VILA FLOR

Foto de arquivo pessoal (2021)

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VILA FLOR

dos lugares fica-nos muito, uma pedra, um punhado de terra, fotografias, oscilações da luz guardando a pequena memória dum ou doutro instante. fica-nos por exemplo o esmero de uma praça como esta (ardendo ao meio-dia contra as rosas magníficas que enfeitam o pedestal da rainha), fica-nos por exemplo a linha direita de casas velhas que o tempo não deliu, muito pelo contrário, casas que ombreiam agora com as feias moradias da moda (essas sim condenadas a morrer depressa), fica-nos por exemplo o curioso olhar da gente que nos espreita à porta dos cafés, demorando-nos na condição de intrusos (forasteiros, pelo menos), ou esse hambúrguer magistral comido na Casa das Tias, ou a vista soberba que nos projeta do alto do miradouro da Senhora da Lapa sobre o verde dos pinheiros e dos abetos, ou o voo picado dos milhafres, ou o estalar das pinhas (rachados pelo sol)

chega-se a esta Póvoa de Além Sabor através de um labirinto de estradas, depois de círculos e círculos e relógios dando horas diferentes numa rotunda da praxe, trazendo no carro o GPS em alerta, como se fosse ele capaz de apontar para este chão crestado pelo calor (por onde brotam línguas de xisto e lagartixas multicolores), ou para esta aragem abafada do suão trazendo de muito longe a algazarra de crianças ou o sopro dos automóveis além numa qualquer autoestrada com letras e números que já esqueci

em rigor o que nos fica dos lugares é sinuoso, saturado de pormenores, prenhe de um sentimento que apenas o passar dos anos ajuda a descobrir. por exemplo o rosto belo que nos serve à mesa e nos estuda os movimentos e o sotaque, por exemplo o perfume das glicínias e das cravinas a cair devagar das varandas, por exemplo esse cachorro que mergulha o focinho no bebedouro antigo e nos agradece uma qualquer incompreensível compreensão, por exemplo a tua sombra abrigando a minha sombra, por exemplo

agosto de 2021

ALFÂNDEGA DA FÉ

Alfândega da Fé
Foto de arquivo pessoal (2021)

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ALFÂNDEGA DA FÉ

é no alto que melhor se escuta
o murmúrio do vento cavando a terra.
a paisagem é verde, ocre, branca, castanha,
às vezes um pouco cinzenta também,
acobreada,
às vezes (se o sol abre por entre
as nuvens) de um ouro resplandecente,
onde os cerejais, os soutos, as amendoeiras,
os olivais se perfilam compactos

o silêncio e o sopro do vento
fazem-nos pensar em deus.
é no alto, no azimute de azuis sucessivos,
que melhor ele se escuta,
diríamos, que melhor o vemos nós

agosto de 2021

COMPARTMENT C, CAR 193

Edward Hopper, Compartiment Car, 1938

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COMPARTMENT C, CAR 193

oh, a América profunda, essa metáfora que Hopper
tinha no pensamento, quando em 1938 pintou
as entranhas da solidão

quem é essa mulher por quem nos apaixonamos
obliquamente? como dizer não
a esse negro aveludado da roupa ao entardecer?

oh, a América! esse verme gordo engolindo
paisagens! e eu estava dentro dele em 1938, quando
Hopper pintou a minha própria solidão