Escolhe um bom lugar para morrer

pôr do sol na praia; sunset at beach; ocaso no mar;
Fotografia de Freddy Beaumont

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ESCOLHE UM BOM LUGAR PARA MORRER

escolhe um bom lugar para morrer,
não permitas que as circunstâncias banalizem a tua vida,
mesmo que seja a vida do fim,
mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se na terra,
mesmo que aquela vida que te destrona noutra coisa

escolhe um bom lugar para morrer,
um candeeiro aceso, uma gota de água, o bico de um pássaro

partir não é uma minudência qualquer.
nenhuma criatura deve abandonar este mundo à toa,
mas a bem, sem pressa, ocupando um relâmpago na memória

não permitas que te soneguem o derradeiro impulso da alma:
filho, quando morreres, morre em paz!

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A lenta desaparição de nós mesmos

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Fotografia de Ruth Wellman

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A LENTA DESAPARIÇÃO DE NÓS MESMOS

atravesso as dunas, a lenta oscilação da cor, o vento,
o áspero rancor das areias, os rizomas secos,
atravesso a sombra inócua dos meus passos submersos,
o esquivo lugar que caldeia o sangue e me chama pelo nome,
atravesso formas de tinta, borrões, elegíacas borboletas
zarpando da cabeça em direção ao nada,
atravesso lunações, lucivelos, lágrimas que tudo subtraem à luz,
atravesso os fundos granitos da água como um barco,
atravesso a alta ruína que estremece com todo o medo
e sou dia e noite nos interstícios dos equinócios
e sou uma dor crescente,
atravesso o silêncio, a frívola armação em esqueleto das ideias,
atravesso-me como um inseto, como pó vazando as cavidades,
atravesso o sensível vazio que se antecipa ao varrer do vento,
as dunas, a máquina do silêncio, a dicotomia da morte,
atravesso o poema, a semântica, a cinza que dele em breve
há de restar no lugar do lume,
atravesso o meu próprio arrepio de me saber nada,
absolutamente nada, nem a memória de nada, nada, nada,
e depois calo, desofego, imobilizo-me,
sou um ponto amarfanhado no chão, depois nem isso,
depois, em última análise, nem a memória desse esquecimento

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Imitação de Cristo, Kempis

Wenmin Zhang, Kumtag Desert
Fotografia de Wenmin Zhang

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IMITAÇÃO DE CRISTO, KEMPIS.

E que há de mais livre que o que nada deseja neste mundo?
Tomás de Kempis, Imitação de Cristo

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nunca é tarde demais.
procura a força do deserto, a distância,
procura a luminosidade dos grãos movediços e duros,
o adobe,
o cheiro das dunas,
o vento dobrando-se no erg,
procura-te na voz do nazareno,
na secura dos essénios,
na abstinente leveza dos berberes de túnica azul

nunca é tarde demais.
despoja-te do tempo e do espaço, despe-te da sombra e da luz.
nada existe no mundo que seja maior,
ou mais do que tu

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Da luz

Filippo Lippi - Madona com Menino e dois anjos, c. 1465
Filippo Lippi, Madona com Menino e dois anjos, c. 1465

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DA LUZ

foi indubitavelmente numa manhã assim
nascida da indulgência da luz
sem vafrícia,
sem balofice,
sem unhas iníquas na sombra,
que Vilhelm Hammershøi pintou
o que também nos seus retratos viu Vermeer
ou o que no rosto de Lucrezia Buti atingiu Fra Filippo Lippi

não tocamos as coisas,
somos antes tocados pelo movimento leve e sereno
que entre elas e nós
é a profundidade tangencial do espírito
ou, dito de outro modo,
é o nosso olhar reconciliado com a lente do poema

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Meditação, Lago Lucerna

Albrecht Fietz - mountains
Fotografia de Albrecht Fietz

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MEDITAÇÃO, LAGO LUCERNA

então de súbito o sol aclara o vidro opaco
e enche de silêncio o espaço.
é um sinal de que talvez dias mais propícios nos aguardem à puridade
e de que talvez nos encontrem numa plataforma confusa
onde comboios param e partem a toda a hora,
de que talvez esses dias fastos nos coloquem a mão sobre o ombro
e conheçam o nosso nome,
e de que então de súbito saibamos exatamente quem somos,
iluminados por uma paz em tudo igual a esta paz,
igual à que nos frescos de Pompeia e de Herculano produzem
o vermelho-cinábrio e o ocre e o azul,
igual à que possuem certas palavras quando numa manhã anódina,
numa manhã como esta, escambrando o céu sobre o Lago Lucerna,
alguém as murmura com amor, sem pressa, ao nosso ouvido

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Um homem exatamente assim

Joan-Miro-Joan-Mir-Catalan-Landscape-The-Hunter-1924
Joan Miró, Paisagem Catalã: o Caçador, 1924

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UM HOMEM EXATAMENTE ASSIM

conheci um homem cuja obsessão era o peso da terra,
o peso que as coisas fazem ou têm sobre a terra,
as coisas que os homens fizeram e não as que deus fez,
o peso portanto das coisas que são a obra dos filhos de deus,
coisas que são os prédios e as pontes, as finanças e a filosofia.
esse homem vivia na crença de que a terra ia afundar-se,
tinha a certeza de que se afundaria com o peso excessivo do homem,
e vivia, portanto, digamos, numa loucura ansiosa

cada vez que um terramoto abria brechas pavorosas no chão
esse homem levantava o pensamento à altura de uma praga
e dizia

os homens puseram peso demais sobre as minhas costas
e as minhas costas sacodem-se, coitadas,
são como a baleia no conto de Simbad.
isto vai acabar mal

cada vez que um furacão devastava à dentada a carne de uma cidade,
ou cada vez que um incêndio engolia com a sua língua atroz
todas as formas de todas as coisas julgadas seguras,
esse homem repetia-se,
as coisas pesam demais, as coisas pesam excessivamente.
o ponto fraco de cada coisa é a sua pata assente no desconhecido
e deus desfere às vezes um contragolpe irrespondível.
isto vai acabar mal

tenho a dizer-vos que na poesia todos os homens são desta loucura,
ou desta infame grandeza que olha as coisas
não como coisas em si, mas como a causa que as coisas são,
e por isso os homens loucos na poesia procuram o dizer sublime
como se procura um bote ou uma prece ou um minuto para pensar.
são homens que pensam que todas as coisas esmagam
e que as coisas redundam em pó

conheci uma vez um poeta. tenho a dizer-vos:
era um homem exatamente assim

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Já sabes onde me encontrar

Nevoeiro na estrada, com casas. Mistério.
Fotografia de Pierre Pellegrini

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JÁ SABES ONDE ME ENCONTRAR

já sabes onde me encontrar:
no sítio onde o génio e o imbecil trocam de posição
e às vezes pelejam, como dois garotos no recreio.
terei nas mãos os mesmos dedos, mais queimados
pelo cigarro.
usarei o casaco elegante que me ofereceste,
quando não tinha outro.
prometo não dececionar-te:
repetirei a história de Tristão e Isolda de que tanto gostas,
ou a triste sina de algum novo compositor,
ou alguma coscuvilhice erudita entre as nove filhas de Mnemósine

não me peças explicações nem me dês conselhos:
sempre detestei a verdade

prefiro que abras as janelas para o sol entrar,
ou me tragas a quieta poesia de um ramo de malmequeres

não sou ambicioso: sabes que nunca fui.
basta-me o amor sincero, a beleza de Bach
e o teu corpo no lugar onde (por muitas fogueiras
que ardam) jamais conseguirei aquecer-me

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Leitura do poema no Youtube