Papel dobrado

Foto do arquivo familiar

.

PAPEL DOBRADO

ocorrências avulsas não significam migalhas no bolso.
pelo contrário, a pobreza desata-nos a língua,
aponta caminhos entre os misteriosos vazios
da humanidade

hoje acordei sem luz,
tirei da carteira um papel antigo e li.
era um poema acerca da tua morte, duro, dorido,
soldando linhas tresmalhadas

à falta de melhor pagamento abrimos essa promissória.
o que fica pelo meio dos versos não esconde
o quanto valemos em silêncio,
nós e a vida que temos

21.09.2026

.

Toledo

Fotografia de Thomas Haas

.

TOLEDO

.

para a Catarina

.

pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira
e ouro
e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía,
quase líquida

imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos
sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio
e mãos inexoráveis o rechaçaram

vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando
a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência
se encavalita, esquecida do azul sem mancha
do horizonte

Tu estavas aí vergando as árvores com o vento,
atravessando com os meus ossos o arco das pontes.
Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços,
a miopia do coração

Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes:
a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios
e o lume das estrelas

soube que não descias somente às coisas,
mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo
que nas coisas envelhece e renasce,
é e não é,
maravilha e infunde o medo

senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse,
pois também as palavras são um modo de pertencer-te,
mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos

.
© João Ricardo Lopes (04.09.2026)

.

Thyssen, Madrid

Paul Delvaux, O Viaduto, 1963

.

THYSSEN, MADRID

de manhã a cidade parecia-lhe orgânica, eficaz,
cheia de corpos humanos
vivos, mas sem doçura

subia o passeio do Prado, bebia um café
e entrava

muitas vezes se demorou nas paisagens flamengas,
no Cristo de Antoon van Dyck, nas belas representações
do Novo Mundo, nos moinhos de van Gogh

acontecia-lhe no hotel escutar o som da chuva,
porém era um engano.
ao regressar à rua, Madrid recebia-o sempre
com o ar quente de uma notícia em cima da hora,
sem tempo para a melancolia
ou para o amor

como no Viaduto de Paul Delvaux, havia ali
ferro, solidão e luzes acesas.
guardava as suas orações em estudo bruto,
físicas, sem lhes engatilhar – contudo – o poder
do fogo

.

© João Ricardo Lopes (02.09.2026)

.

Quarenta e nove rosas

Fotografia de Gian D

.

QUARENTA E NOVE ROSAS

.

Para ti, Céu, meu amor, no dia do nosso casamento

.

Conheci-te no primeiro dia do mundo.
Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía.
No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía.
Por dentro de nós tudo doía.

O Senhor disse:
Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração.
E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria.
E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas.
E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia.
Deus criou o poema e viu que era bom.
Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.

Disse o Senhor:
Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo,
E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores,
E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.

Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.

Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me.
Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde.
Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar.
E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela.
E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.

O Senhor disse:
Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras.
Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória.
Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta.
Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.

Era o primeiro dia do mundo
E eu conheci-te
E tu conheceste-me.

O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus.
O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa.
Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher,
E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem
«Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»

Disse o Senhor Deus:
Faça-se, por fim, o corpo das rosas.
Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas.
Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado,
Todos os dias, hoje e para sempre.
Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma,
E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.

Era o primeiro dia do mundo.
E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição
E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas.
Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.

Era o primeiro dia do mundo,
E eu amei-te, tu amaste-me
E tudo doía,
Como se fosse o último dia do mundo.
.

© João Ricardo Lopes (2026).

.
Leitura do poema no Youtube
.

O meu pai

Fotografia de Florin Dumitru

.

O MEU PAI

o meu pai ergue estacas no quintal.
com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas
e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira
e depois os belos corpos pesados dos seus frutos.
põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame
e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras.
às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós,
sempre de cócoras, sempre de costas.
se lhe oferecemos uma palavra, água, um prato de nozes,
ergue uma mão em sinal de protesto.
amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo
e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama
das galáxias.
para que trabalha tanto o meu pai?
a quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto?
o que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões,
faminta já – quero acreditar – da eternidade?

.
© João Ricardo Lopes (2026)

.

.

Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

.
FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

.

© João Ricardo Lopes (2026)

.

Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

.

SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

.

© João Ricardo Lopes (2026)

.