Errata

Fotografia de Kato Blackmore

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ERRATA

existe sempre uma manhã diferente das outras

em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas,
cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa

no lugar do abatimento, da astenia, do desespero,
há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias
dos pequenos gatos cor de laranja no quintal

onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo
divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica,
lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare,
o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno,
o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini

moral da história, também as palavras são equívocas
e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro –
com melhor ou muito pior grafia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Oração

Fotografia Mike Von

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ORAÇÃO

quando rezardes, dizei assim:
bendita seja esta mesa onde repousam agora
o pão e o queijo, o café e os frutos,
onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados,
a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas
juntam a natureza do homem às benesses da terra,
o desejo de viver à alegria de perdurar

bendito sejas tu, que nos doas a razão
e nos fizeste um dia aprender as palavras certas
com que podemos venerar o instante e amar, depois dele,
não o tempo, mas o que em nós tocou

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© João Ricardo Lopes, Funchal, 25.06.2026

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Hopper

Edward Hopper, Manhã no Cape Cod, 1950

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HOPPER

meu caro, Edward Hopper, fazemos bem
em relativizar a felicidade. As coisas ao pé
funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias,
razões de natureza kantiana ou versículos
da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas
onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos
encontros do ser como na pasta dos dentes, no
cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo.
talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto:
acordamos um dia em que o sol é bastante e
sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e
encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos
ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz:
metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso
ou, misericórdia infinita, o último verso

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Vermeer

Johannes Vermeer, O Geógrafo, circa 1668–1669

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VERMEER

nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

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SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

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ESTRADAS SECUNDÁRIAS

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para a Céu

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viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

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© João Ricardo Lopes (Soeima, Alfândega da Fé, 2025)

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