Viagem pela Europa

Fotografia de Yijie Miao

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VIAGEM PELA EUROPA

nada suplanta esta impressão que o sol empresta às coisas,
este beijo da luz sobre os teus ombros,
contra as paredes,
por entre as palavras

é-se feliz e inocente, é-se livre e capaz
em Troia e em Ítaca, em Estocolmo
ou Lisboa

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Paris

Paris at sunset
Fotografia de Chris Linnet

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PARIS

clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data
de trinta de maio de dois mil e quatro

ranúnculos de todas as cores nos jardins,
especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena,
depois um Malinois enorme, a rapariga negra
de olhos esmeralda

pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de
algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes
misturadas de gatos e pássaros nas varandas

o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha,
o cão altivo acompanhava a sua deusa,
eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi
e aquilo tudo por alguma razão ficou,
ou mesmo por nenhuma

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcelana, Abraham Mignon

Abraham Mignon, Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcela, 1660

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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON

entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam
colhidos pela beleza dos frutos,
pela majestade da majólica azul de Delft,
pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra,
que desce em silêncio das folhas de videira
aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas
e das ostras à portentosa seda,
onde toda a cena renasce e morre,
morre e renasce

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© João Ricardo Lopes (2024)

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Lavra, Matosinhos

ddzphotos
Fotografia de ddz_photo

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LAVRA, MATOSINHOS

regressámos hoje a este lugar pelágico
onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos,
onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol
para reencontrar-se com o brilho frágil
das gramíneas

depois que partiste
todo o espaço pareceu encarquilhado e rude.
a miséria da dor afundou-nos os olhos
e silenciou as palavras

porém este lugar acicata.
como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar
horas infinitas pelos corredores do vento
e com o mar em fundo

voltamos por isso a nós,
renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos,
de outro tempo, noutro corpo

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Mãe

margaridas
Fotografia de Aaron Burden

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MÃE.

Maria Alice Pereira Costa
08.06.1956 – 21.09.2024
in memoriam

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para onde tu fores nós iremos, mãe.
por muito que nos fujas,
nós perseguiremos a tua mão

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© João Ricardo Lopes (21.09.2024)

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Consolação

Fotografia de Massimiliano Mancini

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CONSOLAÇÃO

às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde
para um café.
o interior da chávena, como se umbigo
do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo,
um olhar, falsas promessas, o desfecho
que há muito se pedia para um poema

a solitude reage ao tampo de mármore, tomba
num movimento próprio de corpo atingido
por uma saraivado de flechas

vemos de súbito lugares de infância, colegas
da faculdade, frases que um dia lemos
obliquamente
no interior de um livro preferido
e que foram decerto escritas para a nossa catarse

o café é um lenitivo, um veneno, uma porta
para o abismo

às vezes nada resta sobre o tampo álbido
de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas
tristes, contadas,
como palavras que emudeceram para sempre
e que guardam para nós, ainda, o pouco sol
de uma consolação

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© João Ricardo Lopes (2024)

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Escolhe um bom lugar para morrer

pôr do sol na praia; sunset at beach; ocaso no mar;
Fotografia de Freddy Beaumont

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ESCOLHE UM BOM LUGAR PARA MORRER

escolhe um bom lugar para morrer.
não permitas que as circunstâncias banalizem
a tua vida, mesmo que a vida do fim,
mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se
na terra, mesmo se essa vida noutra coisa
te destrona

escolhe um bom lugar para morrer:
um candeeiro aceso, uma gota de água,
o bico de um pássaro

partir não é uma minudência qualquer.
nenhuma criatura deve abandonar este mundo
à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando
um relâmpago na memória

não permitas que te soneguem
o derradeiro impulso da alma: filho,
quando morreres, morre
em paz

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© João Ricardo Lopes (2024)

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