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UM CIGARRO
era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro
não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar
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página de joão ricardo lopes

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UMA POÉTICA
a leveza do sol atravessa os tecidos no estendal
e o orvalho, perpassa o crânio
e o fundo pedregoso da inteligência, é tão
subtil como se caísse de poro em poro sem existir
cheia do seu daimon a voz estremece um pouco sobre o abismo
mas relembra-se, vai cair no firmamento porém
alcança um milímetro mais
algo cresce em equilíbrio, equidistante e equilátero,
redondo e sonoro, vazio e significante, de agora
e de sempre, nosso e inumano, tensionando
como um parafuso esquecido da dor
quem sou per-
gunto. per-
guntar é o trabalho do universo
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RUA DE DELFT
algo de quase inocente ergue-se
nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos
que deus se demora no vento, nas portadas em direção
aos pátios, nas cores quentes que acordam
os impercetíveis movimentos da casa
algo nos traz aqui, tu dirás
o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz
humilde que tropeça na rua a esmo, acidental,
e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto
de uma novíssima oração
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AS COISAS SILENCIOSAS
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esta manhã olhei as unhas,
o rigor com que a pele mascava o interior das palavras,
o desenho elegante da mobília, o livro, o caderno.
vi em mim o teu corpo desaparecido,
o secreto júbilo que te amparava na natureza das coisas silenciosas,
o arrumo dos pensamentos,
a delicadeza das sombras
nunca depois da tua morte me pareceste tão real
olhei as minhas mãos entre as flores secas do vaso,
na linha do aparador, no papel imaculado,
os meus dedos erguendo o pequeno suporte de vidro onde voltará
um círio a arder (agora e para sempre)
em louvor da Sagrada Família,
a minha pele contra o rumor das cortinas
que ferem de leve as paredes
as unhas derramam o vazio e tu vens:
tocares cada poema com ternura
é ainda – mãe minha e nossa – algo que me consola
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W. B. YEATS
em junho nasceu o irlandês Yeats.
escreveu, amou, morreu.
cinquenta e nove cisnes mais uma prima
foram o fascínio que gravou nas pedras
certas curiosas semelhanças apertam
em tardes iguais a esta, tardes baças em que se
me incendeia nos olhos a mesma
névoa sublime da deceção.

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MILÃO
reencontrei deus uma noite em Navigli Darsena, enquanto um jovem padre
me falava de Caravaggio e de Job e do inferno variável de Sartre,
e gorgolejava uma fonte no interior da igreja
e duas velhas ficavam a rezar por nós
e pedíamos – eu e ele – na esplanada repleta de um restaurante grego
uma salada horiatiki e um branco seco,
esplêndido,
da ilha de Creta
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