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INSÓNIA
cegos ainda das imagens que ficaram do dia anterior,
acordamos,
acordamos muitas vezes na mesma manhã
os estilhaços estão por toda a parte,
fazem parecer impossível a inteireza de uma ideia
ou a força de um rumo
recordarmos uma estrada,
por exemplo aquela em São Miguel ladeada de hortênsias altas,
ou a que no deserto de Lanzarote parecia conduzir-nos
ao abismo
a vida ilude
olhada muito de perto, como um fotograma de Tarkovsky,
sugere linhas ininteligíveis, absurdidade pura, ofensas gratuitas,
filões de poesia emaranhando sofrimento
lembramo-nos também daquela estrada em ziguezague
entre a floresta do Fanal e Ponta do Sol
a vertigem alimenta em nós sentimentos ancestrais
acordamos cansados, cheios de silêncio,
limpando no canto dos lábios frases mortas à nascença
quando nos queríamos olhar um ao outro
porém algo mudou.
talvez uma estação tenha passado por nós e posto
no lugar das velhas ressonâncias um certo vinho novo,
um mel mais doce, um amor mais sincrético,
igual a esse que liga os arbustos, o pó e o asfalto obediente
ao mesmo corpo quieto
das noites de insónia
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© João Ricardo Lopes (2026)
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