Subitamente

Fotografia de Sören H.

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SUBITAMENTE

subitamente damo-nos conta de que
amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese
o azul maculado do mar, ainda que o tempo
nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades
da mão

amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro
das livrarias abertas – a desoras – na parte
esquecida da cidade

amamos o zumbido do sol entre as sombras
bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves,
o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho
ou saudade

amamos um piano ao longe, um poema de
Emily Dickinson, um olhar piedoso

damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói
muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela
tessitura das paredes, pela pele emurchada
de um pai

sentimos subitamente o eclodir
das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira
ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio,
no bojo de uma lâmpada

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© João Ricardo Lopes (2026)

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O meu pai

Fotografia de Florin Dumitru

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O MEU PAI

o meu pai ergue estacas no quintal.
com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas
e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira
e depois os belos corpos pesados dos seus frutos.
põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame
e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras.
às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós,
sempre de cócoras, sempre de costas.
se lhe oferecemos uma palavra, água, um prato de nozes,
ergue uma mão em sinal de protesto.
amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo
e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama
das galáxias.
para que trabalha tanto o meu pai?
a quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto?
o que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões,
faminta já – quero acreditar – da eternidade?

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

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ESTRADAS SECUNDÁRIAS

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para a Céu

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viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

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© João Ricardo Lopes (Soeima, Alfândega da Fé, 2025)

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O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

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O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

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© João Ricardo Lopes (Mirandela, 2025)

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Escolhe um bom lugar para morrer

pôr do sol na praia; sunset at beach; ocaso no mar;
Fotografia de Freddy Beaumont

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ESCOLHE UM BOM LUGAR PARA MORRER

escolhe um bom lugar para morrer.
não permitas que as circunstâncias banalizem
a tua vida, mesmo que a vida do fim,
mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se
na terra, mesmo se essa vida noutra coisa
te destrona

escolhe um bom lugar para morrer:
um candeeiro aceso, uma gota de água,
o bico de um pássaro

partir não é uma minudência qualquer.
nenhuma criatura deve abandonar este mundo
à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando
um relâmpago na memória

não permitas que te soneguem
o derradeiro impulso da alma: filho,
quando morreres, morre
em paz

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© João Ricardo Lopes (2024)

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A Solidão, segundo Paul Malvaux

Paul Delvaux, Loneliness, 1956
Paul Delvaux, Loneliness, 1956

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A SOLIDÃO, SEGUNDO PAUL DELVAUX

este é o lugar mais feio da cidade:
linhas de alta tensão, vagões esquálidos, travessas fedorentas
por onde saltitam os pincéis e as trinchas de creosoto,
nesgas de terra vermelha ao longo dos carris,
gente que esmaga beatas e as semeia entre tufos audazes
de cerefólio e de funcho

mas a noite, como os operários da manutenção, salva
este horror.
aos poucos os comboios intervalam-se mais,
o sossego faz esmorecer o rancor dos cigarros,
as primeiras luzes acordam nos lampiões anacrónicos
e a lua (inteiriça, dura) atira-se sobre o pontilhão de ferro

ela, chamei-lhe Laura – e não tenho ainda outro nome –
chega sempre tarde.
reconheço-lhe o som dos tacões no pavimento,
o sobressalto, o sobretudo vermelho que a ilumina na penumbra.
ultimamente hesita, caminha mais devagar, quase espero
que se volte de repente, afogueada, contra o meu olhar

imagino que Laura pressinta o mesmo que eu:
que as trevas transfiguram os lugares feios,
que as trevas tornam mais aceitáveis os fios confusos do telégrafo,
que a solidão dos edifícios encardidos e os carris sujos
nada importa se alguém nos olha, mesmo que à distância,
mesmo que recriminando em silêncio a nossa miserável vocação

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Amor

Fotografia de Valeria Luisa
Fotografia de Valeria Luisa

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AMOR

era no tempo das flores,
o sol estava para lá dos cílios,
no ar sentia-se o desenho vibrante de um zangão.
deitado na erva, eu não pensava em nada,
nem sequer no silêncio

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