CINZAS

Andreas Lischka - wood
Fotografia de Andreas Lischka

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CINZAS

para Amélia Pereira, minha avó

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o cheiro das cinzas é quase
tão indecifrável quanto
a efusão da tinta.
com elas escrevemos
não palavras, mas o silêncio,
não a manhã, mas memórias,
não o fim, mas um rosto –
também ele impossível
de dizer,
seja de que forma for

26.01.2022

NO CENTENÁRIO DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Foz do Porto, Portugal
Fotografia de Adri Marie

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NO CENTENÁRIO DE EUGÉNIO DE ANDRADE

procurava o mar
como quem busca o som de um provérbio,
ou o frio de novembro
para do tempo se agasalhar no tempo

a imensidão da água
– o que quer que seja ela –
era o mais parecido que há
com a eternidade

seguia pelo areal com a crença
do peregrino
a quem faltassem motivos
para acreditar

às vezes percutia-lhe nos pés
uma concha náufraga,
quebrada,
moribunda

e havia nisto tudo
um sentido, uma dor infinita, uma metáfora:
alguém lhe dizia algo,
algo lhe mostrava alguém

19.01.2023

BRUXELAS

Bruxelas
Fotografia de Céu Mota

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BRUXELAS

de noite todos os olhos são gatos
foi o que pensei naquela varanda de hotel
em Bruxelas, enquanto sobre nós
(em direção a Zaventem)
descia o ronco dos aviões
e o fumo de um cigarro nos embrulhava
aos dois, caçado e caçador, e vice-versa

05.12.2022

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BACH, POR FAVOR!

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Fotografia de Gabicuz

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BACH, POR FAVOR!

esqueço-me de tudo,
do claro pavor das impurezas, dos remorsos,
dos desastres,
das viagens por fazer,
dos pássaros e amores voláteis,
do rosto sombrio que me persegue no espelho,
dos dias sem sonhar.
engelha-se-me o coração

Bach, por favor!

27.12.2012

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EM NOME DA LUZ

Em Nome da Luz

Tenho recebido boas notícias do «Em Nome da Luz». O livro por aí anda, a ser lido por gente amiga, gente que me diz e escreve aquilo de que gosto de ouvir e ler, mas (desconfio) que me tem feito mal, pois me envaidece e a vaidade é justamente um dos perigos em que tropeçam os incautos.

Três semanas após a sua apresentação, publico uma das leituras que, entretanto, me chegaram. É especial, especialíssima, pois a minha irmã Elsa, tendo estado presente na sessão de entrega do prémio há dias, foi uma das duas pessoas que em 2002 me acompanharam na primeira cerimónia. Atravessou metade do país para, com filhos e marido, assistir ao que designou de “evento obrigatório” e, não sendo pouco tal empenho ou comum tamanha ternura, ainda me cumulou com esta belíssima gravação em vídeo. Não tenho como não a partilhar, nem como a agradecer devida e suficientemente.

Para comprar o livro, aceda à livraria online da editora.

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AUTOESTRADA

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Imagem (Pixabay)

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AUTOESTRADA

viajo entre ponteiros, sem pressa, oco, engolindo paisagens.
na rádio leram há pouco um poema de Inger Christensen:
poema maravilhoso, peneirando luz, vivo em cada palavra,
entre cada imagem

nunca tinha ouvido falar de Inger Christensen

agora na mesma estação escuto a Berceuse de Armas Järnefelt.
tocam ao violoncelo Sepp Laemanen e Jouni Somero ao piano

nunca me tinha cruzado com estes nomes

a manhã enfeia, lenta, vertiginosa, repleta de asfalto e frio nos pés.
de passagem os campos ralos acenam-me,
árvores quase tristes sufocam no nevoeiro.
novembro é uma sombra que em mim se abotoa.
chego ao destino, brutal como betão armado, sólido,
estúpido e infeliz

penso no poema, na música, no embalar do carro.
nunca tinha ouvido falar de Inger Christensen, nem em Järnefelt.
palpo o bolso do casaco, anoto a emoção, seguro-me ao alto.
sou um ignorante – é extraordinário

30.11.2018

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UMA ÂNFORA DEU À COSTA

Gilles Quesnot - The amphora of a God
Fotografia de Gilles Quesnot

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UMA ÂNFORA DEU À COSTA

o que sobrou dalgum antigo império seguramo-lo
agora nas mãos: barro, água salgada,
resquícios de azeite ou de vinho, restos
de garum, fragmentos escassos dalguma
essência rara

a nós o enviaram os velhos deuses
preteridos, a nós o enviaram como
se envia para longe, a alguém, uma derradeira
mensagem antes da
capitulação

asseguremo-nos, por isso, de que o tempo
faz justiça, de que a palavra soterrada
pelo silêncio e pelas marés permanecerá
íntegra e preciosa, límpida
e viva

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