Enquanto se limpa os pratos

Fotografia de Lukas Stoermer

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ENQUANTO SE LIMPA OS PRATOS

noite

os provérbios ligam-se e religam-se uns
aos outros como átomos ancestrais. os mortos
falam na nossa língua depurada, sem
redundâncias

há ervas dormindo-nos aos pés. o peso
alveolar da luz instala-se
nos pulmões

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Papel dobrado

Foto do arquivo familiar

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PAPEL DOBRADO

ocorrências avulsas não significam migalhas no bolso.
pelo contrário, a pobreza desata-nos a língua,
aponta caminhos entre os misteriosos vazios
da humanidade

hoje acordei sem luz,
tirei da carteira um papel antigo e li.
era um poema acerca da tua morte, duro, dorido,
soldando linhas tresmalhadas

à falta de melhor pagamento abrimos essa promissória.
o que fica pelo meio dos versos não esconde
o quanto valemos em silêncio,
nós e a vida que temos

21.09.2026

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Insónia

Fotografia de Branislav Fabijanic

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INSÓNIA


cegos ainda das imagens que ficaram do dia anterior,
acordamos,
acordamos muitas vezes na mesma manhã

os estilhaços estão por toda a parte,
fazem parecer impossível a inteireza de uma ideia
ou a força de um rumo

recordarmos uma estrada,
por exemplo aquela em São Miguel ladeada de hortênsias altas,
ou a que no deserto de Lanzarote parecia conduzir-nos
ao abismo

a vida ilude

olhada muito de perto, como um fotograma de Tarkovsky,
sugere linhas ininteligíveis, absurdidade pura, ofensas gratuitas,
filões de poesia emaranhando sofrimento

lembramo-nos também daquela estrada em ziguezague
entre a floresta do Fanal e Ponta do Sol

a vertigem alimenta em nós sentimentos ancestrais

acordamos cansados, cheios de silêncio,
limpando no canto dos lábios frases mortas à nascença
quando nos queríamos olhar um ao outro

porém algo mudou.
talvez uma estação tenha passado por nós e posto
no lugar das velhas ressonâncias um certo vinho novo,
um mel mais doce, um amor mais sincrético,
igual a esse que liga os arbustos, o pó e o asfalto obediente
ao mesmo corpo quieto
das noites de insónia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Toledo

Fotografia de Thomas Haas

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TOLEDO

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para a Catarina

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pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira
e ouro
e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía,
quase líquida

imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos
sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio
e mãos inexoráveis o rechaçaram

vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando
a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência
se encavalita, esquecida do azul sem mancha
do horizonte

Tu estavas aí vergando as árvores com o vento,
atravessando com os meus ossos o arco das pontes.
Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços,
a miopia do coração

Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes:
a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios
e o lume das estrelas

soube que não descias somente às coisas,
mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo
que nas coisas envelhece e renasce,
é e não é,
maravilha e infunde o medo

senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse,
pois também as palavras são um modo de pertencer-te,
mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos

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© João Ricardo Lopes (04.09.2026)

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Thyssen, Madrid

Paul Delvaux, O Viaduto, 1963

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THYSSEN, MADRID

de manhã a cidade parecia-lhe orgânica, eficaz,
cheia de corpos humanos
vivos, mas sem doçura

subia o passeio do Prado, bebia um café
e entrava

muitas vezes se demorou nas paisagens flamengas,
no Cristo de Antoon van Dyck, nas belas representações
do Novo Mundo, nos moinhos de van Gogh

acontecia-lhe no hotel escutar o som da chuva,
porém era um engano.
ao regressar à rua, Madrid recebia-o sempre
com o ar quente de uma notícia em cima da hora,
sem tempo para a melancolia
ou para o amor

como no Viaduto de Paul Delvaux, havia ali
ferro, solidão e luzes acesas.
guardava as suas orações em estudo bruto,
físicas, sem lhes engatilhar – contudo – o poder
do fogo

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© João Ricardo Lopes (02.09.2026)

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Errata

Fotografia de Kato Blackmore

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ERRATA

existe sempre uma manhã diferente das outras

em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas,
cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa

no lugar do abatimento, da astenia, do desespero,
há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias
dos pequenos gatos cor de laranja no quintal

onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo
divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica,
lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare,
o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno,
o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini

moral da história, também as palavras são equívocas
e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro –
com melhor ou muito pior grafia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Oração

Fotografia Mike Von

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ORAÇÃO

quando rezardes, dizei assim:
bendita seja esta mesa onde repousam agora
o pão e o queijo, o café e os frutos,
onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados,
a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas
juntam a natureza do homem às benesses da terra,
o desejo de viver à alegria de perdurar

bendito sejas tu, que nos doas a razão
e nos fizeste um dia aprender as palavras certas
com que podemos venerar o instante e amar, depois dele,
não o tempo, mas o que em nós tocou

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© João Ricardo Lopes, Funchal, 25.06.2026

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