Abraham Mignon, Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcela, 1660
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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON
entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam colhidos pela beleza dos frutos, pela majestade da majólica azul de Delft, pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra, que desce em silêncio das folhas de videira aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas e das ostras à portentosa seda, onde toda a cena renasce e morre, morre e renasce
regressámos hoje a este lugar pelágico onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos, onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol para reencontrar-se com o brilho frágil das gramíneas
depois que partiste todo o espaço pareceu encarquilhado e rude. a miséria da dor afundou-nos os olhos e silenciou as palavras
porém este lugar acicata. como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar horas infinitas pelos corredores do vento e com o mar em fundo
voltamos por isso a nós, renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos, de outro tempo, noutro corpo
às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde para um café. o interior da chávena, como se umbigo do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo, um olhar, falsas promessas, o desfecho que há muito se pedia para um poema
a solitude reage ao tampo de mármore, tomba num movimento próprio de corpo atingido por uma saraivado de flechas
vemos de súbito lugares de infância, colegas da faculdade, frases que um dia lemos obliquamente no interior de um livro preferido e que foram decerto escritas para a nossa catarse
o café é um lenitivo, um veneno, uma porta para o abismo
às vezes nada resta sobre o tampo álbido de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas tristes, contadas, como palavras que emudeceram para sempre e que guardam para nós, ainda, o pouco sol de uma consolação
escolhe um bom lugar para morrer. não permitas que as circunstâncias banalizem a tua vida, mesmo que a vida do fim, mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se na terra, mesmo se essa vida noutra coisa te destrona
escolhe um bom lugar para morrer: um candeeiro aceso, uma gota de água, o bico de um pássaro
partir não é uma minudência qualquer. nenhuma criatura deve abandonar este mundo à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando um relâmpago na memória
não permitas que te soneguem o derradeiro impulso da alma: filho, quando morreres, morre em paz
nesse ano o quinquilheiro não apareceu. esperámos por ele como se espera um dia de sol, como se aguarda uma notícia vinda de França, como se adivinha uma ninhada de pintos por Santo António
mas nem sinal da furgoneta, da buzina de fole, das ferragens batendo umas nas outras
a minha mãe contava comprar-lhe, se não me engano, um alguidar de cobre. via-o já polido e brilhante, arrubinado, como a cor de um arrebol um pouco antes do dia e do anoitecer
o adro encheu-se de gente, uns para trazer, outros para levar bugigangas, mas o descarado não veio
a luz foi minguando, até que os que ali restavam mal se viam uns aos outros. por fim também eles debandaram. só um cachorro sem dono ficou, aninhado sob os braços do grande damasqueiro do padre Francisco
o inverno entrou pelos portões do cemitério
mortas de desgosto, as ervas tombavam no intervalo das pedras. a tremer, coberto pelas finas camadas do frio, abri a porta de casa