algo de quase inocente ergue-se nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos que deus se demora no vento, nas portadas em direção aos pátios, nas cores quentes que acordam os impercetíveis movimentos da casa
algo nos traz aqui, tu dirás o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz humilde que tropeça na rua a esmo, acidental, e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto de uma novíssima oração ..
esta manhã olhei as unhas, o rigor com que a pele mascava o interior das palavras, o desenho elegante da mobília, o livro, o caderno. vi em mim o teu corpo desaparecido, o secreto júbilo que te amparava na natureza das coisas silenciosas, o arrumo dos pensamentos, a delicadeza das sombras
nunca depois da tua morte me pareceste tão real
olhei as minhas mãos entre as flores secas do vaso, na linha do aparador, no papel imaculado, os meus dedos erguendo o pequeno suporte de vidro onde voltará um círio a arder (agora e para sempre) em louvor da Sagrada Família, a minha pele contra o rumor das cortinas que ferem de leve as paredes
as unhas derramam o vazio e tu vens: tocares cada poema com ternura é ainda – mãe minha e nossa – algo que me consola
clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data de trinta de maio de dois mil e quatro
ranúnculos de todas as cores nos jardins, especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena, depois um Malinois enorme, a rapariga negra de olhos esmeralda
pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes misturadas de gatos e pássaros nas varandas
o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha, o cão altivo acompanhava a sua deusa, eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi e aquilo tudo por alguma razão ficou, ou mesmo por nenhuma
Abraham Mignon, Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcela, 1660
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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON
entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam colhidos pela beleza dos frutos, pela majestade da majólica azul de Delft, pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra, que desce em silêncio das folhas de videira aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas e das ostras à portentosa seda, onde toda a cena renasce e morre, morre e renasce
atravesso as dunas, a lenta oscilação da cor, o vento,
o áspero rancor das areias, os rizomas secos,
atravesso a sombra inócua dos meus passos submersos,
o esquivo lugar que caldeia o sangue e me chama pelo nome,
atravesso formas de tinta, borrões, elegíacas borboletas
zarpando da cabeça em direção ao nada,
atravesso lunações, lucivelos, lágrimas que tudo subtraem à luz,
atravesso os fundos granitos da água como um barco,
atravesso a alta ruína que estremece com todo o medo
e sou dia e noite nos interstícios dos equinócios
e sou uma dor crescente,
atravesso o silêncio, a frívola armação em esqueleto das ideias,
atravesso-me como um inseto, como pó vazando as cavidades,
atravesso o sensível vazio que se antecipa ao varrer do vento,
as dunas, a máquina do silêncio, a dicotomia da morte,
atravesso o poema, a semântica, a cinza que dele em breve
há de restar no lugar do lume,
atravesso o meu próprio arrepio de me saber nada,
absolutamente nada, nem a memória de nada, nada, nada,
e depois calo, desofego, imobilizo-me,
sou um ponto amarfanhado no chão, depois nem isso,
depois, em última análise, nem a memória desse esquecimento