O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

.

O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

.

© João Ricardo Lopes (Mirandela, 2025)

.

O caos

Fotografia de Hulki Okan Tabak

.

O CAOS

os dias atropelam-se às vezes na mesma linha
em que as manhãs pedem um poema

sabemos que o tempo é outro
quando o crocitar das gralhas interrompe a neblina do bosque
e nos torna permeáveis ao frio

deus, talvez uma variável do silêncio, mostra-se
um pouco mais nas mãos

sabemos que o tempo lhe pertence
porque a pele se tinge de medo e de euforia ao sol
e se entrega por completo ao esquecimento

palavras que não são nossas perpassam o ar gélido
e percutem, não indefesas mas caóticas.

.

© João Ricardo Lopes (2025)

.

Quase ao lusco-fusco

Fotografia de Tim Marshall

.
QUASE AO LUSCO-FUSCO

interrompo-me no areal fitando o movimento das ondas ao entardecer. às vezes, como este encontro nada solene, quase dócil, precisamos de calar as coisas imensas e de escutar apenas o rumor. sabemos que a verdade do tempo é profunda e imperscrutável, mas o perpassar do vento e o crescer da água salina bastam
.
também deus descansou ao sétimo dia, exausto talvez do refulgir de toda perfeição

.

© João Ricardo Lopes (Apúlia, 2025)

.

Salah Stétié

Poeta argelino Salah Stétié
Fotografia de Kuma

.

SALAH STÉTIÉ

quando subíamos da cave para a luz
e os olhos atordoados se desembaraçavam das trevas
– do substrato húmido das penumbras –
aprendíamos que era esse o caminho do poema

não sabíamos
não existe outra forma de o atravessar

.

© João Ricardo Lopes (2025)

.

.

Pequeno elogio aos limões

Fotografia de Bruno Neurath Wilson

.

PEQUENO ELOGIO AOS LIMÕES

para a Céu

.

sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada,
o pó-verdete repousando entre as volutas do seu
dorso.
depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz
que a casa acalenta com prazer

a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue
translúcido e perfumado – e amargo –
e as narinas ventilam a sua presença vívida
e pujante

nenhum alimento desdenha o segregar humilde
deste citrino, como não o faz a memória
à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora
nos impunham a decência inquebrável
da caneta sobre o caderno

diria que o sangue dos limões é cândido
e talvez um pouco triste,
mas jamais inócuo – jamais indiferente

.

© João Ricardo Lopes (2025)