Arrabaldes

Fotografia de Brian Isukeyi

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ARRABALDES

alguns quilómetros à parte da cidade, os pinhais sucedem-se
como os atores no teatro de Shakespeare.
o selo da boca guarda frases malnascidas, nas quais os pensamentos
surgem pela ordem certa numa linha de metro talvez errada:
de onde fui, para onde sou, quem vim?

a humanidade descola-se em lascas de uma fuselagem irregular.
em volta mulheres belas ignoram-me, gente triste ignora-me,
os estrangeiros ignoram-me, e os bem-aventurados, os sonhadores,
e todos os que caminham sobre os carris.
vejo ramos, caruma e vestígios de vento: também eles me ignoram

a missão de que corro atrás na vida?
trazer pela corda meia dúzia de frases necessárias,
encurralá-las um pouco mais, escolher cinco palavras, quatro, uma,
depois começar

a cidade fica à retaguarda, tal como a metade de mim que melhor conhecia.
a seguir aos pinhais as casas velhas e a velha letargia regressam.
um homem é, ao fim e ao cabo uma dor ambulante: isso ou, então,
ou outra coisa qualquer

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© João Ricardo Lopes (Madrid, 2026)..

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«A assim chamada vida» (Czesław Miłosz)

Life, Vida, Vita, Vie
Fotografia de Wolfgang Hasselman

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«A ASSIM CHAMADA VIDA» (CZESŁAW MIŁOSZ)

a assim chamada vida,
– isto é, o eu, o nós, a existência periclitante dos seres que nascem,
agem, poisam um seu lugar no mundo –
tem tudo para falhar

a escassez de água, o excesso de temperatura, a luz inóspita,
mas também a chusma infindável de causas fortuitas,
o erro na fecundação, a doença congénita, o meteoro assassino,
mas também o acidente de comboio, a queda fatal da árvore,
o mergulho fora de horas na piscina,
mas também a boca do déspota beligerante, a marcha da soldadesca,
o gargalo dos canhões

mas também as pragas bíblicas, as carnificinas homéricas,
as células cancerígenas

mas igualmente o desaire do jovem Werther,
a assincronia fatal de Romeu e de Julieta,
o desgosto inquantificável de Anna Karénina

mas igualmente o espaço e o tempo,
a disposição do deus arbitrário das bênçãos e das misérias,
o deus das promessas ditosas e das falas funestas,
o deus-sincrético, o deus uno, o deus panteísta,
o deus-amor, o deus violento, o do silêncio

mas igualmente o antes, o logo depois e o durante

a assim chamada vida cambaleia, rasteja, suplica às vezes,
às vezes renasce inesperadamente, prolifera, fagocita,
suspende-se a si mesma,
devora-se a si própria,
apavora-se consigo a sós,
aniquila os fracos, exubera entre os absurdos,
transmite-se como uma carta em segredo no interior do castelo

a assim chamada vida
– ou seja, o ornitorrinco, os protozoários, as praias da Polinésia,
o adágio de Barber, os azuis de Klein, a beterraba,
a Estrela da Morte, as estrelas Michelin, a estrela da beladona –
é uma versão da lotaria,
um algarismo algures entre o vermelho e o negro
de todas as formas imensas da sorte ou do infortúnio

a assim chamada vida
– que prodígio, que milagre –
tem tudo para falhar
e, no entanto, triunfa, triunfou sempre, leitor!

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