é do mar que falo precisamente todos os dias, do mar que nunca teve outro nome, se algum existe aqui agora, diante dos meus olhos
abro as persianas, abro o vidro das janelas, abro as portas e a muralha da luz, abro os pulmões para esta maciez conjunta de claridade e sossego, pássaros tardios e cheiro de ervas secas
nada disto é mar, mas é sábado, é uma manhã de outubro. toda a semana fui cego e faminto, mas agora aqui, bebo a chávena de café sobre o quintal e esqueço
é o mar aquele que fica nos meus ouvidos e insondável bate nos orifícios e recessos, como quando gostamos de ler alguém e é Homero quem lemos numa soleira antiga batida pelo sol, algures em Delfos ou em Creta ou Corinto
cegos ainda das imagens que ficaram do dia anterior, acordamos, acordamos muitas vezes na mesma manhã
os estilhaços estão por toda a parte, fazem parecer impossível a inteireza de uma ideia ou a força de um rumo
recordarmos uma estrada, por exemplo aquela em São Miguel ladeada de hortênsias altas, ou a que no deserto de Lanzarote parecia conduzir-nos ao abismo
a vida ilude
olhada muito de perto, como um fotograma de Tarkovsky, sugere linhas ininteligíveis, absurdidade pura, ofensas gratuitas, filões de poesia emaranhando sofrimento
lembramo-nos também daquela estrada em ziguezague entre a floresta do Fanal e Ponta do Sol
a vertigem alimenta em nós sentimentos ancestrais
acordamos cansados, cheios de silêncio, limpando no canto dos lábios frases mortas à nascença quando nos queríamos olhar um ao outro
porém algo mudou. talvez uma estação tenha passado por nós e posto no lugar das velhas ressonâncias um certo vinho novo, um mel mais doce, um amor mais sincrético, igual a esse que liga os arbustos, o pó e o asfalto obediente ao mesmo corpo quieto das noites de insónia
pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira e ouro e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía, quase líquida
imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio e mãos inexoráveis o rechaçaram
vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência se encavalita, esquecida do azul sem mancha do horizonte
Tu estavas aí vergando as árvores com o vento, atravessando com os meus ossos o arco das pontes. Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços, a miopia do coração
Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes: a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios e o lume das estrelas
soube que não descias somente às coisas, mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo que nas coisas envelhece e renasce, é e não é, maravilha e infunde o medo
senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse, pois também as palavras são um modo de pertencer-te, mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos
subitamente damo-nos conta de que amamos mais, apesar dos amigos ausentes, pese o azul maculado do mar, ainda que o tempo nos caia mais indefeso – quase morto – nas extremidades da mão
amamos as árvores, um filme de Polánski, o cheiro das livrarias abertas – a desoras – na parte esquecida da cidade
amamos o zumbido do sol entre as sombras bafientas das ruas antigas, amamos o deslizar das aves, o verde eletrizado do funcho que trincamos por capricho ou saudade
amamos um piano ao longe, um poema de Emily Dickinson, um olhar piedoso
damo-nos conta de que amamos mais, de que nos dói muito – muitíssimo mais – o amor pela noite, pela tessitura das paredes, pela pele emurchada de um pai
sentimos subitamente o eclodir das coisas mais perto, como se alma coubesse inteira ali, no aparo metálico da parker, no coração do silêncio, no bojo de uma lâmpada
dois meses mais tarde regressei e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro da tristeza
não é uma chama exata, mas é real, algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante para destruir-nos o repouso do silêncio
o vento passava pela narina inanimada dos objetos e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse ver-me voltar
é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos, ainda disponíveis
anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões apodrecidos em nossa vez
depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança: digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe acerca do tempo
existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos, desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo num movimento de escorpião
digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha. fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo das estrelas, no interior de um corpo minguado e mortal
o cheiro da tristeza é o cheiro do medo
Kęstutis Navakas não chegou a responder-me. horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas tinham-no levado de ambulância
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta do cheiro do medo: o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio, igual a um tumor, a um alter ergo, a um filho que nunca pensei ter
tinham passado dois meses
digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo já me não pertencia ou eu perdera para sempre a faculdade da razão
alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se como os atores no teatro de Shakespeare. o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada: de onde fui, para onde sou, quem vim?
a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular. em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me, os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores, e todos os que caminham sobre os carris. vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram
a missão de que corro atrás na vida? trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias, encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma, depois começar
a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia. a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam. um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então, ou outra coisa qualquer
os primeiros dias do ano são de chuva,
piam, quase que gemem, num movimento fraco
contra o vidro e sobre a terra
a ausência de luz forte faz-nos pensar, como
nos começos de novembro, nos mortos,
no veludo da sua memória pela casa
agora quase vazia
hoje, ao acender o pequeno círio, junto
à Sagrada Família, voltei a caminhar
pelos montes próximos e a usar um casaco grosso
que os giestais empurram e os matos
recortam
uma oração pode ser um odor longínquo,
ou um pedaço de telha meio enterrado
na lama
dizer palavras em voz inaudível permite-nos
mergulhar mais a pique no tempo:
doloroso será, talvez, mas um ato de piedade
e de catarse