Errata

Fotografia de Kato Blackmore

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ERRATA

existe sempre uma manhã diferente das outras

em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas,
cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa

no lugar do abatimento, da astenia, do desespero,
há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias
dos pequenos gatos cor de laranja no quintal

onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo
divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica,
lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare,
o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno,
o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini

moral da história, também as palavras são equívocas
e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro –
com melhor ou muito pior grafia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

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O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

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© João Ricardo Lopes (Mirandela, 2025)

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O caos

Fotografia de Hulki Okan Tabak

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O CAOS

os dias atropelam-se às vezes na mesma linha
em que as manhãs pedem um poema

sabemos que o tempo é outro
quando o crocitar das gralhas interrompe a neblina do bosque
e nos torna permeáveis ao frio

deus, talvez uma variável do silêncio, mostra-se
um pouco mais nas mãos

sabemos que o tempo lhe pertence
porque a pele se tinge de medo e de euforia ao sol
e se entrega por completo ao esquecimento

palavras que não são nossas perpassam o ar gélido
e percutem, não indefesas mas caóticas.

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© João Ricardo Lopes (2025)

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