KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

Analogicus (Tom)
Fotografia de Analogicus | Tom

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KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

odres rasgados, mesas de pinho postas ao contrário,
almotolias sangrando sobre o serrim,
ameaças, insultos, o brilho de uma cimitarra.
os facínoras, os sovinas, os caloteiros, os delatores, os maricas,
os putanheiros, os sicofantas
‒ como se atraem uns aos outros!

em silêncio, velho Konstantinos, pensas em Homero, em Ulisses,
pensas em pedaços de papel,
nos aparos derrubados, na tinta, no mata-borrão.
depois, encharcado com o ar húmido de uma manhã de março,
a casa regressas,
onde o cancro te espera para melhor te matar

sempre o caos e a ordem,
o que é e o que podia ter sido, o que era antes e o monstruoso depois,
inseparáveis sempre, como as duas serpentes do caduceu!
muitas vezes em silêncio se escuta muitas vezes o esgaravatar da poesia
‒ e uma vela bastaria (nisso pensas, velho Kavafis)
para iluminar toda a caverna da Górgona

31.03.2016

ALOTRIOFAGIA

Michal Jarmoluk

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ALOTRIOFAGIA

no último estágio da doença,
o nosso outro avô comia não apenas terra,
mas pedaços de telha
e aparas encaracoladas pela garlopa.
morreu dolorosamente, honradamente,
como queria

quando enlouquecer
quero juntar as estas estranhas iguarias
o corpo dos livros.
morrerei devorando-os, insaciado
pela gula, mas feliz
da congestão

EM LISBOA, COM TOMAS TRANSTRÖMER

Rui Palha
Fotografia de Rui Palha

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EM LISBOA, COM TOMAS TRANSTRÖMER

cidade de brancos estendais de roupa e lonas amarelas nas esplanadas,
belos olhos azuis fotografando o rumor dos elétricos, o vazio,
o voo quebrado das gaivotas,
cabos rebocadores da alfândega, andaimes, alvenéis, metáforas,
um milhão de escrupulosas palavras sob as arcadas,
debruns de granito, patas dos pardais, tudo

Lx., 31.10.2013

ALDEIA

Rebecca Prest
Fotografia de Rebecca Prest

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ALDEIA

Toninho vendeu-me três ovos sarapintados
por trinta escudos

negociei-os eu uma manhã, a custo, aos sussurros, entre contas de tabuada

o sol entrava pelos janelões e fazia suspirar

quando cheguei a casa, o avô atirou-se-me às orelhas
por causa deles

eram três ovos de escrevedeira, ainda quentes,
belos como eu e as minhas irmãs juntos!

fomos à procura do ninho e descobrimo-lo,
com a ajuda de Mitrino

depois o avô levou-me pela mão até às videiras,
o podão na ilharga,
as fitas do canavial presas ao cinto como espadas

um e outro caminhámos sem pressa, de cepa em cepa,
duas sombras ao fundo da paisagem,
luminosos como agriões na água

não dissemos palavra,
nem o ranger das botas se ouvia

ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

Nuno Araújo
Fotografia de Nuno Araújo

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ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas

e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar

sou agora toda a minha vida, toda a minha vida
e a casa estremeceu e as palavras (ferro congelado)
doeram nas mãos

JANEIRO, MEMÓRIAS

Clara Gamito
Fotografia de Clara Gamito

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JANEIRO, MEMÓRIAS

sobe às vezes de dentro de nós, como por eclusas, a visão esquecida da mesma paisagem. e então o moinho roda, os mortos voltam, o velho passal enche-se de perfume e de frutos. no mesmo lugar onde hoje os herdeiros disputam para as suas redes altas de arame o sol, há vozes de paz, crianças correndo, leves pássaros saltitantes. vê-se tudo como nas iluminuras

11.01.2020

DA NOSSA SOLIDÃO

Carmit Rozenzvig
Fotografia de Carmit Rozenzvig

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DA NOSSA SOLIDÃO

tinha esquecido para que serve
a infância
José Tolentino Mendonça

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nenhum de nós habita ao certo
o tempo que o calendário e os relógios calculam.
a outra era pertencemos por vezes,
como se, clandestinos, corrêssemos a noite
em busca de um aroma, de uma voz,
de um nome

como de novo se vivessem aqueles que um dia,
na sua descarnada natureza, deixaram
de poder abraçar-nos,
como se por milagre tivéssemos reencontrado
o rosto inexplicável, o rosto imenso
da nossa própria solidão

22.12.2021