Hopper

Edward Hopper, Manhã no Cape Cod, 1950

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HOPPER

Meu caro, Edward Hopper, fazemos bem
em relativizar a felicidade. As coisas ao pé
funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias,
razões de natureza kantiana ou versículos
da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas
onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos
encontros do ser como na pasta dos dentes, no
cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo.
Talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto:
acordamos um dia em que o sol é bastante e
sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e
encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos
ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz:
metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso
ou, misericórdia infinita, o último verso.

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A tristeza de Rembrandt

Rembrandt, Autorretrato com Boina e Colarinho Levantado, 1659

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A TRISTEZA DE REMBRANDT

a questão foi sempre essa:
pode em algum momento, nalguma parte, a tristeza
de alguém satisfazer-se de alguma forma?

temos as nossas dúvidas sobre o assunto

a tristeza partilha com a água o pecado da avareza.
primeiro saltita, logo depois entrincheira-se
e um pouco mais à frente escava luzes sombrias
por entre as colinas,
um dia corta-nos o caminho

«não passarás» escreve em surdina,
«não passarás»

vejamos o caso de Rembrandt Harmenszoon van Rijn

a sua dor parece ilimitada, cresce de retrato
em retrato, como um rio que se conhece imparável
na marcha predatória

olhando os seus olhos olhados ao espelho,
vemos Saskia e as notas de dívida, a velhice estampada
nos inchamentos e nas gretas da pele

qual o tamanho ou a profundidade do seu desgosto?

temos uma ideia sobre assunto,
a água é um bom termo de comparação

um dia faz-nos submergir num delírio de papel gelatina
de prata.
mas nem aí, nem assim, se mostra ela inteiramente saciada.
a tristeza não a suporta a crusta terrestre,
o seu reino é nos infernos mais ínferos,
ou mesmo para além deles.

Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

João Ricardo Lopes é um dos poetas portugueses contemporâneos mais destacados, com traduções em inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, sueco, dinamarquês, polaco, irlandês, romeno, neerlandês, arménio e servo-croata.

Página oficial do escritor:
https://joaoricardolopes.com/

Vermeer

Johannes Vermeer, O Geógrafo, circa 1668–1669

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VERMEER

nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas

Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

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SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

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Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

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ESTRADAS SECUNDÁRIAS

para a Céu

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viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

Soeima (Alfândega da Fé), 07.12.2025

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A poinsétia

Fotografia de Jessica Fadel

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A POINSÉTIA

no vaso perdura o vermelho vivo da poinsétia.
é um prodígio que ao cabo de tantos anos esse presente de Natal
não haja sucumbido ao tempo
e continue, no seu veludo silente em forma de estrela, a lembrar
a amizade de pessoas que se estimam, ainda que ao cabo
de tantos anos, pese os agrores da vida, mesmo estando agora
uns e outros, do seu lado oposto, nas duas portas
do mundo

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