Hopper

Edward Hopper, Manhã no Cape Cod, 1950

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HOPPER

Meu caro, Edward Hopper, fazemos bem
em relativizar a felicidade. As coisas ao pé
funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias,
razões de natureza kantiana ou versículos
da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas
onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos
encontros do ser como na pasta dos dentes, no
cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo.
Talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto:
acordamos um dia em que o sol é bastante e
sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e
encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos
ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz:
metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso
ou, misericórdia infinita, o último verso.

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«Compartment C, Car 193 (Edward Hopper)

Edward Hopper, Compartiment Car, 1938
Edward Hopper, Compartment Car, 1938

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«COMPARTMENT C, CAR 193» (EDWARD HOPPER)

oh, a América profunda, essa metáfora que Hopper
tinha no pensamento, quando em 1938 pintou
as entranhas da solidão

quem é essa mulher por quem nos apaixonamos
obliquamente? como dizer não
a esse negro aveludado da roupa ao entardecer?

oh, a América! esse verme gordo engolindo
paisagens! e eu estava dentro dele em 1938, quando
Hopper pintou a minha própria solidão

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