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NIHIL
a casa em repouso absoluto, alicerces,
paredes, placas de betão
manhã, tarde, noite, o futuro, o presente, o passado,
rasto de cinza o tempo, de pé, ao alto, ainda,
como se um escombro pudesse ser belo
e é!
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© João Ricardo Lopes (2025)
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. Caderno de Poesia (2021-2026) .

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UMA JURA
jurámos cuidar de ti a despeito de toda a peçonha,
de toda a inoculação, a despeito de toda a maleza
multiplicada no sangue
jurámos por uma vez na vida
tomar no corpo o sacrifício de Eneias,
abdicando da pronta bastardia dos luxos
por amor a ti, princípio
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© João Ricardo Lopes (2026)
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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON
entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam
colhidos pela beleza dos frutos,
pela majestade da majólica azul de Delft,
pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra,
que desce em silêncio das folhas de videira
aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas
e das ostras à portentosa seda,
onde toda a cena renasce e morre,
morre e renasce
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© João Ricardo Lopes (2024)
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LAVRA, MATOSINHOS
regressámos hoje a este lugar pelágico
onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos,
onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol
para reencontrar-se com o brilho frágil
das gramíneas
depois que partiste
todo o espaço pareceu encarquilhado e rude.
a miséria da dor afundou-nos os olhos
e silenciou as palavras
porém este lugar acicata.
como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar
horas infinitas pelos corredores do vento
e com o mar em fundo
voltamos por isso a nós,
renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos,
de outro tempo, noutro corpo
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© João Ricardo Lopes (2025)
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CONSOLAÇÃO
às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde
para um café.
o interior da chávena, como se umbigo
do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo,
um olhar, falsas promessas, o desfecho
que há muito se pedia para um poema
a solitude reage ao tampo de mármore, tomba
num movimento próprio de corpo atingido
por uma saraivado de flechas
vemos de súbito lugares de infância, colegas
da faculdade, frases que um dia lemos
obliquamente
no interior de um livro preferido
e que foram decerto escritas para a nossa catarse
o café é um lenitivo, um veneno, uma porta
para o abismo
às vezes nada resta sobre o tampo álbido
de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas
tristes, contadas,
como palavras que emudeceram para sempre
e que guardam para nós, ainda, o pouco sol
de uma consolação
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© João Ricardo Lopes (2024)
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ESCOLHE UM BOM LUGAR PARA MORRER
escolhe um bom lugar para morrer.
não permitas que as circunstâncias banalizem
a tua vida, mesmo que a vida do fim,
mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se
na terra, mesmo se essa vida noutra coisa
te destrona
escolhe um bom lugar para morrer:
um candeeiro aceso, uma gota de água,
o bico de um pássaro
partir não é uma minudência qualquer.
nenhuma criatura deve abandonar este mundo
à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando
um relâmpago na memória
não permitas que te soneguem
o derradeiro impulso da alma: filho,
quando morreres, morre
em paz
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© João Ricardo Lopes (2024)
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