pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira e ouro e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía, quase líquida
imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio e mãos inexoráveis o rechaçaram
vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência se encavalita, esquecida do azul sem mancha do horizonte
Tu estavas aí vergando as árvores com o vento, atravessando com os meus ossos o arco das pontes. Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços, a miopia do coração
Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes: a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios e o lume das estrelas
soube que não descias somente às coisas, mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo que nas coisas envelhece e renasce, é e não é, maravilha e infunde o medo
senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse, pois também as palavras são um modo de pertencer-te, mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos
em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas, cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa
no lugar do abatimento, da astenia, do desespero, há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias dos pequenos gatos cor de laranja no quintal
onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica, lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare, o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno, o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini
moral da história, também as palavras são equívocas e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro – com melhor ou muito pior grafia
quando rezardes, dizei assim: bendita seja esta mesa onde repousam agora o pão e o queijo, o café e os frutos, onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados, a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas juntam a natureza do homem às benesses da terra, o desejo de viver à alegria de perdurar
bendito sejas tu, que nos doas a razão e nos fizeste um dia aprender as palavras certas com que podemos venerar o instante e amar, depois dele, não o tempo, mas o que em nós tocou
meu caro, Edward Hopper, fazemos bem em relativizar a felicidade. As coisas ao pé funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias, razões de natureza kantiana ou versículos da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos encontros do ser como na pasta dos dentes, no cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo. talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto: acordamos um dia em que o sol é bastante e sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz: metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso ou, misericórdia infinita, o último verso
nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas