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UM CIGARRO
era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro
não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar
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© João Ricardo Lopes (2025)
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. Caderno de Poesia (2021-2026) .

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UM CIGARRO
era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro
não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar
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© João Ricardo Lopes (2025)
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QUASE AO LUSCO-FUSCO
interrompo-me no areal fitando o movimento das ondas ao entardecer. às vezes, como este encontro nada solene, quase dócil, precisamos de calar as coisas imensas e de escutar apenas o rumor. sabemos que a verdade do tempo é profunda e imperscrutável, mas o perpassar do vento e o crescer da água salina bastam
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também deus descansou ao sétimo dia, exausto talvez do refulgir de toda perfeição
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© João Ricardo Lopes (Apúlia, 2025)
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PEQUENO ELOGIO AOS LIMÕES
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sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada,
o pó-verdete repousando entre as volutas do seu
dorso.
depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz
que a casa acalenta com prazer
a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue
translúcido e perfumado – e amargo –
e as narinas ventilam a sua presença vívida
e pujante
nenhum alimento desdenha o segregar humilde
deste citrino, como não o faz a memória
à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora
nos impunham a decência inquebrável
da caneta sobre o caderno
diria que o sangue dos limões é cândido
e talvez um pouco triste,
mas jamais inócuo – jamais indiferente
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© João Ricardo Lopes (2025)

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PARIS
clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data
de trinta de maio de dois mil e quatro
ranúnculos de todas as cores nos jardins,
especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena,
depois um Malinois enorme, a rapariga negra
de olhos esmeralda
pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de
algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes
misturadas de gatos e pássaros nas varandas
o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha,
o cão altivo acompanhava a sua deusa,
eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi
e aquilo tudo por alguma razão ficou,
ou mesmo por nenhuma
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© João Ricardo Lopes (2025)
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