Thyssen, Madrid

Paul Delvaux, O Viaduto, 1963

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THYSSEN, MADRID

de manhã a cidade parecia-lhe orgânica, eficaz,
cheia de corpos humanos
vivos, mas sem doçura

subia o passeio do Prado, bebia um café
e entrava

muitas vezes se demorou nas paisagens flamengas,
no Cristo de Antoon van Dyck, nas belas representações
do Novo Mundo, nos moinhos de van Gogh

acontecia-lhe no hotel escutar o som da chuva,
porém era um engano.
ao regressar à rua, Madrid recebia-o sempre
com o ar quente de uma notícia em cima da hora,
sem tempo para a melancolia
ou para o amor

como no Viaduto de Paul Delvaux, havia ali
ferro, solidão e luzes acesas.
guardava as suas orações em estudo bruto,
físicas, sem lhes engatilhar – contudo – o poder
do fogo

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© João Ricardo Lopes (02.09.2026)

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