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A TRISTEZA DE REMBRANDT
a questão foi sempre essa:
pode em algum momento, nalguma parte, a tristeza
de alguém satisfazer-se de alguma forma?
temos as nossas dúvidas sobre o assunto
a tristeza partilha com a água o pecado da avareza.
primeiro saltita, logo depois entrincheira-se
e um pouco mais à frente escava luzes sombrias
por entre as colinas,
um dia corta-nos o caminho
«não passarás» escreve em surdina,
«não passarás»
vejamos o caso de Rembrandt Harmenszoon van Rijn
a sua dor parece ilimitada, cresce de retrato
em retrato, como um rio que se conhece imparável
na marcha predatória
olhando os seus olhos olhados ao espelho,
vemos Saskia e as notas de dívida, a velhice estampada
nos inchamentos e nas gretas da pele
qual o tamanho ou a profundidade do seu desgosto?
temos uma ideia sobre assunto,
a água é um bom termo de comparação
um dia faz-nos submergir num delírio de papel gelatina
de prata.
mas nem aí, nem assim, se mostra ela inteiramente saciada.
a tristeza não a suporta a crusta terrestre,
o seu reino é nos infernos mais ínferos,
ou mesmo para além deles
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