em rigor, o poema necessita apenas de um pouco de sal, de um pouco da luz de Hammershøi a prumo no soalho, dos acordes de Albéniz entre as fantasias de García Lorca
o poema precisa somente de um pedaço de terra, de um ângulo favorável na esquadria imensa do amor – pode ser uma paisagem vulcânica sobre o poente, de um versículo da Bíblia nascido a esmo entre as ervas, de um gole de café às nove em ponto, de ti ao meu lado a escutar todas as coisas – neste e noutros papéis – de que sou não o autor, mas uma harpa
Conheci-te no primeiro dia do mundo. Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía. No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía. Por dentro de nós tudo doía.
O Senhor disse: Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração. E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria. E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas. E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia. Deus criou o poema e viu que era bom. Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.
Disse o Senhor: Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo, E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores, E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.
Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.
Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me. Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde. Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar. E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela. E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.
O Senhor disse: Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras. Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória. Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta. Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.
Era o primeiro dia do mundo E eu conheci-te E tu conheceste-me.
O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus. O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa. Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher, E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem «Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»
Disse o Senhor Deus: Faça-se, por fim, o corpo das rosas. Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas. Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado, Todos os dias, hoje e para sempre. Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma, E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.
Era o primeiro dia do mundo. E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas. Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.
Era o primeiro dia do mundo, E eu amei-te, tu amaste-me E tudo doía, Como se fosse o último dia do mundo. .
subitamente damo-nos conta de que amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese o azul maculado do mar, ainda que o tempo nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades da mão
amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro das livrarias abertas – a desoras – na parte esquecida da cidade
amamos o zumbido do sol entre as sombras bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves, o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho ou saudade
amamos um piano ao longe, um poema de Emily Dickinson, um olhar piedoso
damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela tessitura das paredes, pela pele emurchada de um pai
sentimos subitamente o eclodir das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio, no bojo de uma lâmpada
encontro a minha paz ao descer o caderno até uma folha em branco
sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã, para a voz que me conduz no fio tortuoso do tempo
nos dedos sinto o rigor da água, o empenho do sabão, a Tua alegria
como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem: sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas, virão com o lume do seu desamor e essa pequena luz infinita talvez não perdure senão meia estação
mas não importa. houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre replicado dos dias do começo e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde das coisas anódinas e inúteis e sei que afortunado sou, porque a mim mo ensinaste
dois meses mais tarde regressei e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro da tristeza
não é uma chama exata, mas é real, algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante para destruir-nos o repouso do silêncio
o vento passava pela narina inanimada dos objetos e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse ver-me voltar
é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos, ainda disponíveis
anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões apodrecidos em nossa vez
depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança: digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe acerca do tempo
existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos, desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo num movimento de escorpião
digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha. fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo das estrelas, no interior de um corpo minguado e mortal
o cheiro da tristeza é o cheiro do medo
Kęstutis Navakas não chegou a responder-me. horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas tinham-no levado de ambulância
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro do medo: o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio, igual a um tumor, a um alter ergo, a um filho que nunca pensei ter
tinham passado dois meses
digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo já me não pertencia ou eu perdera para sempre a faculdade da razão
alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se como os atores no teatro de Shakespeare. o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada: de onde fui, para onde sou, quem vim?
a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular. em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me, os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores, e todos os que caminham sobre os carris. vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram
a missão de que corro atrás na vida? trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias, encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma, depois começar
a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia. a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam. um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então, ou outra coisa qualquer
o meu pai ergue estacas no quintal. com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira e depois os belos corpos pesados dos seus frutos. põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras. às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós, sempre de cócoras, sempre de costas. se lhe oferecemos uma palavra, água, um prato de nozes, ergue uma mão em sinal de protesto. amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama das galáxias. para que trabalha tanto o meu pai? a quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto? o que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões, faminta já – quero acreditar – da eternidade?