SERÁ SEMPRE UMA ESPÉCIE DE PRÓLOGO

Old house, in ruins. Maison ancienne, en ruine. Vecchia casa, in rovina. Casa antigua, en ruinas. 古い家、廃墟。
Fotografia de Dimitris Vetsikas

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SERÁ SEMPRE UMA ESPÉCIE DE PRÓLOGO

silêncio, a casa abandonada,
o olhar em fuga pelas paredes sem cal,
as vigas a céu aberto,
a cauda das estrelas,
os estalidos,
o chão sem fundo sobre o abismo da terra,
os antigos móveis que empilharam, em cujas gavetas
permanecem numa dignidade de aristocratas defuntos
as memórias e o caruncho,
o amor e a solidão absoluta

silêncio, sim.
a casa que deixámos decair, como se fosse,
por assim dizer, uma religião esquecida

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CINZAS

Andreas Lischka - wood
Fotografia de Andreas Lischka

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CINZAS

para Amélia Pereira, minha avó

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o cheiro das cinzas é quase
tão indecifrável quanto
a efusão da tinta.
com elas escrevemos
não palavras, mas o silêncio,
não a manhã, mas memórias,
não o fim, mas um rosto –
também ele impossível
de dizer,
seja de que forma for

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NO CENTENÁRIO DE EUGÉNIO DE ANDRADE

Foz do Porto, Portugal
Fotografia de Adri Marie

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NO CENTENÁRIO DE EUGÉNIO DE ANDRADE

procurava o mar
como quem busca o som de um provérbio,
ou o frio de novembro
para no tempo se agasalhar do tempo

a imensidão da água
– o que quer que ela fosse –
era o mais parecido que há
com a eternidade

seguia pelo areal com a crença
do peregrino
a quem faltassem motivos
para acreditar

às vezes percutia-lhe nos pés
uma concha náufraga,
quebrada,
moribunda

e havia nisto um sentido,
uma dor escanzelada e aguda, uma metáfora:
algo lhe mostrava alguém,
alguém lhe dizia algo

19.01.2023

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BRUXELAS

Bruxelas
Fotografia de Céu Mota

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BRUXELAS

de noite todos os olhos são gatos
foi o que pensei naquela varanda de hotel
em Bruxelas, enquanto sobre nós
(em direção a Zaventem)
descia o ronco dos aviões
e o fumo de um cigarro nos embrulhava
aos dois, caçado e caçador, e vice-versa

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BACH, POR FAVOR!

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Fotografia de Gabicuz

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BACH, POR FAVOR!

esqueço-me de tudo,
do claro pavor das impurezas, dos remorsos,
dos desastres,
das viagens por fazer,
dos pássaros e amores voláteis,
do rosto sombrio que me persegue no espelho,
dos dias sem sonhar

engelha-se-me o coração.
Bach, por favor!

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ENTRE A PRIMAVERA E O VERÃO

Rudy and Peter Skitterians
Fotografia de Rudy and Peter Skitterians (Pixabay)

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ENTRE A PRIMAVERA E O VERÃO

os meus sobrinhos são o mais parecido que tenho
com a minha infância

gosto deste tempo,
do perfume venturoso das ervas frescas,
do modo como as manhãs nos ressuscitam das noites insones
e do torpor.
gosto deste sol que rutila numa parte da montanha
e torna mais vívidos os lugares da água,
da vermelhidão dos cravos,
dos olhos dos pássaros,
de tudo

os meus sobrinhos brincam no pátio, alteiam a voz,
imitam a imensidão dos gatos

pedem-me às vezes uma história,
pedem que lhes faça pendular o baloiço,
que inculque no seu tempo um lugar novo, indecifrável

entre a primavera e o verão – é aí que encontro
o meu próprio eu,
a minha secreta preferência pelas coisas,
a minha plenitude

a água corre ao tanque
e os pardais lavam o ar com o seu labor incessante.
olho as cerejas e os morangos entre as folhas
e os meus sobrinhos sorriem comigo

é aí, algures no quintal – é aí
que encontro esse bem que tão bem conheço
e de que tão pouco (ainda hoje) posso ou sei dizer

a infância é a melhor definição do amor

afortunado quem assim a descortina,
cismando nas crianças que brincam
sem ideia da luz
que ao redor de si e dos outros fazem transbordar
absolutamente álacre e limpa

21.06.2022