A tristeza de Rembrandt

Rembrandt, Autorretrato com Boina e Colarinho Levantado, 1659

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A TRISTEZA DE REMBRANDT

a questão foi sempre essa:
pode em algum momento, nalguma parte, a tristeza
de alguém satisfazer-se de alguma forma?

temos as nossas dúvidas sobre o assunto

a tristeza partilha com a água o pecado da avareza.
primeiro saltita, logo depois entrincheira-se
e um pouco mais à frente escava luzes sombrias
por entre as colinas,
um dia corta-nos o caminho

«não passarás» escreve em surdina,
«não passarás»

vejamos o caso de Rembrandt Harmenszoon van Rijn

a sua dor parece ilimitada, cresce de retrato
em retrato, como um rio que se conhece imparável
na marcha predatória

olhando os seus olhos olhados ao espelho,
vemos Saskia e as notas de dívida, a velhice estampada
nos inchamentos e nas gretas da pele

qual o tamanho ou a profundidade do seu desgosto?

temos uma ideia sobre assunto,
a água é um bom termo de comparação

um dia faz-nos submergir num delírio de papel gelatina
de prata.
mas nem aí, nem assim, se mostra ela inteiramente saciada.
a tristeza não a suporta a crusta terrestre,
o seu reino é nos infernos mais ínferos,
ou mesmo para além deles

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Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto
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Vermeer

Johannes Vermeer, O Geógrafo, circa 1668–1669

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VERMEER

nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas

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Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

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SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

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Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

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ESTRADAS SECUNDÁRIAS

para a Céu

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viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

Soeima (Alfândega da Fé), 07.12.2025

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A poinsétia

Fotografia de Jessica Fadel

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A POINSÉTIA

no vaso perdura o vermelho vivo da poinsétia.
é um prodígio que ao cabo de tantos anos este presente de Natal
não haja sucumbido aos agrores do tempo e continue,
no seu silente veludo em forma de estrela, a lembrar a amizade
de pessoas que se estimam, mesmo que ao fim de tantos anos,
mesmo que estejamos, agora, cada qual, do seu lado oposto
das duas portas do mundo

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O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

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O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

Mirandela, 08.12.2025

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