subitamente damo-nos conta de que amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese o azul maculado do mar, ainda que o tempo nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades da mão
amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro das livrarias abertas – a desoras – na parte esquecida da cidade
amamos o zumbido do sol entre as sombras bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves, o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho ou saudade
amamos um piano ao longe, um poema de Emily Dickinson, um olhar piedoso
damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela tessitura das paredes, pela pele emurchada de um pai
sentimos subitamente o eclodir das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio, no bojo de uma lâmpada
dois meses mais tarde regressei e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro da tristeza
não é uma chama exata, mas é real, algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante para destruir-nos o repouso do silêncio
o vento passava pela narina inanimada dos objetos e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse ver-me voltar
é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos, ainda disponíveis
anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões apodrecidos em nossa vez
depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança: digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe acerca do tempo
existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos, desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo num movimento de escorpião
digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha. fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo das estrelas, no interior de um corpo minguado e mortal
o cheiro da tristeza é o cheiro do medo
Kęstutis Navakas não chegou a responder-me. horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas tinham-no levado de ambulância
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro do medo: o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio, igual a um tumor, a um alter ergo, a um filho que nunca pensei ter
tinham passado dois meses
digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo já me não pertencia ou eu perdera para sempre a faculdade da razão
alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se como os atores no teatro de Shakespeare. o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada: de onde fui, para onde sou, quem vim?
a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular. em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me, os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores, e todos os que caminham sobre os carris. vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram
a missão de que corro atrás na vida? trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias, encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma, depois começar
a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia. a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam. um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então, ou outra coisa qualquer
os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra
a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia
hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam
uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama
dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse
. . viajamos por estradas secundárias em busca de povoados, pequenas igrejas, árvores perdidas no nevoeiro. não temos norte nem sul, noção dos quilómetros ou do combustível guardado no reservatório, apenas das frases que trocamos junto a uma nogueira de braços esplendorosamente recortados, ou do bosque de bétulas brancas ladeando o riacho muito limpo, ou de um pomar de medronheiros onde tu disseste o amor é tão inocente e eu respondi o amor é isto
os amigos reconhecem-se entre si
mesmo que ao cabo de muito tempo,
pese a distância que é capaz às vezes de armar falácias
no interior dos nossos olhos míopes,
ainda que a alegria deles possa manifestar-se
no corpo inocente de um cão que deitaram à rua
e que, no seu infortúnio, não espera já
nada ou ninguém