CAMPOS DE ALFAZEMA, PROVENÇA

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Fotografia de MireXa

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CAMPOS DE ALFAZEMA, PROVENÇA

dificilmente se olvida um gesto de ternura,
um vestido vaporoso correndo
entre ângulos de luz solar ao cair do dia,
ou os cabelos loiros que esvoaçam entre linhas
intermináveis de alfazema florida

dificilmente se esquece o perfume
que em junho ou julho de um ano antigo,
numa aldeia qualquer nos arredores da Provença,
nos prende à substância do amor,
que é como se sabe o oposto da morte

dificilmente se perdoa a nós mesmos
o quilate de uma lembrança assim,
o corpo (leve de anos) correndo atrás daquela
que no campo, envolta em luz, nos foge
rindo, triunfante, para o lado da memória

dificilmente pode alguém imitar o poema
perfeito, ainda que guardando no bolso
alguns restos desse sol, algumas migalhas
dessa brisa, alguns pedaços desse riso,
algumas sobras desse amor com que o escrevias

VILLIERS

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Fotografia de Ekrulila (pormenor)

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VILLIERS

bem-aventurados os desventurados que nada
possuirão neste mundo e no outro também não.
por isso regressei a Paris, a Villiers
à pequena padaria onde nos conhecemos
e nos despedimos da primeira vez:
pedi un croissant aux amandes e também o amor
que então me prometeste como se promete a eternidade
id est, com a lisura do olhar

12.04.2013

KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

Analogicus (Tom)
Fotografia de Analogicus | Tom

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KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

odres rasgados, mesas de pinho postas ao contrário,
almotolias sangrando sobre o serrim,
ameaças, insultos, o brilho de uma cimitarra.
os facínoras, os sovinas, os caloteiros, os delatores, os maricas,
os putanheiros, os sicofantas
‒ como se atraem uns aos outros!

em silêncio, velho Konstantinos, pensas em Homero, em Ulisses,
pensas em pedaços de papel,
nos aparos derrubados, na tinta, no mata-borrão.
depois, encharcado com o ar húmido de uma manhã de março,
a casa regressas,
onde o cancro te espera para melhor te matar

sempre o caos e a ordem,
o que é e o que podia ter sido, o que era antes e o monstruoso depois,
inseparáveis sempre, como as duas serpentes do caduceu!
muitas vezes em silêncio se escuta muitas vezes o esgaravatar da poesia
‒ e uma vela bastaria (nisso pensas, velho Kavafis)
para iluminar toda a caverna da Górgona

31.03.2016

PODENCE (MACEDO DE CAVALEIROS)

Podence_Caretos
Foto de arquivo pessoal (2021)

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PODENCE (MACEDO DE CAVALEIROS)

também o diabo visita às vezes
este solo vetusto
a chocalhar com alarido
no corpo dos homens,
atrás do paraíso
(que podia muito bem ser o Azibo,
ali tão perto),
mas que é afinal o desenho subtil
das mulheres,
a quem se pede o engenho
da água sobre o fogo,
ou (quem sabe, porque não?)
do lume sobre a lava

agosto de 2021

MIRANDA DO DOURO

Miranda do Douro_João Ricardo Lopes
Foto de arquivo pessoal (2021)

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MIRANDA DO DOURO

em lugar nenhum me pareceu Miranda
tão bela
como na loja dos frutos secos

mergulhas as mãos no gigo das nozes
ou das amêndoas
e sentes a volúpia dos círculos
(a forma arredondada dos seixos enxutos)
e sentes o pó de ouro que ergue o vento
no interior do castelo desmantelado
e que se torna ele próprio
aceitável
e parte da paisagem

se almoçares num dos restaurantes típicos,
hás de pedir a posta de carne generosa
(com alhos e batatas a murro),
se hás de petiscar,
pedirás doce de figo e roscos,
se beberes,
hás de sulcar as arribas íngremes
que entalam o fio verde do rio,
hás de caminhar pelas ruas em duas línguas,
hás de respirar o aroma de cravinas
que desce dos varandins
e queimar o rosto na praça da Catedral

aí entrarás para rezar,
aí em silêncio mergulharás as mãos
e em silêncio as hás de retirar

nessa lojinha amei o outrora
como se ama uma frase sem excesso
ou a luz perfeita de uma memória

as mãos tocam a antiguidade e a juventude
da terra.
não há outro lugar assim em Miranda,
não há

agosto de 2021

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

Foto de arquivo pessoal (2021)

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CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

nos dias de chuva
nada há a separar as muralhas das nuvens,
mas nos dias de sol
o granito renasce na paisagem ao redor
e abre a sua pele dura
às mãos que o queiram tocar.
aqui onde o país se esqueceu de Portugal
nem a bandeira flutua,
só os mortos,
só o silêncio que o vento tomba entre castanheiros
e ressequidas ervas ralas
que são como línguas exaustas no meio das pedras.
do alto avista-se a soledade,
e pomares de maçãs, e montanhas cansadas.
um arco desperta-nos o olhar,
o da porta da traição:
por ela tudo se foi, até os crentes desta igreja medieval
para onde a tarde escorre em pó,
trazendo não sei que triste piedade

agosto de 2021

VILA FLOR

Foto de arquivo pessoal (2021)

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VILA FLOR

dos lugares fica-nos muito, uma pedra, um punhado de terra, fotografias, oscilações da luz guardando a pequena memória dum ou doutro instante. fica-nos por exemplo o esmero de uma praça como esta (ardendo ao meio-dia contra as rosas magníficas que enfeitam o pedestal da rainha), fica-nos por exemplo a linha direita de casas velhas que o tempo não deliu, muito pelo contrário, casas que ombreiam agora com as feias moradias da moda (essas sim condenadas a morrer depressa), fica-nos por exemplo o curioso olhar da gente que nos espreita à porta dos cafés, demorando-nos na condição de intrusos (forasteiros, pelo menos), ou esse hambúrguer magistral comido na Casa das Tias, ou a vista soberba que nos projeta do alto do miradouro da Senhora da Lapa sobre o verde dos pinheiros e dos abetos, ou o voo picado dos milhafres, ou o estalar das pinhas (rachados pelo sol)

chega-se a esta Póvoa de Além Sabor através de um labirinto de estradas, depois de círculos e círculos e relógios dando horas diferentes numa rotunda da praxe, trazendo no carro o GPS em alerta, como se fosse ele capaz de apontar para este chão crestado pelo calor (por onde brotam línguas de xisto e lagartixas multicolores), ou para esta aragem abafada do suão trazendo de muito longe a algazarra de crianças ou o sopro dos automóveis além numa qualquer autoestrada com letras e números que já esqueci

em rigor o que nos fica dos lugares é sinuoso, saturado de pormenores, prenhe de um sentimento que apenas o passar dos anos ajuda a descobrir. por exemplo o rosto belo que nos serve à mesa e nos estuda os movimentos e o sotaque, por exemplo o perfume das glicínias e das cravinas a cair devagar das varandas, por exemplo esse cachorro que mergulha o focinho no bebedouro antigo e nos agradece uma qualquer incompreensível compreensão, por exemplo a tua sombra abrigando a minha sombra, por exemplo

agosto de 2021