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ALGUNS LIMÕES
dois meses mais tarde regressei
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro da tristeza
não é uma chama exata, mas é real,
algo como a Troia de Homero entre as paredes e o teto, inchando
com os seus dentes de musgo, poderosa o bastante
para destruir-nos o repouso do silêncio
o vento passava pela narina inanimada dos objetos
e contorcia-se com dor: creio que deus sentia repugnância
pelo focinho prognata da morte e talvez não esperasse
ver-me voltar
é uma grande imagem essa, a dos dedos erguendo na madeira
a sua cama de pó, vagueando de conluio com os outros ossos
sobre a linha do espanto, sentindo aqui e além
uma comiseração absurda por todos os cerebrozinhos
atentos dos fósforos ainda vivos, ainda intactos,
ainda disponíveis
anotei de cabeça: a tristeza fede ao que fede o bolor dos limões
apodrecidos em nossa vez
depois escrevi uma carta longa a Kęstutis Navakas e esperei
que o juízo retrocedesse um pouco até à zona de segurança:
digo-vos – no escrupuloso respeito pela verdade – que um homem nada sabe
acerca do tempo
existe qualquer coisa de infernal nesse nosso galopar
pela paisagem dos dias: o mofo liberta-se diretamente contra os olhos,
desce pelos degraus da noite, depreda-se a si mesmo
num movimento de escorpião
digo-vos que um homem chora em segredo a sua vergonha.
fá-lo como Aquiles fez uma noite, ou duas, ou três noites, debaixo
das estrelas, no interior de um corpo minguado
e mortal
o cheiro da tristeza é o cheiro do medo
Kęstutis Navakas não chegou a responder-me.
horas antes de o sobrescrito entrar por uma portinhola em Kaunas
tinham-no levado de ambulância
e foi quando ao abrir as janelas e as portas me dei conta
do cheiro do medo:
o medo havia-se instalado em mim por completo, igual a um demónio,
igual a um tumor, a um alter ergo,
a um filho que nunca pensei ter
tinham passado dois meses
digo-vos no escrupuloso respeito pela verdade: o mundo
já me não pertencia ou eu perdera para sempre
a faculdade da razão
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