DEUS

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Foto retirado do banco de imagens Pixabay

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DEUS

Dieu
je t’apelle
comme si tu existais
Anise Kolz

Mendonça encontrava deus nos baldios,
Eliot descobriu-o (a ele e a três leopardos albinos)
debaixo de um junípero azul,
Cocteau tocou-o na face mais fresca
da almofada

aos quarenta e cinco preocupa-me
em lado nenhum o ter descortinado ainda

talvez desconfie do vento, do vento que desalinha
os cabelos e nos enregela os ossos,
quando rente ao mar caminhamos lado a lado
e nevoenta – espumosa – a tarde cai sobre a cidade
e dedos longínquos de vapor – invisíveis –
acendem e ocultam e amam os lampiões

ALFÂNDEGA DA FÉ

Alfândega da Fé
Foto de arquivo pessoal (2021)

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ALFÂNDEGA DA FÉ

é no alto que melhor se escuta
o murmúrio do vento cavando a terra.
a paisagem é verde, ocre, branca, castanha,
às vezes um pouco cinzenta também,
acobreada,
às vezes (se o sol abre por entre
as nuvens) de um ouro resplandecente,
onde os cerejais, os soutos, as amendoeiras,
os olivais se perfilam compactos

o silêncio e o sopro do vento
fazem-nos pensar em deus.
é no alto, no azimute de azuis sucessivos,
que melhor ele se escuta,
diríamos, que melhor o vemos nós

agosto de 2021