ORPHEU, SOBRE EURÍDICE

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Fotografia recolhida na página Pexels

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ORPHEU, SOBRE EURÍDICE

não é a morte a que tu receias,
mas a luz,
a lâmpada que te consome a nervura do olhar e branca
te anoitece – como o pavor dos cegos
e dos ofuscados

VOU CONTAR-TE

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Fotografia de Роман Когомаченко (Pixabay)

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VOU CONTAR-TE

vou contar-te:
agora mesmo
a minha pele arrepiou-se
ao sentir a luz
e quando deslizou sobre
as palmas floridas
da citronela
e depois ao escutar no quarto
o ranger da madeira
na velha escrivaninha

um segredo:
de repente
descobri que vivia

25 de abril de 2021

TRANSTROMERIANA

.David Martín Castán

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TRANSTROMERIANA

embrenhar-me na penumbra como na garganta de um bosque.
lado de cá, lanterna acesa, formações de gelo,
marcas de botas, estrias na terra.
depois a lanterna desligada, a ardósia celeste, a poalha luminosa,
álgidas estrelas de aço

torniquetes para o além: ninguém arrisca dizer qual

VILLIERS

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Fotografia de Ekrulila (pormenor)

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VILLIERS

bem-aventurados os desventurados que nada
possuirão neste mundo e no outro também não.
por isso regressei a Paris, a Villiers
à pequena padaria onde nos conhecemos
e nos despedimos da primeira vez:
pedi un croissant aux amandes e também o amor
que então me prometeste como se promete a eternidade
id est, com a lisura do olhar

12.04.2013

KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

Analogicus (Tom)
Fotografia de Analogicus | Tom

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KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

odres rasgados, mesas de pinho postas ao contrário,
almotolias sangrando sobre o serrim,
ameaças, insultos, o brilho de uma cimitarra.
os facínoras, os sovinas, os caloteiros, os delatores, os maricas,
os putanheiros, os sicofantas
‒ como se atraem uns aos outros!

em silêncio, velho Konstantinos, pensas em Homero, em Ulisses,
pensas em pedaços de papel,
nos aparos derrubados, na tinta, no mata-borrão.
depois, encharcado com o ar húmido de uma manhã de março,
a casa regressas,
onde o cancro te espera para melhor te matar

sempre o caos e a ordem,
o que é e o que podia ter sido, o que era antes e o monstruoso depois,
inseparáveis sempre, como as duas serpentes do caduceu!
muitas vezes em silêncio se escuta muitas vezes o esgaravatar da poesia
‒ e uma vela bastaria (nisso pensas, velho Kavafis)
para iluminar toda a caverna da Górgona

31.03.2016

ALOTRIOFAGIA

Michal Jarmoluk

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ALOTRIOFAGIA

no último estágio da doença,
o nosso outro avô comia não apenas terra,
mas pedaços de telha
e aparas encaracoladas pela garlopa.
morreu dolorosamente, honradamente,
como queria

quando enlouquecer
quero juntar as estas estranhas iguarias
o corpo dos livros.
morrerei devorando-os, insaciado
pela gula, mas feliz
da congestão

EM LISBOA, COM TOMAS TRANSTRÖMER

Rui Palha
Fotografia de Rui Palha

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EM LISBOA, COM TOMAS TRANSTRÖMER

cidade de brancos estendais de roupa e lonas amarelas nas esplanadas,
belos olhos azuis fotografando o rumor dos elétricos, o vazio,
o voo quebrado das gaivotas,
cabos rebocadores da alfândega, andaimes, alvenéis, metáforas,
um milhão de escrupulosas palavras sob as arcadas,
debruns de granito, patas dos pardais, tudo

Lx., 31.10.2013