os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém
às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde para um café. o interior da chávena, como se umbigo do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo, um olhar, falsas promessas, o desfecho que há muito se pedia para um poema
a solitude reage ao tampo de mármore, tomba num movimento próprio de corpo atingido por uma saraivado de flechas
vemos de súbito lugares de infância, colegas da faculdade, frases que um dia lemos obliquamente no interior de um livro preferido e que foram decerto escritas para a nossa catarse
o café é um lenitivo, um veneno, uma porta para o abismo
às vezes nada resta sobre o tampo álbido de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas tristes, contadas, como palavras que emudeceram para sempre e que guardam para nós, ainda, o pouco sol de uma consolação