O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

.

O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

.

© João Ricardo Lopes (Mirandela, 2025)

.

Consolação

Fotografia de Massimiliano Mancini

.
CONSOLAÇÃO

às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde
para um café.
o interior da chávena, como se umbigo
do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo,
um olhar, falsas promessas, o desfecho
que há muito se pedia para um poema

a solitude reage ao tampo de mármore, tomba
num movimento próprio de corpo atingido
por uma saraivado de flechas

vemos de súbito lugares de infância, colegas
da faculdade, frases que um dia lemos
obliquamente
no interior de um livro preferido
e que foram decerto escritas para a nossa catarse

o café é um lenitivo, um veneno, uma porta
para o abismo

às vezes nada resta sobre o tampo álbido
de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas
tristes, contadas,
como palavras que emudeceram para sempre
e que guardam para nós, ainda, o pouco sol
de uma consolação

.
© João Ricardo Lopes (2024)

.

Consoada

Casa em ruínas.
Fotografia de Sven Fennema

.

CONSOADA

num canto penumbroso da casa Ziro observava-se diante um espelho antigo
estremecendo à passagem do ar frio pelas frinchas

os meus avós viveram aqui

a lareira mascarrada sem fogo com os tijolos à mostra
não convencia ninguém,
nem ela, nem as janelas presas por arame, desvidradas

só as silvas, com as suas línguas
farpadas, arrepiavam:
mal os conheci.
esta noite seremos só eu e a minha mãe

havia restos da telha por toda a parte.
com os cacos desenhávamos cruzes no chão

no meio do entulho esmagado rebentavam
pés de azevinho

como podia o visqueiro nascer ali
era uma boa pergunta,
era uma excelente pergunta

.