Oração

Fotografia Mike Von

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ORAÇÃO

quando rezardes, dizei assim:
bendita seja esta mesa onde repousam agora
o pão e o queijo, o café e os frutos,
onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados,
a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas
juntam a natureza do homem às benesses da terra,
o desejo de viver à alegria de perdurar

bendito sejas tu, que nos doas a razão
e nos fizeste um dia aprender as palavras certas
com que podemos venerar o instante e amar, depois dele,
não o tempo, mas o que em nós tocou

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© João Ricardo Lopes, Funchal, 25.06.2026

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O poema

Foto de arquivo pessoal (2026)

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para a Céu

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em rigor, o poema necessita apenas
de um pouco de sal, de um pouco da luz de Hammershøi
a prumo no soalho, dos acordes de Albéniz
entre as fantasias de García Lorca

o poema precisa somente
de um pedaço de terra, de um ângulo favorável
na esquadria imensa do amor – pode ser uma paisagem
vulcânica sobre o poente, de um versículo da Bíblia
nascido a esmo entre as ervas, de um gole de café
às nove em ponto, de ti ao meu lado a escutar
todas as coisas – neste e noutros papéis – de que sou
não o autor, mas uma harpa

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© João Ricardo Lopes | Machico, 24.06.2026

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Quarenta e nove rosas

Fotografia de Gian D

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QUARENTA E NOVE ROSAS

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Para ti, Céu, meu amor, no dia do nosso casamento

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Conheci-te no primeiro dia do mundo.
Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía.
No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía.
Por dentro de nós tudo doía.

O Senhor disse:
Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração.
E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria.
E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas.
E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia.
Deus criou o poema e viu que era bom.
Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.

Disse o Senhor:
Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo,
E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores,
E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.

Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.

Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me.
Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde.
Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar.
E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela.
E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.

O Senhor disse:
Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras.
Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória.
Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta.
Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.

Era o primeiro dia do mundo
E eu conheci-te
E tu conheceste-me.

O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus.
O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa.
Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher,
E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem
«Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»

Disse o Senhor Deus:
Faça-se, por fim, o corpo das rosas.
Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas.
Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado,
Todos os dias, hoje e para sempre.
Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma,
E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.

Era o primeiro dia do mundo.
E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição
E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas.
Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.

Era o primeiro dia do mundo,
E eu amei-te, tu amaste-me
E tudo doía,
Como se fosse o último dia do mundo.
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© João Ricardo Lopes (2026)

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Subitamente

Fotografia de Sören H.

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SUBITAMENTE

subitamente damo-nos conta de que
amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese
o azul maculado do mar, ainda que o tempo
nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades
da mão

amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro
das livrarias abertas – a desoras – na parte
esquecida da cidade

amamos o zumbido do sol entre as sombras
bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves,
o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho
ou saudade

amamos um piano ao longe, um poema de
Emily Dickinson, um olhar piedoso

damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói
muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela
tessitura das paredes, pela pele emurchada
de um pai

sentimos subitamente o eclodir
das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira
ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio,
no bojo de uma lâmpada

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Louvor

Fotografia de Mykyta Martynenko

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LOUVOR

encontro a minha paz ao descer o caderno
até uma folha em branco

sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras
guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã,
para a voz que me conduz no fio tortuoso
do tempo

nos dedos sinto o rigor da água, o empenho
do sabão, a Tua alegria

como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem:
sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas,
virão com o lume do seu desamor
e essa pequena luz infinita talvez não perdure
senão meia estação

mas não importa.
houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre
replicado dos dias do começo
e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde
das coisas anódinas e inúteis
e sei que afortunado sou, porque a mim mo ensinaste

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Alguns limões

Foto de Vitaliy Shevchenko

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ALGUNS LIMÕES

dois meses mais tarde regressei
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro da tristeza

não é uma chama exata, mas é real,
algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando
com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante
para destruir-nos o repouso do silêncio

o vento passava pela narina inanimada dos objetos
e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância
pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse
ver-me voltar

é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira
a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos
sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além
uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos
atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos,
ainda disponíveis

anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões
apodrecidos em nossa vez

depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei
que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança:
digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe
acerca do tempo

existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar
pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos,
desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo
num movimento de escorpião

digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha.
fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo
das estrelas, no interior de um corpo minguado
e mortal

o cheiro da tristeza é o cheiro do medo

Kęstutis Navakas não chegou a responder-me.
horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas
tinham-no levado de ambulância

e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro do medo:
o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio,
igual a um tumor, a um alter ergo,
a um filho que nunca pensei ter

tinham passado dois meses

digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo
já me não pertencia ou eu perdera para sempre
a faculdade da razão

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Arrabaldes

Fotografia de Brian Isukeyi

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ARRABALDES

alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se
como os atores no teatro de Shakespeare.
o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos
surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada:
de onde fui, para onde sou, quem vim?

a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular.
em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me,
os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores,
e todos os que caminham sobre os carris.
vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram

a missão de que corro atrás na vida?
trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias,
encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma,
depois começar

a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia.
a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam.
um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então,
ou outra coisa qualquer

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© João Ricardo Lopes (Madrid, 2026)..

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