Quarenta e nove rosas

Fotografia de Gian D

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QUARENTA E NOVE ROSAS

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Para ti, Céu, meu amor, no dia do nosso casamento

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Conheci-te no primeiro dia do mundo.
Não fazia vento, não estava frio, mas o mar batia nas pedras e doía.
No primeiro dia do mundo tudo era tudo – salitre, pedra, lume – e doía.
Por dentro de nós tudo doía.

O Senhor disse:
Faça-se a profundidade do olhar, o rebordo dos lábios e o bater do coração.
E juntou à noite o desabrochar das manhãs, a poalha dos astros ao solo habitável, a tua bondade à minha alegria.
E criou o aroma dos pêssegos, a cor azul e o movimento das ervas.
E criou o número sete para que nele conhecêssemos o tempo e soubéssemos ponderar a quantidade de ternura para cada dia.
Deus criou o poema e viu que era bom.
Era o primeiro dia do mundo e todos os dias são o primeiro dia do mundo.

Disse o Senhor:
Ide e amai-vos, que a vossa felicidade se misture à natureza das aves e à força do crepúsculo,
E seja tão leve quanto o baloiçar das árvores,
E seja tão densa e tão doce quanto o correr do mel na boca.

Deus viu que o caminho era longo, puro e bom e, por isso, multiplicou-o por todas as estradas da Terra.

Era o primeiro dia do mundo e tu conheceste-me.
Trazias em ti o dourado enxuto das espigas e trazias o riso e trazias o verde.
Trazias nos olhos o verde magnífico das esmeraldas, o verde do jade, o verde cristalino, feérico e exótico do mar.
E trazias no cabelo a quentura do trigo, cujo fulgor as minhas horas acalentava como o sol faz pelo vidro da janela.
E trazias nas mãos, na pele, na palma o amparo sem limites de um anjo.

O Senhor disse:
Faça-se o círculo da casa e tudo o que habita o íntimo e o âmago das palavras.
Não faltem ao homem e à mulher o alimento do agora, nem a singular castidade da memória.
Não lhes falte a linha direita da mesa do pão, nem o atrevimento dos sonhos para lá da porta.
Unam-se os dois como se devem unir o corpo e a alma, a terra e a água, o começo e o fim.

Era o primeiro dia do mundo
E eu conheci-te
E tu conheceste-me.

O homem e a mulher são talvez fósforos acesos nas mãos de Deus.
O seu brilho, ainda que efémero, é em si mesmo um deslumbramento, porque toda a forma do fogo é uma promessa.
Nenhum homem sabe ao que vem antes que o receba por seu a mulher,
E nenhuma mulher o é na verdade sem que lhe diga o homem
«Tu és carne da minha carne, tempo do meu tempo, lugar do meu lugar.»

Disse o Senhor Deus:
Faça-se, por fim, o corpo das rosas.
Nelas se disponham a rescendência e o rubor, os acúleos afiados e o frágil tecido das pétalas.
Sejam daqui em diante as rosas sinal do seu amor, porque não será o amor senão difícil e conquistado,
Todos os dias, hoje e para sempre.
Homem e mulher vivam um para o outro como a razão porque tudo significa coisa alguma,
E coisa alguma no universo terá outro propósito que não seja o de amar cada metade a metade que procura.

Era o primeiro dia do mundo.
E o Senhor criou o número sete – as porções do arco-íris, os giros da semana, as setes rosas do nosso amor – para que louvássemos a perfeição
E aprendêssemos o fracasso, a dor, o orvalho, o recomeço, o lar reconstruído sobre cinzas e sobre cinzas e sobre cinzas.
Sete dias, sete anos, sete rosas por sete multiplicadas.

Era o primeiro dia do mundo,
E eu amei-te, tu amaste-me
E tudo doía,
Como se fosse o último dia do mundo.
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© João Ricardo Lopes (2026)

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Rua de Delft

Jan Vermeer , Rua de Delft, c. 1657-58

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RUA DE DELFT

algo de quase inocente ergue-se
nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos
que deus se demora no vento, nas portadas em direção
aos pátios, nas cores quentes que acordam
os impercetíveis movimentos da casa

algo nos traz aqui, tu dirás
o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz
humilde que tropeça na rua a esmo, acidental,
e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto
de uma novíssima oração
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© João Ricardo Lopes (2025)

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As coisas silenciosas

Fotografia de Ani Subari

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AS COISAS SILENCIOSAS

(Lendo a História do Silêncio de Alain Corbin)

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esta manhã olhei as unhas,
o rigor com que a pele mascava o interior das palavras,
o desenho elegante da mobília, o livro, o caderno.
vi em mim o teu corpo desaparecido,
o secreto júbilo que te amparava na natureza das coisas silenciosas,
o arrumo dos pensamentos,
a delicadeza das sombras

nunca depois da tua morte me pareceste tão real

olhei as minhas mãos entre as flores secas do vaso,
na linha do aparador, no papel imaculado,
os meus dedos erguendo o pequeno suporte de vidro onde voltará
um círio a arder (agora e para sempre)
em louvor da Sagrada Família,
a minha pele contra o rumor das cortinas
que ferem de leve as paredes

as unhas derramam o vazio e tu vens:
tocares cada poema com ternura
é ainda – mãe minha e nossa – algo que me consola

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© João Ricardo Lopes (2025)

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W. B. Yeats

Fotografia de Taylor Smith

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W. B. YEATS

em junho nasceu o irlandês Yeats.
escreveu, amou, morreu.
cinquenta e nove cisnes mais uma prima
foram o fascínio que gravou nas pedras

certas curiosas semelhanças apertam
em tardes iguais a esta, tardes baças em que se
me incendeia nos olhos a mesma
névoa sublime da deceção

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Viagem pela Europa

Fotografia de Yijie Miao

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VIAGEM PELA EUROPA

nada suplanta esta impressão que o sol empresta às coisas,
este beijo da luz sobre os teus ombros,
contra as paredes,
por entre as palavras

é-se feliz e inocente, é-se livre e capaz
em Troia e em Ítaca, em Estocolmo
ou Lisboa

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Paris

Paris at sunset
Fotografia de Chris Linnet

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PARIS

clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data
de trinta de maio de dois mil e quatro

ranúnculos de todas as cores nos jardins,
especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena,
depois um Malinois enorme, a rapariga negra
de olhos esmeralda

pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de
algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes
misturadas de gatos e pássaros nas varandas

o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha,
o cão altivo acompanhava a sua deusa,
eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi
e aquilo tudo por alguma razão ficou,
ou mesmo por nenhuma

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcelana, Abraham Mignon

Abraham Mignon, Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcela, 1660

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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON

entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam
colhidos pela beleza dos frutos,
pela majestade da majólica azul de Delft,
pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra,
que desce em silêncio das folhas de videira
aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas
e das ostras à portentosa seda,
onde toda a cena renasce e morre,
morre e renasce

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© João Ricardo Lopes (2024)

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