Toledo

Fotografia de Thomas Haas

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TOLEDO

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para a Catarina

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pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira
e ouro
e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía,
quase líquida

imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos
sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio
e mãos inexoráveis o rechaçaram

vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando
a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência
se encavalita, esquecida do azul sem mancha
do horizonte

Tu estavas aí vergando as árvores com o vento,
atravessando com os meus ossos o arco das pontes.
Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços,
a miopia do coração

Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes:
a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios
e o lume das estrelas

soube que não descias somente às coisas,
mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo
que nas coisas envelhece e renasce,
é e não é,
maravilha e infunde o medo

senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse,
pois também as palavras são um modo de pertencer-te,
mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos

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© João Ricardo Lopes (04.09.2026)

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Errata

Fotografia de Kato Blackmore

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ERRATA

existe sempre uma manhã diferente das outras

em vez de cismas, dores, procrastinação, temos batatas,
cebolas, peixe e trabalho em cima da mesa

no lugar do abatimento, da astenia, do desespero,
há o fresco do funcho e das beldroegas, as facécias
dos pequenos gatos cor de laranja no quintal

onde se lia ontem o relatório médico, a morte, o juízo
divino e a eternidade obscura sob a forma de cinza cósmica,
lê-se hoje uma mancheia de poemas de Shakespeare,
o Acerca do Infinito do Universo de Giordano Bruno,
o eu, o amor, a publicidade da gelataria Santini

moral da história, também as palavras são equívocas
e se escrevem às vezes – dependendo do lápis, do nevoeiro –
com melhor ou muito pior grafia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Oração

Fotografia Mike Von

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ORAÇÃO

quando rezardes, dizei assim:
bendita seja esta mesa onde repousam agora
o pão e o queijo, o café e os frutos,
onde a jarra com a estatice colorida e a toalha aos quadrados,
a parede cinza-azul e todas as coisas silenciosas
juntam a natureza do homem às benesses da terra,
o desejo de viver à alegria de perdurar

bendito sejas tu, que nos doas a razão
e nos fizeste um dia aprender as palavras certas
com que podemos venerar o instante e amar, depois dele,
não o tempo, mas o que em nós tocou

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© João Ricardo Lopes, Funchal, 25.06.2026

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Hopper

Edward Hopper, Manhã no Cape Cod, 1950

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HOPPER

meu caro, Edward Hopper, fazemos bem
em relativizar a felicidade. As coisas ao pé
funcionam melhor, dispensam taxas alfandegárias,
razões de natureza kantiana ou versículos
da Bíblia. A felicidade cresce nas esquinas envidraçadas
onde fixaste os teus retratos e noutros banalíssimos
encontros do ser como na pasta dos dentes, no
cheiro da lavanda ou nas saliências escondidas do corpo.
talvez possamos, caro Hopper, resumi-la a isto:
acordamos um dia em que o sol é bastante e
sacudimos os tapetes pela janela, caminhamos ao deus-dará e
encontramos um ninho de amoras maduras, olhamos
ao longe e o céu é uma toranja bêbeda de luz:
metemo-la no revólver e engatilhamos o primeiro verso
ou, misericórdia infinita, o último verso

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Fevereiro

Lareiras abandonadas, abandoned fireplaces
Fotografia de Sven Fennema

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FEVEREIRO

entrarás muitas vezes em ti
como se entra nos lugares onde lareiras arderam
e o odor do fumo permanece melancólico
e invisível

um ranço outoniço ou hiemal agarra
as tuas mãos espavoridas e quer afundá-las na terra

toma, por isso, as necessárias precauções

quando o emaranhar dos dias sobre a omoplata
te parecer cimento ou ódio em estado puro,
sai de casa, respira as ervas, morde-lhes o talo
com força

não perguntes porquê, morde-as
e pronto.

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Vermeer

Johannes Vermeer, O Geógrafo, circa 1668–1669

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VERMEER

nestes dias de vertigem em que o mundo parece ensandecer a cada disparo e até os livros abertos são bocas avaras à espera de que por eles se digam as impuras verdades, volto aos quadros silenciosos de Vermeer, à leiteira vertendo o branco sem pressa, eivada de garbo, ao geógrafo que descortina pelos vidros o inexato lugar do pensamento, à rapariga que lê a carta misteriosa, na qual talvez lhe seja mostrado um certo amor, não delicado como um poema, mas na dureza dos verbos que se não escondem na gramática e antes se desnudam em gestos vivos difíceis e não hipócritas

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

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SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

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© João Ricardo Lopes (2026)

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