CINZAS

Andreas Lischka - wood
Fotografia de Andreas Lischka

.

CINZAS

para Amélia Pereira, minha avó

.

o cheiro das cinzas é quase
tão indecifrável quanto
a efusão da tinta.
com elas escrevemos
não palavras, mas o silêncio,
não a manhã, mas memórias,
não o fim, mas um rosto –
também ele impossível
de dizer,
seja de que forma for

26.01.2022

DA NOSSA SOLIDÃO

Carmit Rozenzvig
Fotografia de Carmit Rozenzvig

.

DA NOSSA SOLIDÃO

tinha esquecido para que serve
a infância
José Tolentino Mendonça

.

nenhum de nós habita ao certo
o tempo que o calendário e os relógios calculam.
a outra era pertencemos por vezes,
como se, clandestinos, corrêssemos a noite
em busca de um aroma, de uma voz,
de um nome

como de novo se vivessem aqueles que um dia,
na sua descarnada natureza, deixaram
de poder abraçar-nos,
como se por milagre tivéssemos reencontrado
o rosto inexplicável, o rosto imenso
da nossa própria solidão

22.12.2021

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

Alberto Ghizzi Panizza
Foto: Alberto Ghizzi Panizza

.

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

pelas frinchas da garagem
entram os dedos da lua

depois é um eco de velhas sucatas
adormecidas, cablagens e
candeeiros a petróleo, caixas de
sapatos e bonecos de caco,
coisas dispersas, despejadas pelo
tempo ao acaso através da pele

sem rasto é o cheiro do silêncio,
o rosto que nos pertencia
e hoje não passa de gelo talhado
a esmo, por entre as frestas
da memória

11 de maio de 2011

MIRANDA DO DOURO

Miranda do Douro_João Ricardo Lopes
Foto de arquivo pessoal (2021)

.

MIRANDA DO DOURO

em lugar nenhum me pareceu Miranda
tão bela
como na loja dos frutos secos

mergulhas as mãos no gigo das nozes
ou das amêndoas
e sentes a volúpia dos círculos
(a forma arredondada dos seixos enxutos)
e sentes o pó de ouro que ergue o vento
no interior do castelo desmantelado
e que se torna ele próprio
aceitável
e parte da paisagem

se almoçares num dos restaurantes típicos,
hás de pedir a posta de carne generosa
(com alhos e batatas a murro),
se hás de petiscar,
pedirás doce de figo e roscos,
se beberes,
hás de sulcar as arribas íngremes
que entalam o fio verde do rio,
hás de caminhar pelas ruas em duas línguas,
hás de respirar o aroma de cravinas
que desce dos varandins
e queimar o rosto na praça da Catedral

aí entrarás para rezar,
aí em silêncio mergulharás as mãos
e em silêncio as hás de retirar

nessa lojinha amei o outrora
como se ama uma frase sem excesso
ou a luz perfeita de uma memória

as mãos tocam a antiguidade e a juventude
da terra.
não há outro lugar assim em Miranda,
não há

agosto de 2021

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

Foto de arquivo pessoal (2021)

.

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

nos dias de chuva
nada há a separar as muralhas das nuvens,
mas nos dias de sol
o granito renasce na paisagem ao redor
e abre a sua pele dura
às mãos que o queiram tocar.
aqui onde o país se esqueceu de Portugal
nem a bandeira flutua,
só os mortos,
só o silêncio que o vento tomba entre castanheiros
e ressequidas ervas ralas
que são como línguas exaustas no meio das pedras.
do alto avista-se a soledade,
e pomares de maçãs, e montanhas cansadas.
um arco desperta-nos o olhar,
o da porta da traição:
por ela tudo se foi, até os crentes desta igreja medieval
para onde a tarde escorre em pó,
trazendo não sei que triste piedade

agosto de 2021

VILA FLOR

Foto de arquivo pessoal (2021)

.

VILA FLOR

dos lugares fica-nos muito, uma pedra, um punhado de terra, fotografias, oscilações da luz guardando a pequena memória dum ou doutro instante. fica-nos por exemplo o esmero de uma praça como esta (ardendo ao meio-dia contra as rosas magníficas que enfeitam o pedestal da rainha), fica-nos por exemplo a linha direita de casas velhas que o tempo não deliu, muito pelo contrário, casas que ombreiam agora com as feias moradias da moda (essas sim condenadas a morrer depressa), fica-nos por exemplo o curioso olhar da gente que nos espreita à porta dos cafés, demorando-nos na condição de intrusos (forasteiros, pelo menos), ou esse hambúrguer magistral comido na Casa das Tias, ou a vista soberba que nos projeta do alto do miradouro da Senhora da Lapa sobre o verde dos pinheiros e dos abetos, ou o voo picado dos milhafres, ou o estalar das pinhas (rachados pelo sol)

chega-se a esta Póvoa de Além Sabor através de um labirinto de estradas, depois de círculos e círculos e relógios dando horas diferentes numa rotunda da praxe, trazendo no carro o GPS em alerta, como se fosse ele capaz de apontar para este chão crestado pelo calor (por onde brotam línguas de xisto e lagartixas multicolores), ou para esta aragem abafada do suão trazendo de muito longe a algazarra de crianças ou o sopro dos automóveis além numa qualquer autoestrada com letras e números que já esqueci

em rigor o que nos fica dos lugares é sinuoso, saturado de pormenores, prenhe de um sentimento que apenas o passar dos anos ajuda a descobrir. por exemplo o rosto belo que nos serve à mesa e nos estuda os movimentos e o sotaque, por exemplo o perfume das glicínias e das cravinas a cair devagar das varandas, por exemplo esse cachorro que mergulha o focinho no bebedouro antigo e nos agradece uma qualquer incompreensível compreensão, por exemplo a tua sombra abrigando a minha sombra, por exemplo

agosto de 2021