Toledo

Fotografia de Thomas Haas

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TOLEDO

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para a Catarina

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pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira
e ouro
e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía,
quase líquida

imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos
sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio
e mãos inexoráveis o rechaçaram

vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando
a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência
se encavalita, esquecida do azul sem mancha
do horizonte

Tu estavas aí vergando as árvores com o vento,
atravessando com os meus ossos o arco das pontes.
Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços,
a miopia do coração

Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes:
a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios
e o lume das estrelas

soube que não descias somente às coisas,
mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo
que nas coisas envelhece e renasce,
é e não é,
maravilha e infunde o medo

senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse,
pois também as palavras são um modo de pertencer-te,
mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos

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© João Ricardo Lopes (04.09.2026)

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Thyssen, Madrid

Paul Delvaux, O Viaduto, 1963

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THYSSEN, MADRID

de manhã a cidade parecia-lhe orgânica, eficaz,
cheia de corpos humanos
vivos, mas sem doçura

subia o passeio do Prado, bebia um café
e entrava

muitas vezes se demorou nas paisagens flamengas,
no Cristo de Antoon van Dyck, nas belas representações
do Novo Mundo, nos moinhos de van Gogh

acontecia-lhe no hotel escutar o som da chuva,
porém era um engano.
ao regressar à rua, Madrid recebia-o sempre
com o ar quente de uma notícia em cima da hora,
sem tempo para a melancolia
ou para o amor

como no Viaduto de Paul Delvaux, havia ali
ferro, solidão e luzes acesas.
guardava as suas orações em estudo bruto,
físicas, sem lhes engatilhar – contudo – o poder
do fogo

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© João Ricardo Lopes (02.09.2026)

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Errata

Fotografia de Kato Blackmore

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ERRATA

existe sempre uma manhã diferente das outras

em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas,
cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa

no lugar do abatimento, da astenia, do desespero,
há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias
dos pequenos gatos cor de laranja no quintal

onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo
divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica,
lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare,
o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno,
o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini

moral da história, também as palavras são equívocas
e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro –
com melhor ou muito pior grafia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Oração

Fotografia Mike Von

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ORAÇÃO

quando rezardes, dizei assim:
bendita seja esta mesa onde repousam agora
o pão e o queijo, o café e os frutos,
onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados,
a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas
juntam a natureza do homem às benesses da terra,
o desejo de viver à alegria de perdurar

bendito sejas tu, que nos doas a razão
e nos fizeste um dia aprender as palavras certas
com que podemos venerar o instante e amar, depois dele,
não o tempo, mas o que em nós tocou

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© João Ricardo Lopes, Funchal, 25.06.2026

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Quarenta e nove rosas

Fotografia de Gian D

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QUARENTA E NOVE ROSAS

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Para ti, Céu, meu amor, no dia do nosso casamento

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Conheci-te no primeiro dia do mundo.
Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía.
No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía.
Por dentro de nós tudo doía.

O Senhor disse:
Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração.
E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria.
E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas.
E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia.
Deus criou o poema e viu que era bom.
Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.

Disse o Senhor:
Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo,
E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores,
E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.

Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.

Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me.
Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde.
Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar.
E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela.
E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.

O Senhor disse:
Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras.
Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória.
Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta.
Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.

Era o primeiro dia do mundo
E eu conheci-te
E tu conheceste-me.

O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus.
O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa.
Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher,
E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem
«Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»

Disse o Senhor Deus:
Faça-se, por fim, o corpo das rosas.
Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas.
Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado,
Todos os dias, hoje e para sempre.
Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma,
E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.

Era o primeiro dia do mundo.
E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição
E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas.
Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.

Era o primeiro dia do mundo,
E eu amei-te, tu amaste-me
E tudo doía,
Como se fosse o último dia do mundo.
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© João Ricardo Lopes (2026).

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Leitura do poema no Youtube
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Subitamente

Fotografia de Sören H.

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SUBITAMENTE

subitamente damo-nos conta de que
amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese
o azul maculado do mar, ainda que o tempo
nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades
da mão

amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro
das livrarias abertas – a desoras – na parte
esquecida da cidade

amamos o zumbido do sol entre as sombras
bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves,
o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho
ou saudade

amamos um piano ao longe, um poema de
Emily Dickinson, um olhar piedoso

damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói
muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela
tessitura das paredes, pela pele emurchada
de um pai

sentimos subitamente o eclodir
das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira
ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio,
no bojo de uma lâmpada

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Louvor

Fotografia de Mykyta Martynenko

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LOUVOR

encontro a minha paz ao descer o caderno
até uma folha em branco

sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras
guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã,
para a voz que me conduz no fio tortuoso
do tempo

nos dedos sinto o rigor da água, o empenho
do sabão, a Tua alegria

como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem:
sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas,
virão com o lume do seu desamor
e essa pequena luz infinita talvez não perdure
senão meia estação

mas não importa.
houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre
replicado dos dias do começo
e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde
das coisas anódinas e inúteis
e sei que afortunado sou, porque a mim mo ensinaste

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© João Ricardo Lopes (2026)

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