regressámos hoje a este lugar pelágico onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos, onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol para reencontrar-se com o brilho frágil das gramíneas
depois que partiste todo o espaço pareceu encarquilhado e rude. a miséria da dor afundou-nos os olhos e silenciou as palavras
porém este lugar acicata. como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar horas infinitas pelos corredores do vento e com o mar em fundo
voltamos por isso a nós, renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos, de outro tempo, noutro corpo
escolhe um bom lugar para morrer. não permitas que as circunstâncias banalizem a tua vida, mesmo que a vida do fim, mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se na terra, mesmo se essa vida noutra coisa te destrona
escolhe um bom lugar para morrer: um candeeiro aceso, uma gota de água, o bico de um pássaro
partir não é uma minudência qualquer. nenhuma criatura deve abandonar este mundo à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando um relâmpago na memória
não permitas que te soneguem o derradeiro impulso da alma: filho, quando morreres, morre em paz