no vaso perdura o vermelho vivo da poinsétia. é um prodígio que ao cabo de tantos anos esse presente de Natal não haja sucumbido ao tempo e continue, no seu veludo silente em forma de estrela, a lembrar a amizade de pessoas que se estimam, ainda que ao cabo de tantos anos, pese os agrores da vida, mesmo estando agora uns e outros, do seu lado oposto, nas duas portas do mundo .
esta manhã olhei as unhas, o rigor com que a pele mascava o interior das palavras, o desenho elegante da mobília, o livro, o caderno. vi em mim o teu corpo desaparecido, o secreto júbilo que te amparava na natureza das coisas silenciosas, o arrumo dos pensamentos, a delicadeza das sombras
nunca depois da tua morte me pareceste tão real
olhei as minhas mãos entre as flores secas do vaso, na linha do aparador, no papel imaculado, os meus dedos erguendo o pequeno suporte de vidro onde voltará um círio a arder (agora e para sempre) em louvor da Sagrada Família, a minha pele contra o rumor das cortinas que ferem de leve as paredes
as unhas derramam o vazio e tu vens: tocares cada poema com ternura é ainda – mãe minha e nossa – algo que me consola
sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada, o pó-verdete repousando entre as volutas do seu dorso. depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz que a casa acalenta com prazer
a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue translúcido e perfumado – e amargo – e as narinas ventilam a sua presença vívida e pujante
nenhum alimento desdenha o segregar humilde deste citrino, como não o faz a memória à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora nos impunham a decência inquebrável da caneta sobre o caderno
diria que o sangue dos limões é cândido e talvez um pouco triste, mas jamais inócuo – jamais indiferente
clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data de trinta de maio de dois mil e quatro
ranúnculos de todas as cores nos jardins, especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena, depois um Malinois enorme, a rapariga negra de olhos esmeralda
pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes misturadas de gatos e pássaros nas varandas
o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha, o cão altivo acompanhava a sua deusa, eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi e aquilo tudo por alguma razão ficou, ou mesmo por nenhuma
atravesso as dunas, a lenta oscilação da cor, o vento,
o áspero rancor das areias, os rizomas secos,
atravesso a sombra inócua dos meus passos submersos,
o esquivo lugar que caldeia o sangue e me chama pelo nome,
atravesso formas de tinta, borrões, elegíacas borboletas
zarpando da cabeça em direção ao nada,
atravesso lunações, lucivelos, lágrimas que tudo subtraem à luz,
atravesso os fundos granitos da água como um barco,
atravesso a alta ruína que estremece com todo o medo
e sou dia e noite nos interstícios dos equinócios
e sou uma dor crescente,
atravesso o silêncio, a frívola armação em esqueleto das ideias,
atravesso-me como um inseto, como pó vazando as cavidades,
atravesso o sensível vazio que se antecipa ao varrer do vento,
as dunas, a máquina do silêncio, a dicotomia da morte,
atravesso o poema, a semântica, a cinza que dele em breve
há de restar no lugar do lume,
atravesso o meu próprio arrepio de me saber nada,
absolutamente nada, nem a memória de nada, nada, nada,
e depois calo, desofego, imobilizo-me,
sou um ponto amarfanhado no chão, depois nem isso,
depois, em última análise, nem a memória desse esquecimento