ocorrências avulsas não significam migalhas no bolso. pelo contrário, a pobreza desata-nos a língua, aponta caminhos entre os misteriosos vazios da humanidade
hoje acordei sem luz, tirei da carteira um papel antigo e li. era um poema acerca da tua morte, duro, dorido, soldando linhas tresmalhadas
à falta de melhor pagamento abrimos essa promissória. o que fica pelo meio dos versos não esconde o quanto valemos em silêncio, nós e a vida que temos
cegos ainda das imagens que ficaram do dia anterior, acordamos, acordamos muitas vezes na mesma manhã
os estilhaços estão por toda a parte, fazem parecer impossível a inteireza de uma ideia ou a força de um rumo
recordarmos uma estrada, por exemplo aquela em São Miguel ladeada de hortênsias altas, ou a que no deserto de Lanzarote parecia conduzir-nos ao abismo
a vida ilude
olhada muito de perto, como um fotograma de Tarkovsky, sugere linhas ininteligíveis, absurdidade pura, ofensas gratuitas, filões de poesia emaranhando sofrimento
lembramo-nos também daquela estrada em ziguezague entre a floresta do Fanal e Ponta do Sol
a vertigem alimenta em nós sentimentos ancestrais
acordamos cansados, cheios de silêncio, limpando no canto dos lábios frases mortas à nascença quando nos queríamos olhar um ao outro
porém algo mudou. talvez uma estação tenha passado por nós e posto no lugar das velhas ressonâncias um certo vinho novo, um mel mais doce, um amor mais sincrético, igual a esse que liga os arbustos, o pó e o asfalto obediente ao mesmo corpo quieto das noites de insónia
pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira e ouro e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía, quase líquida
imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio e mãos inexoráveis o rechaçaram
vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência se encavalita, esquecida do azul sem mancha do horizonte
Tu estavas aí vergando as árvores com o vento, atravessando com os meus ossos o arco das pontes. Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços, a miopia do coração
Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes: a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios e o lume das estrelas
soube que não descias somente às coisas, mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo que nas coisas envelhece e renasce, é e não é, maravilha e infunde o medo
senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse, pois também as palavras são um modo de pertencer-te, mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos
de manhã a cidade parecia-lhe orgânica, eficaz,
cheia de corpos humanos
vivos, mas sem doçura
subia o passeio do Prado, bebia um café
e entrava
muitas vezes se demorou nas paisagens flamengas,
no Cristo de Antoon van Dyck, nas belas representações
do Novo Mundo, nos moinhos de van Gogh
acontecia-lhe no hotel escutar o som da chuva,
porém era um engano.
ao regressar à rua, Madrid recebia-o sempre
com o ar quente de uma notícia em cima da hora,
sem tempo para a melancolia
ou para o amor
como no Viaduto de Paul Delvaux, havia ali
ferro, solidão e luzes acesas.
guardava as suas orações em estudo bruto,
físicas, sem lhes engatilhar – contudo – o poder
do fogo
em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas, cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa
no lugar do abatimento, da astenia, do desespero, há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias dos pequenos gatos cor de laranja no quintal
onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica, lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare, o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno, o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini
moral da história, também as palavras são equívocas e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro – com melhor ou muito pior grafia
quando rezardes, dizei assim: bendita seja esta mesa onde repousam agora o pão e o queijo, o café e os frutos, onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados, a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas juntam a natureza do homem às benesses da terra, o desejo de viver à alegria de perdurar
bendito sejas tu, que nos doas a razão e nos fizeste um dia aprender as palavras certas com que podemos venerar o instante e amar, depois dele, não o tempo, mas o que em nós tocou