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SALAH STÉTIÉ
quando subíamos da cave para a luz
e os olhos atordoados se desembaraçavam das trevas
– do substrato húmido das penumbras –
aprendíamos que era esse o caminho do poema
não sabíamos
não existe outra forma de o atravessar
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. Caderno de Poesia (2021-2026) .

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PEQUENO ELOGIO AOS LIMÕES
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sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada,
o pó-verdete repousando entre as volutas do seu
dorso.
depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz
que a casa acalenta com prazer
a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue
translúcido e perfumado – e amargo –
e as narinas ventilam a sua presença vívida
e pujante
nenhum alimento desdenha o segregar humilde
deste citrino, como não o faz a memória
à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora
nos impunham a decência inquebrável
da caneta sobre o caderno
diria que o sangue dos limões é cândido
e talvez um pouco triste,
mas jamais inócuo – jamais indiferente
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JANEIRO
manhã de sábado.
acordamos devagar na viração fria,
no cheiro forte que o mar traz em salpicos
e que as gaivotas elevam sobre
o paredão
o vento faz drapejar as bandeiras no cais,
atira-nos contra a luz,
esmaga-nos como espuma
recebo-te nos meus braços.
porém és tu quem me abriga
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VOU CONTAR-TE
vou contar-te:
agora mesmo
a minha pele arrepiou-se
ao sentir a luz
e quando deslizou sobre
as palmas floridas
da citronela
e depois ao escutar no quarto
o ranger da madeira
na velha escrivaninha
um segredo:
de repente
descobri que vivia
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