Arrabaldes

Fotografia de Brian Isukeyi

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ARRABALDES

alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se
como os atores no teatro de Shakespeare.
o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos
surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada:
de onde fui, para onde sou, quem vim?

a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular.
em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me,
os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores,
e todos os que caminham sobre os carris.
vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram

a missão de que corro atrás na vida?
trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias,
encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma,
depois começar

a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia.
a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam.
um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então,
ou outra coisa qualquer

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© João Ricardo Lopes (Madrid, 2026)..

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A tristeza de Rembrandt

Rembrandt, Autorretrato com Boina e Colarinho Levantado, 1659

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A TRISTEZA DE REMBRANDT

a questão foi sempre essa:
pode em algum momento, nalguma parte, a tristeza
de alguém satisfazer-se de alguma forma?

temos as nossas dúvidas sobre o assunto

a tristeza partilha com a água o pecado da avareza.
primeiro saltita, logo depois entrincheira-se
e um pouco mais à frente escava luzes sombrias
por entre as colinas,
um dia corta-nos o caminho

«não passarás» escreve em surdina,
«não passarás»

vejamos o caso de Rembrandt Harmenszoon van Rijn

a sua dor parece ilimitada, cresce de retrato
em retrato, como um rio que se conhece imparável
na marcha predatória

olhando os seus olhos olhados ao espelho,
vemos Saskia e as notas de dívida, a velhice estampada
nos inchamentos e nas gretas da pele

qual o tamanho ou a profundidade do seu desgosto?

temos uma ideia sobre assunto,
a água é um bom termo de comparação

um dia faz-nos submergir num delírio de papel gelatina
de prata.
mas nem aí, nem assim, se mostra ela inteiramente saciada.
a tristeza não a suporta a crusta terrestre,
o seu reino é nos infernos mais ínferos,
ou mesmo para além deles.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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