Louvor

Fotografia de Mykyta Martynenko

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LOUVOR

encontro a minha paz ao descer o caderno
até uma folha em branco

sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras
guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã,
para a voz que me conduz no fio tortuoso
do tempo

nos dedos sinto o rigor da água, o empenho
do sabão, a Tua alegria

como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem:
sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas,
virão com o lume do seu desamor
e essa pequena luz infinita talvez não perdure
senão meia estação

mas não importa.
houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre
replicado dos dias do começo
e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde
anódino das coisas inúteis e acessórias
e sei que sou afortunadoporque a mim mo ensinaste

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© João Ricardo Lopes (2026)

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O caos

Fotografia de Hulki Okan Tabak

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O CAOS

os dias atropelam-se às vezes na mesma linha
em que as manhãs pedem um poema

sabemos que o tempo é outro
quando o crocitar das gralhas interrompe a neblina do bosque
e nos torna permeáveis ao frio

deus, talvez uma variável do silêncio, mostra-se
um pouco mais nas mãos

sabemos que o tempo lhe pertence
porque a pele se tinge de medo e de euforia ao sol
e se entrega por completo ao esquecimento

palavras que não são nossas perpassam o ar gélido
e percutem, não indefesas mas caóticas.

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Oração

Moollyem, pray, oração, deus, fé
Fotografia de Moollyem

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ORAÇÃO

de toda a perdição, dos males que envenenam a cabeça, do desamor raivoso, da metade álgida dos lençóis nas noites de dezembro, da sujidade da casa e mais do que ela da imundície do corpo, da volúpia do erro, da infensa admoestação dos puritanos, dos filhos que ignoram a verdade por vontade própria, da velhice que nos corre nas veias fermentadora e que um dia nos exporá à luz como toupeiras trôpegas, das palavras amaras dos que jamais amaram, da má fortuna dos que no mundo vi sempre passar graves tormentos, da tenebrosa inveja dos comem o nosso sal e escondem o nosso sol, de toda a perdição malsã dos sabotadores, biltres e mesquinhos

libera nos, domine

porque tu podes e nós queremos muito

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Deus

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Fotografia de Mike Denn

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DEUS

Dieu
je t’apelle
comme si tu existais
Anise Kolz

Mendonça encontrava deus nos baldios,
Eliot descobriu-o (a ele e a três leopardos albinos)
debaixo de um junípero azul,
Cocteau tocou-o na face mais fresca
da almofada

aos quarenta e cinco preocupa-me
em lado nenhum o ter descortinado ainda

talvez desconfie do vento, do vento que desalinha
os cabelos e nos enregela os ossos,
quando rente ao mar caminhamos lado a lado
e nevoenta – espumosa – a tarde cai sobre a cidade
e dedos longínquos de vapor – invisíveis –
acendem e ocultam e amam os lampiões

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