CHUVA

Antonio Grambone

Foto: Antonio Grambone

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CHUVA

em certos lugares encontra-nos a noite
caindo nas mãos um do outro
como duros pedaços de antracite
que o lume seca e lava
e fragmenta

a desolação produz poças negras e viscosas,
em cujo silêncio mergulha às vezes
um corpo exangue

dói quase tudo,
uma frase presa na traqueia,
a chuva desamparada no varandim,
o inseto afogado na água,
o tempo que devagar nos morre
no ódio comum

nada nos salva,
nem a poesia,
nem a invisível chama dos olhos marejados,
nada

A BARBA POR FAZER, O CASACO AO VENTO

Radovan Skohel
Foto: Radovan Skohel

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A BARBA POR FAZER, O CASACO AO VENTO

a barba por fazer, o casaco ao vento,
silêncio no lugar das respostas,
olhos brilhantes e ardilosos,
espiguetas e cizânia,
cardos do mar

no areal há caminhos semelhantes
ao que desenham os meus pés

uma ou outra vez na minha vida
transformo-me em mineral para que as marés
me lapidem

sou de vidro, sim.
calem-se todos! vós também,
vozes na minha cabeça!

ESTE É O FEUDO DO VENTO

Karsten Wrobel
Fotografia de Karsten Wrobel

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ESTE É O FEUDO DO VENTO

este é o feudo do vento.
compassivos os grandes rochedos de granito
oferecem-nos o ventre

pintaremos nesta gruta mãos de ocre amarelo,
de cinza, de sangue.
o azul é mais difícil: será preciso
esmagar o céu, esboroá-lo com raiva

mas isso, isso não nos compete

DENTRO DE CASA OS OLHOS

Viktor Cherkasov
Foto: Viktor Cherkasov

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DENTRO DE CASA OS OLHOS

dentro de casa os olhos rodam,
linhas seguras, móveis lisos, corredores e livros,
artefactos,
uma lâmpada

os olhos desventram, procuram

andaimes de vazio, o envelope esgarçado,
a carta, a luz
– olhá-la, que desterro!

novembro de 2015

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

Alberto Ghizzi Panizza
Foto: Alberto Ghizzi Panizza

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PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

pelas frinchas da garagem
entram os dedos da lua

depois é um eco de velhas sucatas
adormecidas, cablagens e
candeeiros a petróleo, caixas de
sapatos e bonecos de caco,
coisas dispersas, despejadas pelo
tempo ao acaso através da pele

sem rasto é o cheiro do silêncio,
o rosto que nos pertencia
e hoje não passa de gelo talhado
a esmo, por entre as frestas
da memória

11 de maio de 2011

MIRANDA DO DOURO

Miranda do Douro_João Ricardo Lopes
Foto de arquivo pessoal (2021)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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MIRANDA DO DOURO

em lugar nenhum me pareceu Miranda
tão bela
como na loja dos frutos secos

mergulhas as mãos no gigo das nozes
ou das amêndoas
e sentes a volúpia dos círculos
(a forma arredondada dos seixos enxutos)
e sentes o pó de ouro que ergue o vento
no interior do castelo desmantelado
e que se torna ele próprio
aceitável
e parte da paisagem

se almoçares num dos restaurantes típicos,
hás de pedir a posta de carne generosa
(com alhos e batatas a murro),
se hás de petiscar,
pedirás doce de figo e roscos,
se beberes,
hás de sulcar as arribas íngremes
que entalam o fio verde do rio,
hás de caminhar pelas ruas em duas línguas,
hás de respirar o aroma de cravinas
que desce dos varandins
e queimar o rosto na praça da Catedral

aí entrarás para rezar,
aí em silêncio mergulharás as mãos
e em silêncio as hás de retirar

nessa lojinha amei o outrora
como se ama uma frase sem excesso
ou a luz perfeita de uma memória

as mãos tocam a antiguidade e a juventude
da terra.
não há outro lugar assim em Miranda,
não há

agosto de 2021

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

Foto de arquivo pessoal (2021)

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CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

nos dias de chuva
nada há a separar as muralhas das nuvens,
mas nos dias de sol
o granito renasce na paisagem ao redor
e abre a sua pele dura
às mãos que o queiram tocar.
aqui onde o país se esqueceu de Portugal
nem a bandeira flutua,
só os mortos,
só o silêncio que o vento tomba entre castanheiros
e ressequidas ervas ralas
que são como línguas exaustas no meio das pedras.
do alto avista-se a soledade,
e pomares de maçãs, e montanhas cansadas.
um arco desperta-nos o olhar,
o da porta da traição:
por ela tudo se foi, até os crentes desta igreja medieval
para onde a tarde escorre em pó,
trazendo não sei que triste piedade

agosto de 2021