pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira e ouro e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía, quase líquida
imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio e mãos inexoráveis o rechaçaram
vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência se encavalita, esquecida do azul sem mancha do horizonte
Tu estavas aí vergando as árvores com o vento, atravessando com os meus ossos o arco das pontes. Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços, a miopia do coração
Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes: a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios e o lume das estrelas
soube que não descias somente às coisas, mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo que nas coisas envelhece e renasce, é e não é, maravilha e infunde o medo
senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse, pois também as palavras são um modo de pertencer-te, mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos
de manhã a cidade parecia-lhe orgânica, eficaz,
cheia de corpos humanos
vivos, mas sem doçura
subia o passeio do Prado, bebia um café
e entrava
muitas vezes se demorou nas paisagens flamengas,
no Cristo de Antoon van Dyck, nas belas representações
do Novo Mundo, nos moinhos de van Gogh
acontecia-lhe no hotel escutar o som da chuva,
porém era um engano.
ao regressar à rua, Madrid recebia-o sempre
com o ar quente de uma notícia em cima da hora,
sem tempo para a melancolia
ou para o amor
como no Viaduto de Paul Delvaux, havia ali
ferro, solidão e luzes acesas.
guardava as suas orações em estudo bruto,
físicas, sem lhes engatilhar – contudo – o poder
do fogo
em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas, cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa
no lugar do abatimento, da astenia, do desespero, há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias dos pequenos gatos cor de laranja no quintal
onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica, lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare, o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno, o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini
moral da história, também as palavras são equívocas e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro – com melhor ou muito pior grafia
quando rezardes, dizei assim: bendita seja esta mesa onde repousam agora o pão e o queijo, o café e os frutos, onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados, a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas juntam a natureza do homem às benesses da terra, o desejo de viver à alegria de perdurar
bendito sejas tu, que nos doas a razão e nos fizeste um dia aprender as palavras certas com que podemos venerar o instante e amar, depois dele, não o tempo, mas o que em nós tocou
Conheci-te no primeiro dia do mundo. Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía. No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía. Por dentro de nós tudo doía.
O Senhor disse: Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração. E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria. E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas. E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia. Deus criou o poema e viu que era bom. Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.
Disse o Senhor: Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo, E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores, E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.
Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.
Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me. Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde. Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar. E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela. E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.
O Senhor disse: Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras. Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória. Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta. Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.
Era o primeiro dia do mundo E eu conheci-te E tu conheceste-me.
O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus. O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa. Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher, E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem «Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»
Disse o Senhor Deus: Faça-se, por fim, o corpo das rosas. Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas. Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado, Todos os dias, hoje e para sempre. Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma, E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.
Era o primeiro dia do mundo. E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas. Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.
Era o primeiro dia do mundo, E eu amei-te, tu amaste-me E tudo doía, Como se fosse o último dia do mundo. .
subitamente damo-nos conta de que amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese o azul maculado do mar, ainda que o tempo nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades da mão
amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro das livrarias abertas – a desoras – na parte esquecida da cidade
amamos o zumbido do sol entre as sombras bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves, o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho ou saudade
amamos um piano ao longe, um poema de Emily Dickinson, um olhar piedoso
damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela tessitura das paredes, pela pele emurchada de um pai
sentimos subitamente o eclodir das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio, no bojo de uma lâmpada
encontro a minha paz ao descer o caderno até uma folha em branco
sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã, para a voz que me conduz no fio tortuoso do tempo
nos dedos sinto o rigor da água, o empenho do sabão, a Tua alegria
como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem: sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas, virão com o lume do seu desamor e essa pequena luz infinita talvez não perdure senão meia estação
mas não importa. houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre replicado dos dias do começo e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde das coisas anódinas e inúteis e sei que afortunado sou, porque a mim mo ensinaste