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NIHIL
a casa em repouso absoluto, alicerces,
paredes, placas de betão
manhã, tarde, noite, o futuro, o presente, o passado,
rasto de cinza o tempo, de pé, ao alto, ainda,
como se um escombro pudesse ser belo
e é!
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© João Ricardo Lopes (2025)
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. Caderno de Poesia (2021-2026) .

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QUASE AO LUSCO-FUSCO
interrompo-me no areal fitando o movimento das ondas ao entardecer. às vezes, como este encontro nada solene, quase dócil, precisamos de calar as coisas imensas e de escutar apenas o rumor. sabemos que a verdade do tempo é profunda e imperscrutável, mas o perpassar do vento e o crescer da água salina bastam
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também deus descansou ao sétimo dia, exausto talvez do refulgir de toda perfeição
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© João Ricardo Lopes (Apúlia, 2025)
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W. B. YEATS
em junho nasceu o irlandês Yeats.
escreveu, amou, morreu.
cinquenta e nove cisnes mais uma prima
foram o fascínio que gravou nas pedras
certas curiosas semelhanças apertam
em tardes iguais a esta, tardes baças em que se
me incendeia nos olhos a mesma
névoa sublime da deceção.
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MILÃO
reencontrei deus uma noite em Navigli Darsena, enquanto um jovem padre
me falava de Caravaggio e de Job e do inferno variável de Sartre,
e gorgolejava uma fonte no interior da igreja
e duas velhas ficavam a rezar por nós
e pedíamos – eu e ele – na esplanada repleta de um restaurante grego
uma salada horiatiki e um branco seco,
esplêndido,
da ilha de Creta
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PEQUENO ELOGIO AOS LIMÕES
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sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada,
o pó-verdete repousando entre as volutas do seu
dorso.
depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz
que a casa acalenta com prazer
a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue
translúcido e perfumado – e amargo –
e as narinas ventilam a sua presença vívida
e pujante
nenhum alimento desdenha o segregar humilde
deste citrino, como não o faz a memória
à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora
nos impunham a decência inquebrável
da caneta sobre o caderno
diria que o sangue dos limões é cândido
e talvez um pouco triste,
mas jamais inócuo – jamais indiferente
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