Papel dobrado

Foto do arquivo familiar

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PAPEL DOBRADO

ocorrências avulsas não significam migalhas no bolso.
pelo contrário, a pobreza desata-nos a língua,
aponta caminhos entre os misteriosos vazios
da humanidade

hoje acordei sem luz,
tirei da carteira um papel antigo e li.
era um poema acerca da tua morte, duro, dorido,
soldando linhas tresmalhadas

à falta de melhor pagamento abrimos essa promissória.
o que fica pelo meio dos versos não esconde
o quanto valemos em silêncio,
nós e a vida que temos

21.09.2026

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Louvor

Fotografia de Mykyta Martynenko

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LOUVOR

encontro a minha paz ao descer o caderno
até uma folha em branco

sitiadas pelo ruído e pelo vazio as minhas palavras
guardam-se para Ti, para o fulgor da manhã,
para a voz que me conduz no fio tortuoso
do tempo

nos dedos sinto o rigor da água, o empenho
do sabão, a Tua alegria

como ervas reverdecidas na terra as palavras fluem:
sei que os homens virão com as suas múltiplas lâminas,
virão com o lume do seu desamor
e essa pequena luz infinita talvez não perdure
senão meia estação

mas não importa.
houve nos meus pulsos o estremecimento, o milagre
replicado dos dias do começo
e eu sei que todo o poema nasce para Ti, todo o verde
das coisas anódinas e inúteis
e sei que afortunado sou, porque a mim mo ensinaste

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© João Ricardo Lopes (2026)

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