Insónia

Fotografia de Branislav Fabijanic

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INSÓNIA


cegos ainda das imagens que ficaram do dia anterior,
acordamos,
acordamos muitas vezes na mesma manhã

os estilhaços estão por toda a parte,
fazem parecer impossível a inteireza de uma ideia
ou a força de um rumo

recordarmos uma estrada,
por exemplo aquela em São Miguel ladeada de hortênsias altas,
ou a que no deserto de Lanzarote parecia conduzir-nos
ao abismo

a vida ilude

olhada muito de perto, como um fotograma de Tarkovsky,
sugere linhas ininteligíveis, absurdidade pura, ofensas gratuitas,
filões de poesia emaranhando sofrimento

lembramo-nos também daquela estrada em ziguezague
entre a floresta do Fanal e Ponta do Sol

a vertigem alimenta em nós sentimentos ancestrais

acordamos cansados, cheios de silêncio,
limpando no canto dos lábios frases mortas à nascença
quando nos queríamos olhar um ao outro

porém algo mudou.
talvez uma estação tenha passado por nós e posto
no lugar das velhas ressonâncias um certo vinho novo,
um mel mais doce, um amor mais sincrético,
igual a esse que liga os arbustos, o pó e o asfalto obediente
ao mesmo corpo quieto
das noites de insónia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Toledo

Fotografia de Thomas Haas

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TOLEDO

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para a Catarina

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pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira
e ouro
e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía,
quase líquida

imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos
sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio
e mãos inexoráveis o rechaçaram

vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando
a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência
se encavalita, esquecida do azul sem mancha
do horizonte

Tu estavas aí vergando as árvores com o vento,
atravessando com os meus ossos o arco das pontes.
Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços,
a miopia do coração

Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes:
a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios
e o lume das estrelas

soube que não descias somente às coisas,
mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo
que nas coisas envelhece e renasce,
é e não é,
maravilha e infunde o medo

senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse,
pois também as palavras são um modo de pertencer-te,
mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos

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© João Ricardo Lopes (04.09.2026)

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Subitamente

Fotografia de Sören H.

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SUBITAMENTE

subitamente damo-nos conta de que
amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese
o azul maculado do mar, ainda que o tempo
nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades
da mão

amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro
das livrarias abertas – a desoras – na parte
esquecida da cidade

amamos o zumbido do sol entre as sombras
bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves,
o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho
ou saudade

amamos um piano ao longe, um poema de
Emily Dickinson, um olhar piedoso

damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói
muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela
tessitura das paredes, pela pele emurchada
de um pai

sentimos subitamente o eclodir
das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira
ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio,
no bojo de uma lâmpada

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Alguns limões

Foto de Vitaliy Shevchenko

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ALGUNS LIMÕES

dois meses mais tarde regressei
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro da tristeza

não é uma chama exata, mas é real,
algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando
com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante
para destruir-nos o repouso do silêncio

o vento passava pela narina inanimada dos objetos
e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância
pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse
ver-me voltar

é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira
a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos
sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além
uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos
atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos,
ainda disponíveis

anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões
apodrecidos em nossa vez

depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei
que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança:
digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe
acerca do tempo

existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar
pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos,
desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo
num movimento de escorpião

digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha.
fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo
das estrelas, no interior de um corpo minguado
e mortal

o cheiro da tristeza é o cheiro do medo

Kęstutis Navakas não chegou a responder-me.
horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas
tinham-no levado de ambulância

e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro do medo:
o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio,
igual a um tumor, a um alter ergo,
a um filho que nunca pensei ter

tinham passado dois meses

digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo
já me não pertencia ou eu perdera para sempre
a faculdade da razão

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Arrabaldes

Fotografia de Brian Isukeyi

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ARRABALDES

alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se
como os atores no teatro de Shakespeare.
o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos
surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada:
de onde fui, para onde sou, quem vim?

a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular.
em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me,
os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores,
e todos os que caminham sobre os carris.
vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram

a missão de que corro atrás na vida?
trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias,
encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma,
depois começar

a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia.
a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam.
um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então,
ou outra coisa qualquer

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© João Ricardo Lopes (Madrid, 2026)..

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Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

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SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

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ESTRADAS SECUNDÁRIAS

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para a Céu

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viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

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© João Ricardo Lopes (Soeima, Alfândega da Fé, 2025)

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