Toledo

Fotografia de Thomas Haas

.

TOLEDO

.

para a Catarina

.

pressenti a Tua presença nos conspícuos altares de madeira
e ouro
e igualmente nos vitrais por onde a luz límpida da manhã fluía,
quase líquida

imaginei os Teus passos na sinagoga vazia, nos capitéis floridos
sobre os quais mãos antigas esculpiram o silêncio
e mãos inexoráveis o rechaçaram

vi as paredes mouriscas e o majestoso verde do rio escavando
a rocha cor de açafrão, no cimo da qual toda a opulência
se encavalita, esquecida do azul sem mancha
do horizonte

Tu estavas aí vergando as árvores com o vento,
atravessando com os meus ossos o arco das pontes.
Tu leste-me os pensamentos, a pele engelhada dos braços,
a miopia do coração

Tu és sem nome e sem forma e tudo transcendes:
a pedra, o musgo, o fumo sereno dos círios
e o lume das estrelas

soube que não descias somente às coisas,
mas que eras o bojo das coisas e o desígnio cego do tempo
que nas coisas envelhece e renasce,
é e não é,
maravilha e infunde o medo

senti a Tua sombra e o Teu fulgor, porém nada disse,
pois também as palavras são um modo de pertencer-te,
mesmo se – adivinhando a Tua voz – a não compreendemos

.
© João Ricardo Lopes (04.09.2026)

.

Lavra, Matosinhos

ddzphotos
Fotografia de ddz_photo

.

LAVRA, MATOSINHOS

regressámos hoje a este lugar pelágico
onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos,
onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol
para reencontrar-se com o brilho frágil
das gramíneas

depois que partiste
todo o espaço pareceu encarquilhado e rude.
a miséria da dor afundou-nos os olhos
e silenciou as palavras

porém este lugar acicata.
como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar
horas infinitas pelos corredores do vento
e com o mar em fundo

voltamos por isso a nós,
renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos,
de outro tempo, noutro corpo

.

© João Ricardo Lopes (2025)

.

.