O meu pai

Fotografia de Florin Dumitru

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O MEU PAI

O meu pai ergue estacas no quintal.
Com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas
e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira
e depois os belos corpos pesados dos seus frutos.
Põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame
e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras.
Às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós,
sempre de cócoras, sempre de costas.
Se lhe oferecemos uma palavra, água, uma mão cheia de nozes limpas,
ergue uma mão em sinal de protesto.
Amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo
e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama
das galáxias.
Para que trabalha tanto o meu pai?
A quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto?
O que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões,
faminta já – quero acreditar – da eternidade?

19.03.2026

Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

João Ricardo Lopes é um dos poetas portugueses contemporâneos mais destacados, com traduções em inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, sueco, dinamarquês, polaco, irlandês, romeno, neerlandês, arménio e servo-croata.

Página oficial do escritor:
https://joaoricardolopes.com/

Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

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SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

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Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

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ESTRADAS SECUNDÁRIAS

para a Céu

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viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

Soeima (Alfândega da Fé), 07.12.2025

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A poinsétia

Fotografia de Jessica Fadel

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A POINSÉTIA

no vaso perdura o vermelho vivo da poinsétia.
é um prodígio que ao cabo de tantos anos esse presente de Natal
não haja sucumbido ao tempo
e continue, no seu veludo silente em forma de estrela, a lembrar
a amizade de pessoas que se estimam, ainda que ao cabo
de tantos anos, pese os agrores da vida, mesmo estando agora
uns e outros, do seu lado oposto, nas duas portas
do mundo

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O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

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O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

Mirandela, 08.12.2025

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Sobre as mãos

Fotografia de Alexander Grey

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SOBRE AS MÃOS

a algidez sobre as mãos deve-se não tanto
às manhãs de dezembro, mas ao lugar sombrio
de onde provêm as palavras, como se a noite
– na sua forma de cinza – pudesse permanecer
por elas e dentro e contra nós

02.12.2025

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