ocorrências avulsas não significam migalhas no bolso. pelo contrário, a pobreza desata-nos a língua, aponta caminhos entre os misteriosos vazios da humanidade
hoje acordei sem luz, tirei da carteira um papel antigo e li. era um poema acerca da tua morte, duro, dorido, soldando linhas tresmalhadas
à falta de melhor pagamento abrimos essa promissória. o que fica pelo meio dos versos não esconde o quanto valemos em silêncio, nós e a vida que temos
Conheci-te no primeiro dia do mundo. Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía. No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía. Por dentro de nós tudo doía.
O Senhor disse: Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração. E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria. E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas. E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia. Deus criou o poema e viu que era bom. Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.
Disse o Senhor: Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo, E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores, E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.
Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.
Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me. Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde. Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar. E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela. E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.
O Senhor disse: Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras. Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória. Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta. Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.
Era o primeiro dia do mundo E eu conheci-te E tu conheceste-me.
O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus. O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa. Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher, E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem «Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»
Disse o Senhor Deus: Faça-se, por fim, o corpo das rosas. Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas. Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado, Todos os dias, hoje e para sempre. Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma, E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.
Era o primeiro dia do mundo. E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas. Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.
Era o primeiro dia do mundo, E eu amei-te, tu amaste-me E tudo doía, Como se fosse o último dia do mundo. .
encontro a minha paz ao descer o caderno até uma folha em branco
sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã, para a voz que me conduz no fio tortuoso do tempo
nos dedos sinto o rigor da água, o empenho do sabão, a Tua alegria
como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem: sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas, virão com o lume do seu desamor e essa pequena luz infinita talvez não perdure senão meia estação
mas não importa. houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre replicado dos dias do começo e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde das coisas anódinas e inúteis e sei que afortunado sou, porque a mim mo ensinaste