Когомаченко (Pixabay)

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VOU CONTAR-TE

vou contar-te:
agora mesmo
a minha pele arrepiou-se
ao sentir a luz
e quando deslizou sobre
as palmas floridas
da citronela
e depois ao escutar no quarto
o ranger da madeira
na velha escrivaninha

um segredo:
de repente
descobri que vivia

25 de abril de 2021

VILLIERS

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Fotografia de Ekrulila (pormenor)

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VILLIERS

bem-aventurados os desventurados que nada
possuirão neste mundo e no outro também não.
por isso regressei a Paris, a Villiers
à pequena padaria onde nos conhecemos
e nos despedimos da primeira vez:
pedi un croissant aux amandes e também o amor
que então me prometeste como se promete a eternidade
id est, com a lisura do olhar

12.04.2013

KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

Analogicus (Tom)
Fotografia de Analogicus | Tom

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KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

odres rasgados, mesas de pinho postas ao contrário,
almotolias sangrando sobre o serrim,
ameaças, insultos, o brilho de uma cimitarra.
os facínoras, os sovinas, os caloteiros, os delatores, os maricas,
os putanheiros, os sicofantas
‒ como se atraem uns aos outros!

em silêncio, velho Konstantinos, pensas em Homero, em Ulisses,
pensas em pedaços de papel,
nos aparos derrubados, na tinta, no mata-borrão.
depois, encharcado com o ar húmido de uma manhã de março,
a casa regressas,
onde o cancro te espera para melhor te matar

sempre o caos e a ordem,
o que é e o que podia ter sido, o que era antes e o monstruoso depois,
inseparáveis sempre, como as duas serpentes do caduceu!
muitas vezes em silêncio se escuta muitas vezes o esgaravatar da poesia
‒ e uma vela bastaria (nisso pensas, velho Kavafis)
para iluminar toda a caverna da Górgona

31.03.2016

ALOTRIOFAGIA

Michal Jarmoluk

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ALOTRIOFAGIA

no último estágio da doença,
o nosso outro avô comia não apenas terra,
mas pedaços de telha
e aparas encaracoladas pela garlopa.
morreu dolorosamente, honradamente,
como queria

quando enlouquecer
quero juntar as estas estranhas iguarias
o corpo dos livros.
morrerei devorando-os, insaciado
pela gula, mas feliz
da congestão

DENTES-DE-LEÃO

Eli Drzazga
Fotografia de Eli Drzazga

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DENTES-DE-LEÃO

partimos do princípio talvez errado
de que as flores se amam pelo cheiro
ou pela cor
ou pelo alarde
e não pelo que nelas nos alegra
em silêncio
e mantém de deus e de nós
uma exatidão irrenunciável

deveríamos partir antes talvez
da premissa de que a beleza é acima de tudo
um modo de confessar-nos,
de que amamos as flores pela nossa fragilidade,
pelo que nelas e em nós
existe de promessa fulgurante,
e sobretudo
de sublime desaparição