SILÊNCIO DE ARRECADAÇÃO

Alessandro Cereda
Fotografia de Alessandro Cereda

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SILÊNCIO DE ARRECADAÇÃO

dai-me senhor a grande paz
da sala dos arrumos, dos armários
de arquivo, dos caixotes selados e
proibidos de abrir, o grande silêncio
da penumbra e placares vazios
de cortiça, o amor da sombra e
da fita-cola adesiva, dos objetos
caídos no seu próprio sono
de arrecadação

sob a pionés nenhuma palavra.
debaixo da janela a ausência de rumor.
dentro de mim isto apenas

FRÁGIL. NÃO MEXER!

10 de maio de 2011

DENTES-DE-LEÃO

Eli Drzazga
Fotografia de Eli Drzazga

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DENTES-DE-LEÃO

partimos do princípio talvez errado
de que as flores se amam pelo cheiro
ou pela cor
ou pelo alarde
e não pelo que nelas nos alegra
em silêncio
e mantém de deus e de nós
uma exatidão irrenunciável

deveríamos partir antes talvez
da premissa de que a beleza é acima de tudo
um modo de confessar-nos,
de que amamos as flores pela nossa fragilidade,
pelo que nelas e em nós
existe de promessa fulgurante,
e sobretudo
de sublime desaparição

CASA VELHA

Bragi Ingibergsson - BRIN 2
Fotografia de Bragi Ingibergsson

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CASA VELHA

é nos sonhos que a casa regressa: as teias de aranha ensarilhadas nas vigas, as mascarras nas paredes tocadas pelo lume, o pó sobre os móveis e na face dos vidros, o cotão a dançar por baixo das camas, a borra caindo devagar no fundo das cafeteiras

à porta da cozinha vejo de novo os pedaços de abóbora e as cascas de batata. mãos diligentes virão com eles preparar a lavadura dos porcos

em baixo, na terra batida, ficam os galinheiros, o estábulo, a pocilga. é o reino da penumbra e do frio, o reino das alfaias e dos lagares, o reino do medo: aqui todos comem em silêncio: os pintos, os vitelos, os bácoros, os roedores, os escaravelhos, a própria morte

é neste saibro que os sonhos me doem sempre mais, como se não soubesse como limpar-me de toda esta memória repleta de dor e de esterco. a ele regresso todas as noites no corpo de uma criança, ou no corpo de um desses mortos que não perdoam, para vaguear à toa entre paredes que não existem já, entre quartos e desvãos e caves (creio-o) que não desaparecerão nunca

15.03.2020

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Poema no YouTube, no canal do autor, lido por Leandro Martins

VENDE-SE

Bragi Ingibergsson - BRIN
Fotografia de Bragi Ingibergsson

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VENDE-SE

cotos de sabão secando nas margens do tanque,
frascos vazios e teias de aranha no parapeito das janelas,
algum fruto esquecido,
triste até à exaustão

dentro das gavetas naftalina,
peças brancas de linho, cambraias, lenços, os coturnos de lã

a esmo, no remanso de uma caixa de sapatos, os óculos,
os teus alfinetes, retratos ovais cor de sépia,
suponho que duas ou três algumas cartas,
não de amor mas dos filhos, do ultramar,
o bilhete de identidade com o dizer “vitalício”

alguém juntou tudo à pressa

fecharam os portões com arame e um cadeado grosso,
puseram à mostra, em letras gordas, a vermelho,
as palavras “vende-se”

depois veio da imobiliária uma moça loira, de minissaia

percebia bastante destas coisas,
torceu o nariz mais do que uma vez,
disse que da casa não era de esperar grande coisa

as saudades estão hoje ao preço da chuva

TAMBÉM ROTHKO A TUDO O MAIS RENUNCIOU

Mark Rothko – “Untitled” 1955orange-and-yellow
Mark Rothko, Sem Título, 1955

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TAMBÉM ROTHKO A TUDO O MAIS RENUNCIOU

nunca como eu amaste as coisas simples,
a pele de um fruto, a castidade das pétalas, o brutal ruminar das ondas
no molhe

nunca como eu desejaste o coração tímido
dos minúsculos corpos acesos na terra, a luz que transborda
de pedra em pedra, o rigor de uma equação na
música barroca

também Rothko a tudo o mais renunciou
pela pobreza dos seus campos abertos,
também ele preferiu a evidência da luz a todas as clausuras da boca
ou do amor

nunca como eu atravessaste tu
o silêncio, as formas nuas, ou o abismo ou o brutal ruminar das ondas
perdendo o juízo no molhe

INVERNO

Martin Rak
Fotografia de Martin Rak

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INVERNO

a estrada vinha ter comigo
e eu conduzia-me vagaroso pelos meus sonhos mais longínquos.
havia charcos, folhas, insetos afogados no alcatrão.
pelo vidro a chuva espiava-me e tinha arrepios

o inverno acabava de transpor a última cancela
na várzea sombria

tudo é metáfora gania o vento

27.10.2017