Alguns limões

Foto de Vitaliy Shevchenko

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ALGUNS LIMÕES

dois meses mais tarde regressei
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro da tristeza

não é uma chama exata, mas é real,
algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando
com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante
para destruir-nos o repouso do silêncio

o vento passava pela narina inanimada dos objetos
e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância
pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse
ver-me voltar

é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira
a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos
sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além
uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos
atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos,
ainda disponíveis

anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões
apodrecidos em nossa vez

depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei
que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança:
digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe
acerca do tempo

existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar
pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos,
desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo
num movimento de escorpião

digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha.
fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo
das estrelas, no interior de um corpo minguado
e mortal

o cheiro da tristeza é o cheiro do medo

Kęstutis Navakas não chegou a responder-me.
horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas
tinham-no levado de ambulância

e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro do medo:
o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio,
igual a um tumor, a um alter ergo,
a um filho que nunca pensei ter

tinham passado dois meses

digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo
já me não pertencia ou eu perdera para sempre
a faculdade da razão

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Arrabaldes

Fotografia de Brian Isukeyi

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ARRABALDES

alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se
como os atores no teatro de Shakespeare.
o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos
surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada:
de onde fui, para onde sou, quem vim?

a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular.
em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me,
os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores,
e todos os que caminham sobre os carris.
vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram

a missão de que corro atrás na vida?
trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias,
encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma,
depois começar

a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia.
depois dos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam.
um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então,
ou outra coisa qualquer

Madrid, 17.04.2026

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O meu pai

Fotografia de Florin Dumitru

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O MEU PAI

O meu pai ergue estacas no quintal.
Com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas
e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira
e depois os belos corpos pesados dos seus frutos.
Põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame
e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras.
Às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós,
sempre de cócoras, sempre de costas.
Se lhe oferecemos uma palavra, água, uma mão cheia de nozes limpas,
ergue uma mão em sinal de protesto.
Amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo
e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama
das galáxias.
Para que trabalha tanto o meu pai?
A quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto?
O que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões,
faminta já – quero acreditar – da eternidade?

19.03.2026

Hopper

Edward Hopper, Manhã no Cape Cod, 1950

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HOPPER

Meu caro, Edward Hopper, fazemos bem
em relativizar a felicidade. As coisas ao pé
funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias,
razões de natureza kantiana ou versículos
da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas
onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos
encontros do ser como na pasta dos dentes, no
cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo.
Talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto:
acordamos um dia em que o sol é bastante e
sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e
encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos
ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz:
metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso
ou, misericórdia infinita, o último verso.

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A tristeza de Rembrandt

Rembrandt, Autorretrato com Boina e Colarinho Levantado, 1659

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A TRISTEZA DE REMBRANDT

a questão foi sempre essa:
pode em algum momento, nalguma parte, a tristeza
de alguém satisfazer-se de alguma forma?

temos as nossas dúvidas sobre o assunto

a tristeza partilha com a água o pecado da avareza.
primeiro saltita, logo depois entrincheira-se
e um pouco mais à frente escava luzes sombrias
por entre as colinas,
um dia corta-nos o caminho

«não passarás» escreve em surdina,
«não passarás»

vejamos o caso de Rembrandt Harmenszoon van Rijn

a sua dor parece ilimitada, cresce de retrato
em retrato, como um rio que se conhece imparável
na marcha predatória

olhando os seus olhos olhados ao espelho,
vemos Saskia e as notas de dívida, a velhice estampada
nos inchamentos e nas gretas da pele

qual o tamanho ou a profundidade do seu desgosto?

temos uma ideia sobre assunto,
a água é um bom termo de comparação

um dia faz-nos submergir num delírio de papel gelatina
de prata.
mas nem aí, nem assim, se mostra ela inteiramente saciada.
a tristeza não a suporta a crusta terrestre,
o seu reino é nos infernos mais ínferos,
ou mesmo para além deles.

Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

João Ricardo Lopes é um dos poetas portugueses contemporâneos mais destacados, com traduções em inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, sueco, dinamarquês, polaco, irlandês, romeno, neerlandês, arménio e servo-croata.

Página oficial do escritor:
https://joaoricardolopes.com/

Vermeer

Johannes Vermeer, O Geógrafo, circa 1668–1669

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VERMEER

nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas