CASA DE PRAIA

Rico Cavallo
Foto: Rico Cavallo

 

Tinta

CASA DE PRAIA

manhã de agosto.
agora já só restam alguns dias

a cabeça, ao contrário do começo deste mês,
pesa e cai desgraçadamente.
como as luminosas pétalas do limónio
desagrega-se
e há espinhos à volta dela que a defendem e sitiam
e estrangulam

sobre a mesa não se conjuntam já
os copos, os sumos, o ardor da geleia,
a fruta

cada um tomará o pequeno-almoço na sua hora
e muitos de nós já partiram.
as noites de calor intenso intervalam agora
com serões de nevoeiro
e a cama na solidão ouve o ranger da insónia
e da lua

– a lua cheia de agosto –

quem me dirá porque, sobreposto à neblina, o seu halo
me parece um enfermo saltando no sargaço,
ferindo-se nas conchas partidas,
doendo entre as mãos?

se mergulho no seu aroma húmido, verei
o paulatino desfilar das minhas mulheres,
da mais nova, daquela cujos seios há muito beijei
não sabendo o que fazia,
da outra, da que me rasgou o orgulho como se rasga
um corpo com punhal,
daquela a quem confiei segredos inexistentes
e de que fujo ainda em duas décadas de vergonha

agosto é um precipício,
uma sedição,
este cheiro que nos afunda,
nos aconchega,
nos estrangula

agora já só restam alguns dias.
cabe-me recolher as espreguiçadeiras,
dobrar os panos de cozinha, fechar as portas

o último dia deste mês será como ter atingido
a outra parte do mesmo continente longínquo

aí também eu serei estrangeiro.
aí também eu serei um apátrida

agosto de 2021

UNHAS

Carola Kayen-Mouthaan
Carola Kayen-Mouthaan

Tinta

UNHAS

o desenho que desferem sobre a pele,
o rasto que imprimem no tempo

quietas labaredas inquietas,
em cujo amor morro e renasço, morro
e renasço

A BARBA POR FAZER, O CASACO AO VENTO

Radovan Skohel
Foto: Radovan Skohel

Tinta

A BARBA POR FAZER, O CASACO AO VENTO

a barba por fazer, o casaco ao vento,
silêncio no lugar das respostas,
olhos brilhantes e ardilosos,
espiguetas e cizânia,
cardos do mar

no areal há caminhos semelhantes
ao que desenham os meus pés

uma ou outra vez na minha vida
transformo-me em mineral para que as marés
me lapidem

sou de vidro, sim.
calem-se todos! vós também,
vozes na minha cabeça!

ESTE É O FEUDO DO VENTO

Karsten Wrobel
Fotografia de Karsten Wrobel

Tinta

ESTE É O FEUDO DO VENTO

este é o feudo do vento.
compassivos os grandes rochedos de granito
oferecem-nos o ventre

pintaremos nesta gruta mãos de ocre amarelo,
de cinza, de sangue.
o azul é mais difícil: será preciso
esmagar o céu, esboroá-lo com raiva

mas isso, isso não nos compete

MEDITAÇÃO SOBRE O FIM DE AGOSTO

Like He
Foto: Like He

Tinta

MEDITAÇÃO SOBRE O FIM DE AGOSTO

exaspera-me esta calma aparente. agosto quase no fim é um mês muito outro daquele que no começo me levava de azul em azul através do espaço. agora o céu é cinzento e a calma é superficial, como a véspera de alguma coisa que não se conhece bem. sei que os braços, e sobretudo a cabeça, me doem e pesam. é como se em vez de ar carregassem mágoas, ou pesadelos, ou a ameaça de uma morte. enerva-me a inexatidão dos sentidos. e por isso levanto-me e vou caminhar. também o coração se parece de chumbo. também ele me exaspera

30 de agosto de 2021

DENTRO DE CASA OS OLHOS

Viktor Cherkasov
Foto: Viktor Cherkasov

Tinta

DENTRO DE CASA OS OLHOS

dentro de casa os olhos rodam,
linhas seguras, móveis lisos, corredores e livros,
artefactos,
uma lâmpada

os olhos desventram, procuram

andaimes de vazio, o envelope esgarçado,
a carta, a luz
– olhá-la, que desterro!

novembro de 2015

CAIR DA TARDE

Annemieke Stuij
Foto: Annemieke Stuij

Tinta

CAIR DA TARDE

um a um os pássaros respondem ao meu círculo,
voam avulsos e concêntricos,
voam como voam as galáxias,
voam como voam os grãos de poeira

ao horizonte lanço o meu olhar mais fundo.
igual ao pescador, pacientemente
eu espero

agosto de 2013