Jurámos

Fotografia de Matt Hoffman

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UMA JURA

jurámos cuidar de ti a despeito de toda a peçonha,
de toda a inoculação, a despeito de toda a maleza
multiplicada no sangue

jurámos por uma vez na vida
tomar no corpo o sacrifício de Eneias,
abdicando da pronta bastardia dos luxos
por amor a ti, princípio

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Lavra, Matosinhos

ddzphotos
Fotografia de ddz_photo

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LAVRA, MATOSINHOS

regressámos hoje a este lugar pelágico
onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos,
onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol
para reencontrar-se com o brilho frágil
das gramíneas

depois que partiste
todo o espaço pareceu encarquilhado e rude.
a miséria da dor afundou-nos os olhos
e silenciou as palavras

porém este lugar acicata.
como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar
horas infinitas pelos corredores do vento
e com o mar em fundo

voltamos por isso a nós,
renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos,
de outro tempo, noutro corpo

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Mãe

margaridas
Fotografia de Aaron Burden

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MÃE.

Maria Alice Pereira Costa
08.06.1956 – 21.09.2024
in memoriam

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para onde tu fores nós iremos, mãe.
por muito que nos fujas,
nós perseguiremos a tua mão

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© João Ricardo Lopes (21.09.2024)

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Escolhe um bom lugar para morrer

pôr do sol na praia; sunset at beach; ocaso no mar;
Fotografia de Freddy Beaumont

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ESCOLHE UM BOM LUGAR PARA MORRER

escolhe um bom lugar para morrer.
não permitas que as circunstâncias banalizem
a tua vida, mesmo que a vida do fim,
mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se
na terra, mesmo se essa vida noutra coisa
te destrona

escolhe um bom lugar para morrer:
um candeeiro aceso, uma gota de água,
o bico de um pássaro

partir não é uma minudência qualquer.
nenhuma criatura deve abandonar este mundo
à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando
um relâmpago na memória

não permitas que te soneguem
o derradeiro impulso da alma: filho,
quando morreres, morre
em paz

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© João Ricardo Lopes (2024)

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Agasalho

Fotografia de Margareth Perfoncio
Fotografia de Margareth Perfoncio

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AGASALHO

onde havia o nada, as mães tricotaram
a memória

uma cicatriz de fogo agasalha-nos
de toda a desolação

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