DENTES-DE-LEÃO

Eli Drzazga
Fotografia de Eli Drzazga

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DENTES-DE-LEÃO

partimos do princípio talvez errado
de que as flores se amam pelo cheiro
ou pela cor
ou pelo alarde
e não pelo que nelas nos alegra
em silêncio
e mantém de deus e de nós
uma exatidão irrenunciável

deveríamos partir antes talvez
da premissa de que a beleza é acima de tudo
um modo de confessar-nos,
de que amamos as flores pela nossa fragilidade,
pelo que nelas e em nós
existe de promessa fulgurante,
e sobretudo
de sublime desaparição

VENDE-SE

Bragi Ingibergsson - BRIN
Fotografia de Bragi Ingibergsson

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VENDE-SE

cotos de sabão secando nas margens do tanque,
frascos vazios e teias de aranha no parapeito das janelas,
algum fruto esquecido,
triste até à exaustão

dentro das gavetas naftalina,
peças brancas de linho, cambraias, lenços, os coturnos de lã

a esmo, no remanso de uma caixa de sapatos, os óculos,
os teus alfinetes, retratos ovais cor de sépia,
suponho que duas ou três algumas cartas,
não de amor mas dos filhos, do ultramar,
o bilhete de identidade com o dizer “vitalício”

alguém juntou tudo à pressa

fecharam os portões com arame e um cadeado grosso,
puseram à mostra, em letras gordas, a vermelho,
as palavras “vende-se”

depois veio da imobiliária uma moça loira, de minissaia

percebia bastante destas coisas,
torceu o nariz mais do que uma vez,
disse que da casa não era de esperar grande coisa

as saudades estão hoje ao preço da chuva

INVERNO

Martin Rak
Fotografia de Martin Rak

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INVERNO

a estrada vinha ter comigo
e eu conduzia-me vagaroso pelos meus sonhos mais longínquos.
havia charcos, folhas, insetos afogados no alcatrão.
pelo vidro a chuva espiava-me e tinha arrepios

o inverno acabava de transpor a última cancela
na várzea sombria

tudo é metáfora gania o vento

27.10.2017

OUTUBRO

Martin Rak
Fotografia de Martin Rak

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OUTUBRO

no ponto exato do caderno onde deixaste o verão,
o sol é já um deus diminuído e só

outubro é a carne verde dos primeiros dióspiros

se dormes até mais tarde, ao abrires as janelas
vês a coluna de fumo ao longe
erguendo as fogueiras
até ao lugar onde os pássaros fogem

embriagas-te no odor da madeira incinerada,
no cheiro que a terra torna inconfundível
ao vibrar com os pingos
da chuva

no caderno ficou-te o traço firme das certezas

mas na boca agora só a amargura eclode,
só ela como a última cinza arde no corpo de uma vestal

CHUVA

Antonio Grambone

Foto: Antonio Grambone

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CHUVA

em certos lugares encontra-nos a noite
caindo nas mãos um do outro
como duros pedaços de antracite
que o lume seca e lava
e fragmenta

a desolação produz poças negras e viscosas,
em cujo silêncio mergulha às vezes
um corpo exangue

dói quase tudo,
uma frase presa na traqueia,
a chuva desamparada no varandim,
o inseto afogado na água,
o tempo que devagar nos morre
no ódio comum

nada nos salva,
nem a poesia,
nem a invisível chama dos olhos marejados,
nada

CASA DE PRAIA

Rico Cavallo
Foto: Rico Cavallo

 

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CASA DE PRAIA

manhã de agosto.
agora já só restam alguns dias

a cabeça, ao contrário do começo deste mês,
pesa e cai desgraçadamente.
como as luminosas pétalas do limónio
desagrega-se
e há espinhos à volta dela que a defendem e sitiam
e estrangulam

sobre a mesa não se conjuntam já
os copos, os sumos, o ardor da geleia,
a fruta

cada um tomará o pequeno-almoço na sua hora
e muitos de nós já partiram.
as noites de calor intenso intervalam agora
com serões de nevoeiro
e a cama na solidão ouve o ranger da insónia
e da lua

– a lua cheia de agosto –

quem me dirá porque, sobreposto à neblina, o seu halo
me parece um enfermo saltando no sargaço,
ferindo-se nas conchas partidas,
doendo entre as mãos?

se mergulho no seu aroma húmido, verei
o paulatino desfilar das minhas mulheres,
da mais nova, daquela cujos seios há muito beijei
não sabendo o que fazia,
da outra, da que me rasgou o orgulho como se rasga
um corpo com punhal,
daquela a quem confiei segredos inexistentes
e de que fujo ainda em duas décadas de vergonha

agosto é um precipício,
uma sedição,
este cheiro que nos afunda,
nos aconchega,
nos estrangula

agora já só restam alguns dias.
cabe-me recolher as espreguiçadeiras,
dobrar os panos de cozinha, fechar as portas

o último dia deste mês será como ter atingido
a outra parte do mesmo continente longínquo

aí também eu serei estrangeiro.
aí também eu serei um apátrida

agosto de 2021

DENTRO DE CASA OS OLHOS

Viktor Cherkasov
Foto: Viktor Cherkasov

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DENTRO DE CASA OS OLHOS

dentro de casa os olhos rodam,
linhas seguras, móveis lisos, corredores e livros,
artefactos,
uma lâmpada

os olhos desventram, procuram

andaimes de vazio, o envelope esgarçado,
a carta, a luz
– olhá-la, que desterro!

novembro de 2015