Um cigarro

Fotografia de Enes Dincer

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UM CIGARRO

era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro

não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar

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Uma Poética

Fotgrafia de Bernard Hermant

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UMA POÉTICA

a leveza do sol atravessa os tecidos no estendal
e o orvalho, perpassa o crânio
e o fundo pedregoso da inteligência, é tão
subtil como se caísse de poro em poro sem existir

cheia do seu daimon a voz estremece um pouco sobre o abismo
mas relembra-se, vai cair no firmamento porém
alcança um milímetro mais

algo cresce em equilíbrio, equidistante e equilátero,
redondo e sonoro, vazio e significante, de agora
e de sempre, nosso e inumano, tensionando
como um parafuso esquecido da dor

quem sou per-
gunto. per-
guntar é o trabalho do universo

17.11.2025

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Rua de Delft

Jan Vermeer, Rua de Delft, c. 1657-58

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RUA DE DELFT

algo de quase inocente ergue-se
nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos
que deus se demora no vento, nas portadas em direção
aos pátios, nas cores quentes que acordam
os impercetíveis movimentos da casa

algo nos traz aqui, tu dirás
o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz
humilde que tropeça na rua a esmo, acidental,
e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto
de uma novíssima oração

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As coisas silenciosas

Fotografia de Ani Subari

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AS COISAS SILENCIOSAS

(Lendo a História do Silêncio de Alain Corbin)

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esta manhã olhei as unhas,
o rigor com que a pele mascava o interior das palavras,
o desenho elegante da mobília, o livro, o caderno.
vi em mim o teu corpo desaparecido,
o secreto júbilo que te amparava na natureza das coisas silenciosas,
o arrumo dos pensamentos,
a delicadeza das sombras

nunca depois da tua morte me pareceste tão real

olhei as minhas mãos entre as flores secas do vaso,
na linha do aparador, no papel imaculado,
os meus dedos erguendo o pequeno suporte de vidro onde voltará
um círio a arder (agora e para sempre)
em louvor da Sagrada Família,
a minha pele contra o rumor das cortinas
que ferem de leve as paredes

as unhas derramam o vazio e tu vens:
tocares cada poema com ternura
é ainda – mãe minha e nossa – algo que me consola

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W. B. Yeats

Fotografia de Taylor Smith

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W. B. YEATS

em junho nasceu o irlandês Yeats.
escreveu, amou, morreu.
cinquenta e nove cisnes mais uma prima
foram o fascínio que gravou nas pedras

certas curiosas semelhanças apertam
em tardes iguais a esta, tardes baças em que se
me incendeia nos olhos a mesma
névoa sublime da deceção.

Salah Stétié

Poeta argelino Salah Stétié
Fotografia de Kuma

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SALAH STÉTIÉ

quando subíamos da cave para a luz
e os olhos atordoados se desembaraçavam das trevas
– do substrato húmido das penumbras –
aprendíamos que era esse o caminho do poema

não sabíamos
não existe outra forma de o atravessar

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Milão

Poem about the Milanese district of Navigli Darsena.
Fotografia de FollowMiAround

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MILÃO

reencontrei deus uma noite em Navigli Darsena, enquanto um jovem padre
me falava de Caravaggio e de Job e do inferno variável de Sartre,
e gorgolejava uma fonte no interior da igreja
e duas velhas ficavam a rezar por nós
e pedíamos – eu e ele – na esplanada repleta de um restaurante grego
uma salada horiatiki e um branco seco,
esplêndido,
da ilha de Creta

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