Hopper

Edward Hopper, Manhã no Cape Cod, 1950

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HOPPER

Meu caro, Edward Hopper, fazemos bem
em relativizar a felicidade. As coisas ao pé
funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias,
razões de natureza kantiana ou versículos
da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas
onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos
encontros do ser como na pasta dos dentes, no
cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo.
Talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto:
acordamos um dia em que o sol é bastante e
sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e
encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos
ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz:
metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso
ou, misericórdia infinita, o último verso.

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Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

João Ricardo Lopes é um dos poetas portugueses contemporâneos mais destacados, com traduções em inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, sueco, dinamarquês, polaco, irlandês, romeno, neerlandês, arménio e servo-croata.

Página oficial do escritor:
https://joaoricardolopes.com/

Vermeer

Johannes Vermeer, O Geógrafo, circa 1668–1669

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VERMEER

nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas

A poinsétia

Fotografia de Jessica Fadel

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A POINSÉTIA

no vaso perdura o vermelho vivo da poinsétia.
é um prodígio que ao cabo de tantos anos esse presente de Natal
não haja sucumbido ao tempo
e continue, no seu veludo silente em forma de estrela, a lembrar
a amizade de pessoas que se estimam, ainda que ao cabo
de tantos anos, pese os agrores da vida, mesmo estando agora
uns e outros, do seu lado oposto, nas duas portas
do mundo

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Rua de Delft

Jan Vermeer, Rua de Delft, c. 1657-58

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RUA DE DELFT

algo de quase inocente ergue-se
nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos
que deus se demora no vento, nas portadas em direção
aos pátios, nas cores quentes que acordam
os impercetíveis movimentos da casa

algo nos traz aqui, tu dirás
o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz
humilde que tropeça na rua a esmo, acidental,
e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto
de uma novíssima oração

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Milão

Poem about the Milanese district of Navigli Darsena.
Fotografia de FollowMiAround

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MILÃO

reencontrei deus uma noite em Navigli Darsena, enquanto um jovem padre
me falava de Caravaggio e de Job e do inferno variável de Sartre,
e gorgolejava uma fonte no interior da igreja
e duas velhas ficavam a rezar por nós
e pedíamos – eu e ele – na esplanada repleta de um restaurante grego
uma salada horiatiki e um branco seco,
esplêndido,
da ilha de Creta

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Viagem pela Europa

Fotografia de Lucas Chizzali

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VIAGEM PELA EUROPA

nada suplanta esta impressão que o sol empresta às coisas,
este beijo da luz sobre os teus ombros,
contra as paredes,
por entre as palavras

é-se feliz e inocente, é-se livre e capaz
em Troia e em Ítaca, em Estocolmo
ou Lisboa

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