encontro a minha paz ao descer o caderno até uma folha em branco
sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã, para a voz que me conduz no fio tortuoso do tempo
nos dedos sinto o rigor da água, o empenho do sabão, a Tua alegria
como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem: sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas, virão com o lume do seu desamor e essa pequena luz infinita talvez não perdure senão meia estação
mas não importa. houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre replicado dos dias do começo e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde anódino das coisas inúteis e acessórias e sei que sou afortunadoporque a mim mo ensinaste
dois meses mais tarde regressei e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro da tristeza
não é uma chama exata, mas é real, algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante para destruir-nos o repouso do silêncio
o vento passava pela narina inanimada dos objetos e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse ver-me voltar
é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos, ainda disponíveis
anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões apodrecidos em nossa vez
depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança: digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe acerca do tempo
existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos, desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo num movimento de escorpião
digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha. fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo das estrelas, no interior de um corpo minguado e mortal
o cheiro da tristeza é o cheiro do medo
Kęstutis Navakas não chegou a responder-me. horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas tinham-no levado de ambulância
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro do medo: o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio, igual a um tumor, a um alter ergo, a um filho que nunca pensei ter
tinham passado dois meses
digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo já me não pertencia ou eu perdera para sempre a faculdade da razão
alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se como os atores no teatro de Shakespeare. o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada: de onde fui, para onde sou, quem vim?
a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular. em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me, os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores, e todos os que caminham sobre os carris. vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram
a missão de que corro atrás na vida? trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias, encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma, depois começar
a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia. a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam. um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então, ou outra coisa qualquer
o meu pai ergue estacas no quintal. com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira e depois os belos corpos pesados dos seus frutos. põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras. às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós, sempre de cócoras, sempre de costas. se lhe oferecemos uma palavra, água, um prato de nozes, ergue uma mão em sinal de protesto. amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama das galáxias. para que trabalha tanto o meu pai? a quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto? o que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões, faminta já – quero acreditar – da eternidade?
meu caro, Edward Hopper, fazemos bem em relativizar a felicidade. As coisas ao pé funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias, razões de natureza kantiana ou versículos da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos encontros do ser como na pasta dos dentes, no cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo. talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto: acordamos um dia em que o sol é bastante e sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz: metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso ou, misericórdia infinita, o último verso
Rembrandt, Autorretrato com Boina e Colarinho Levantado, 1659
. A TRISTEZA DE REMBRANDT
a questão foi sempre essa: pode em algum momento, nalguma parte, a tristeza de alguém satisfazer-se de alguma forma?
temos as nossas dúvidas sobre o assunto
a tristeza partilha com a água o pecado da avareza. primeiro saltita, logo depois entrincheira-se e um pouco mais à frente escava luzes sombrias por entre as colinas, um dia corta-nos o caminho
«não passarás» escreve em surdina, «não passarás»
vejamos o caso de Rembrandt Harmenszoon van Rijn
a sua dor parece ilimitada, cresce de retrato em retrato, como um rio que se conhece imparável na marcha predatória
olhando os seus olhos olhados ao espelho, vemos Saskia e as notas de dívida, a velhice estampada nos inchamentos e nas gretas da pele
qual o tamanho ou a profundidade do seu desgosto?
temos uma ideia sobre assunto, a água é um bom termo de comparação
um dia faz-nos submergir num delírio de papel gelatina de prata. mas nem aí, nem assim, se mostra ela inteiramente saciada. a tristeza não a suporta a crusta terrestre, o seu reino é nos infernos mais ínferos, ou mesmo para além deles.