Alguns limões

Foto de Vitaliy Shevchenko

.

ALGUNS LIMÕES

dois meses mais tarde regressei
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro da tristeza

não é uma chama exata, mas é real,
algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando
com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante
para destruir-nos o repouso do silêncio

o vento passava pela narina inanimada dos objetos
e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância
pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse
ver-me voltar

é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira
a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos
sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além
uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos
atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos,
ainda disponíveis

anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões
apodrecidos em nossa vez

depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei
que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança:
digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe
acerca do tempo

existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar
pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos,
desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo
num movimento de escorpião

digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha.
fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo
das estrelas, no interior de um corpo minguado
e mortal

o cheiro da tristeza é o cheiro do medo

Kęstutis Navakas não chegou a responder-me.
horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas
tinham-no levado de ambulância

e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro do medo:
o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio,
igual a um tumor, a um alter ergo,
a um filho que nunca pensei ter

tinham passado dois meses

digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo
já me não pertencia ou eu perdera para sempre
a faculdade da razão

.
© João Ricardo Lopes (2026)

.

.

Arrabaldes

Fotografia de Brian Isukeyi

.

ARRABALDES

alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se
como os atores no teatro de Shakespeare.
o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos
surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada:
de onde fui, para onde sou, quem vim?

a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular.
em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me,
os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores,
e todos os que caminham sobre os carris.
vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram

a missão de que corro atrás na vida?
trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias,
encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma,
depois começar

a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia.
a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam.
um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então,
ou outra coisa qualquer

.

© João Ricardo Lopes (Madrid, 2026)..

.

.

Sagrada Família

Fotografia de Mercedes Bosqueth

.

SAGRADA FAMÍLIA

os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra

a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia

hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam

uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama

dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse

.

© João Ricardo Lopes (2026)

.

Estradas secundárias

Fotografia de Giordano Petraccaro

.
ESTRADAS SECUNDÁRIAS

.
.
para a Céu

.
.
viajamos por estradas secundárias
em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores
perdidas no nevoeiro.
não temos norte nem sul, noção
dos quilómetros ou do combustível guardado
no reservatório, apenas das frases
que trocamos junto a uma nogueira de braços
esplendorosamente recortados, ou do bosque
de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo,
ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste
o amor é tão inocente e eu respondi
o amor é isto

.

© João Ricardo Lopes (Soeima, Alfândega da Fé, 2025)

.

O cão abandonado

Fotografia de Collab Media

.

O CÃO ABANDONADO

os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém

.

© João Ricardo Lopes (Mirandela, 2025)

.

O caos

Fotografia de Hulki Okan Tabak

.

O CAOS

os dias atropelam-se às vezes na mesma linha
em que as manhãs pedem um poema

sabemos que o tempo é outro
quando o crocitar das gralhas interrompe a neblina do bosque
e nos torna permeáveis ao frio

deus, talvez uma variável do silêncio, mostra-se
um pouco mais nas mãos

sabemos que o tempo lhe pertence
porque a pele se tinge de medo e de euforia ao sol
e se entrega por completo ao esquecimento

palavras que não são nossas perpassam o ar gélido
e percutem, não indefesas mas caóticas.

.

© João Ricardo Lopes (2025)

.

Um cigarro

Fotografia de Enes Dincer

.
UM CIGARRO

era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro

não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar

..

© João Ricardo Lopes (2025)

.