CAVE

Peter H
Foto de Peter H (via Pixabay)

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CAVE

noutra parte da casa guardam o vinho, o azeite, o mel,
as nozes –
ânforas e vasilhas, cântaros, tulhas,
mas também a palha e o serrim, o pó,
teias de aranha gigantescas, pegadas de roedores
a forma talhada do silêncio

é um tesouro mal visitado,
casto, sem ar

debaixo da terra, num buraco, guardou o avô
cartas que a luz não pode ler.
e eu penso nesse lugar morto,
no quanto as palavras devem assentar
e não ferir –
digamos, como sucede nos sonhos
onde as palavras devoram metal,
mas que ninguém escuta
de tão calafetadas e duras que são

guardam aí o inominável,
ecos, vagas alusões, cheiros humedecidos
de papel e tinta, estalidos nas traves,
gritos que o tempo apagou

em resumo, um silo enorme a nossa vida –
cântaros, arcas, potes e bilhas,
sacos de serapilheira empilhados no escuro,
no nada

guardamos tudo –
o vazio, ele também

ORPHEU, SOBRE EURÍDICE

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Fotografia recolhida na página Pexels

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ORPHEU, SOBRE EURÍDICE

não é a morte a que tu receias,
mas a luz,
a lâmpada que te consome a nervura do olhar e branca
te anoitece – como o pavor dos cegos
e dos ofuscados

TRANSTROMERIANA

.David Martín Castán

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TRANSTROMERIANA

embrenhar-me na penumbra como na garganta de um bosque.
lado de cá, lanterna acesa, formações de gelo,
marcas de botas, estrias na terra.
depois a lanterna desligada, a ardósia celeste, a poalha luminosa,
álgidas estrelas de aço

torniquetes para o além: ninguém arrisca dizer qual

EM LISBOA, COM TOMAS TRANSTRÖMER

Rui Palha
Fotografia de Rui Palha

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EM LISBOA, COM TOMAS TRANSTRÖMER

cidade de brancos estendais de roupa e lonas amarelas nas esplanadas,
belos olhos azuis fotografando o rumor dos elétricos, o vazio,
o voo quebrado das gaivotas,
cabos rebocadores da alfândega, andaimes, alvenéis, metáforas,
um milhão de escrupulosas palavras sob as arcadas,
debruns de granito, patas dos pardais, tudo

Lx., 31.10.2013

ALDEIA

Rebecca Prest
Fotografia de Rebecca Prest

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ALDEIA

Toninho vendeu-me três ovos sarapintados
por trinta escudos

negociei-os eu uma manhã, a custo, aos sussurros, entre contas de tabuada

o sol entrava pelos janelões e fazia suspirar

quando cheguei a casa, o avô atirou-se-me às orelhas
por causa deles

eram três ovos de escrevedeira, ainda quentes,
belos como eu e as minhas irmãs juntos!

fomos à procura do ninho e descobrimo-lo,
com a ajuda de Mitrino

depois o avô levou-me pela mão até às videiras,
o podão na ilharga,
as fitas do canavial presas ao cinto como espadas

um e outro caminhámos sem pressa, de cepa em cepa,
duas sombras ao fundo da paisagem,
luminosos como agriões na água

não dissemos palavra,
nem o ranger das botas se ouvia

ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

Nuno Araújo
Fotografia de Nuno Araújo

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ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas

e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar

sou agora toda a minha vida, toda a minha vida
e a casa estremeceu e as palavras (ferro congelado)
doeram nas mãos

JANEIRO, MEMÓRIAS

Clara Gamito
Fotografia de Clara Gamito

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JANEIRO, MEMÓRIAS

sobe às vezes de dentro de nós, como por eclusas, a visão esquecida da mesma paisagem. e então o moinho roda, os mortos voltam, o velho passal enche-se de perfume e de frutos. no mesmo lugar onde hoje os herdeiros disputam para as suas redes altas de arame o sol, há vozes de paz, crianças correndo, leves pássaros saltitantes. vê-se tudo como nas iluminuras

11.01.2020