DENTRO DE CASA OS OLHOS

Viktor Cherkasov
Foto: Viktor Cherkasov

Tinta

DENTRO DE CASA OS OLHOS

dentro de casa os olhos rodam,
linhas seguras, móveis lisos, corredores e livros,
artefactos,
uma lâmpada

os olhos desventram, procuram

andaimes de vazio, o envelope esgarçado,
a carta, a luz
– olhá-la, que desterro!

novembro de 2015

CAIR DA TARDE

Annemieke Stuij
Foto: Annemieke Stuij

Tinta

CAIR DA TARDE

um a um os pássaros respondem ao meu círculo,
voam avulsos e concêntricos,
voam como voam as galáxias,
voam como voam os grãos de poeira

ao horizonte lanço o meu olhar mais fundo.
igual ao pescador, pacientemente
eu espero

agosto de 2013

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

Alberto Ghizzi Panizza
Foto: Alberto Ghizzi Panizza

Tinta

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

pelas frinchas da garagem
entram os dedos da lua

depois é um eco de velhas sucatas
adormecidas, cablagens e
candeeiros a petróleo, caixas de
sapatos e bonecos de caco,
coisas dispersas, despejadas pelo
tempo ao acaso através da pele

sem rasto é o cheiro do silêncio,
o rosto que nos pertencia
e hoje não passa de gelo talhado
a esmo, por entre as frestas
da memória

11 de maio de 2011

DESÓXIDO

Martin Zalba_La Caseta
Foto: Martin Zalba

Tinta

DESÓXIDO

como uma portinhola para um sótão ou uma arrecadação,
assim é a nossa voz que ninguém escuta

depois à noite, os sonhos caem outra vez como bagos
no interior da nossa língua sóbria e depurada

Apúlia, 14 de agosto de 2017

PODENCE (MACEDO DE CAVALEIROS)

Podence_Caretos
Foto de arquivo pessoal (2021)

Tinta

PODENCE (MACEDO DE CAVALEIROS)

também o diabo visita às vezes
este solo vetusto
a chocalhar com alarido
no corpo dos homens,
atrás do paraíso
(que podia muito bem ser o Azibo,
ali tão perto),
mas que é afinal o desenho subtil
das mulheres,
a quem se pede o engenho
da água sobre o fogo,
ou (quem sabe, porque não?)
do lume sobre a lava

agosto de 2021

MIRANDA DO DOURO

Miranda do Douro_João Ricardo Lopes
Foto de arquivo pessoal (2021)

 

Tinta

MIRANDA DO DOURO

em lugar nenhum me pareceu Miranda
tão bela
como na loja dos frutos secos

mergulhas as mãos no gigo das nozes
ou das amêndoas
e sentes a volúpia dos círculos
(a forma arredondada dos seixos enxutos)
e sentes o pó de ouro que ergue o vento
no interior do castelo desmantelado
e que se torna ele próprio
aceitável
e parte da paisagem

se almoçares num dos restaurantes típicos,
hás de pedir a posta de carne generosa
(com alhos e batatas a murro),
se hás de petiscar,
pedirás doce de figo e roscos,
se beberes,
hás de sulcar as arribas íngremes
que entalam o fio verde do rio,
hás de caminhar pelas ruas em duas línguas,
hás de respirar o aroma de cravinas
que desce dos varandins
e queimar o rosto na praça da Catedral

aí entrarás para rezar,
aí em silêncio mergulharás as mãos
e em silêncio as hás de retirar

nessa lojinha amei o outrora
como se ama uma frase sem excesso
ou a luz perfeita de uma memória

as mãos tocam a antiguidade e a juventude
da terra.
não há outro lugar assim em Miranda,
não há

agosto de 2021

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

Castelo de Carrazeda de Ansiães
Foto de arquivo pessoal (2021)

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

nos dias de chuva
nada há a separar as muralhas das nuvens,
mas nos dias de sol
o granito renasce na paisagem ao redor
e abre a sua pele dura
às mãos que o queiram tocar.
aqui onde o país se esqueceu de Portugal
nem a bandeira flutua,
só os mortos,
só o silêncio que o vento tomba entre castanheiros
e ressequidas ervas ralas
que são como línguas exaustas no meio das pedras.
do alto avista-se a soledade,
e pomares de maçãs, e montanhas cansadas.
um arco desperta-nos o olhar,
o da porta da traição:
por ela tudo se foi, até os crentes desta igreja medieval
para onde a tarde escorre em pó,
trazendo não sei que triste piedade

agosto de 2021