SOL DE DEZEMBRO

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Javier De La Torre
Fotografia de Javier De La Torre
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SOL DE DEZEMBRO
para Victor Oliveira Mateus

 

por entre as cortinas
o sol insiste e entra. o que dele
no parapeito nos aquece
é um resquício velado
do Paraíso.
a luz cobre a pele
e despe-a,
sutura,
amacia-a sem medo.
é isto o inverno: uma mescla doce
e amarga de arrepio solitário
e de desvelo

04.12.2021

CASA VELHA

Bragi Ingibergsson - BRIN 2
Fotografia de Bragi Ingibergsson

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CASA VELHA

é nos sonhos que a casa regressa: as teias de aranha ensarilhadas nas vigas, as mascarras nas paredes tocadas pelo lume, o pó sobre os móveis e na face dos vidros, o cotão a dançar por baixo das camas, a borra caindo devagar no fundo das cafeteiras

à porta da cozinha vejo de novo os pedaços de abóbora e as cascas de batata. mãos diligentes virão com eles preparar a lavadura dos porcos

em baixo, na terra batida, ficam os galinheiros, o estábulo, a pocilga. é o reino da penumbra e do frio, o reino das alfaias e dos lagares, o reino do medo: aqui todos comem em silêncio: os pintos, os vitelos, os bácoros, os roedores, os escaravelhos, a própria morte

é neste saibro que os sonhos me doem sempre mais, como se não soubesse como limpar-me de toda esta memória repleta de dor e de esterco. a ele regresso todas as noites no corpo de uma criança, ou no corpo de um desses mortos que não perdoam, para vaguear à toa entre paredes que não existem já, entre quartos e desvãos e caves (creio-o) que não desaparecerão nunca

15.03.2020

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Poema no YouTube, no canal do autor, lido por Leandro Martins

TAMBÉM ROTHKO A TUDO O MAIS RENUNCIOU

Mark Rothko – “Untitled” 1955orange-and-yellow
Mark Rothko, Sem Título, 1955

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TAMBÉM ROTHKO A TUDO O MAIS RENUNCIOU

nunca como eu amaste as coisas simples,
a pele de um fruto, a castidade das pétalas, o brutal ruminar das ondas
no molhe

nunca como eu desejaste o coração tímido
dos minúsculos corpos acesos na terra, a luz que transborda
de pedra em pedra, o rigor de uma equação na
música barroca

também Rothko a tudo o mais renunciou
pela pobreza dos seus campos abertos,
também ele preferiu a evidência da luz a todas as clausuras da boca
ou do amor

nunca como eu atravessaste tu
o silêncio, as formas nuas, ou o abismo ou o brutal ruminar das ondas
perdendo o juízo no molhe

UM GRANDE BEM EM NÓS ACORDOU

Norbert Maier
Fotografia de Norbert Maier

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UM GRANDE BEM EM NÓS ACORDOU.

Agostinho, in memoriam
para a Céu e para a Liliana

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a manhã é limpa, silenciosa, veemente.
do fundo da terra ergue-se um nome
que agora é sol,
que agora é verde-erva,
que agora é saudade eterna

a manhã é paz, blandícia, ternura.
quem respira respira fundo,
ainda que doendo os olhos,
ainda que doente o lugar escuso
onde o vazio se confunde com o amor

a manhã é limpa, silenciosa, veemente.
em nós, nalgum canto do universo,
um grande bem acordou

15 de outubro de 2021

FOTOGRAFIA

John Gay
Fotografia de John Gay

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FOTOGRAFIA

vento forte,
fitas plásticas esvoaçando como loucas
no quintal,
ramalhar de palmeiras
e de fios telefónicos,
molas coloridas no chão,
pássaros a pique,
restolhos,
estrépito de portas,
algaraviada geral.
o dia hoje nasceu demente,
mal o seguro no tripé

A BARBA POR FAZER, O CASACO AO VENTO

Radovan Skohel
Foto: Radovan Skohel

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A BARBA POR FAZER, O CASACO AO VENTO

a barba por fazer, o casaco ao vento,
silêncio no lugar das respostas,
olhos brilhantes e ardilosos,
espiguetas e cizânia,
cardos do mar

no areal há caminhos semelhantes
ao que desenham os meus pés

uma ou outra vez na minha vida
transformo-me em mineral para que as marés
me lapidem

sou de vidro, sim.
calem-se todos! vós também,
vozes na minha cabeça!