ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

Nuno Araújo
Foto: Nuno Araújo

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ESTA MANHÃ O SILÊNCIO

esta manhã o silêncio subiu pelas paredes e pelas asnas,
trepou as travincas, as teias altas, as cérceas geladas

e atravessou a pedra, o cimento, as fissuras, o próprio ar

sou agora toda a minha vida, toda a minha vida
e a casa estremeceu e as palavras (ferro congelado)
doeram nas mãos

JANEIRO, MEMÓRIAS

Clara Gamito
Fotografia de Clara Gamito

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JANEIRO, MEMÓRIAS

sobe às vezes de dentro de nós, como por eclusas, a visão esquecida da mesma paisagem. e então o moinho roda, os mortos voltam, o velho passal enche-se de perfume e de frutos. no mesmo lugar onde hoje os herdeiros disputam para as suas redes altas de arame o sol, há vozes de paz, crianças correndo, leves pássaros saltitantes. vê-se tudo como nas iluminuras

11.01.2020

AOS AMIGOS, NESTE NATAL

Tatyana Tomsickova_ Twinkle Twinkle Little Flame. Art Print, Canvas on Stretcher
Fotografia de Tatyana Tomsickova

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AOS AMIGOS, NESTE NATAL

já me não demoram as palavras.
uso delas somente a parte do fogo,
sobretudo o longo silêncio
que elas fazem
ao demulcrir na boca

as palavras são, como todos sabemos,
modos de amar através do tempo.
há em si qualquer coisa de vidro,
de natureza descarnada,
como o som ou a luz

não as dispenso, ainda assim,
na sua pouquidade dizem tudo.
benquerença, amor, afago, amigo,
rútilo, calor, nudez, felicidade,
presépio, poema, Jesus

dezembro de 2021

DA NOSSA SOLIDÃO

Carmit Rozenzvig
Fotografia de Carmit Rozenzvig

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DA NOSSA SOLIDÃO

tinha esquecido para que serve
a infância
José Tolentino Mendonça

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nenhum de nós habita ao certo
o tempo que o calendário e os relógios calculam.
a outra era pertencemos por vezes,
como se, clandestinos, corrêssemos a noite
em busca de um aroma, de uma voz,
de um nome

como de novo se vivessem aqueles que um dia,
na sua descarnada natureza, deixaram
de poder abraçar-nos,
como se por milagre tivéssemos reencontrado
o rosto inexplicável, o rosto imenso
da nossa própria solidão

22.12.2021

SILÊNCIO DE ARRECADAÇÃO

Alessandro Cereda
Fotografia de Alessandro Cereda

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SILÊNCIO DE ARRECADAÇÃO

dai-me senhor a grande paz
da sala dos arrumos, dos armários
de arquivo, dos caixotes selados e
proibidos de abrir, o grande silêncio
da penumbra e placares vazios
de cortiça, o amor da sombra e
da fita-cola adesiva, dos objetos
caídos no seu próprio sono
de arrecadação

sob a pionés nenhuma palavra.
debaixo da janela a ausência de rumor.
dentro de mim isto apenas

FRÁGIL. NÃO MEXER!

10 de maio de 2011

SOL DE DEZEMBRO

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Javier De La Torre
Fotografia de Javier De La Torre
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SOL DE DEZEMBRO
para Victor Oliveira Mateus

 

por entre as cortinas
o sol insiste e entra. o que dele
no parapeito nos aquece
é um resquício velado
do Paraíso.
a luz cobre a pele
e despe-a,
sutura,
amacia-a sem medo.
é isto o inverno: uma mescla doce
e amarga de arrepio solitário
e de desvelo

04.12.2021

DENTES-DE-LEÃO

Eli Drzazga
Fotografia de Eli Drzazga

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DENTES-DE-LEÃO

partimos do princípio talvez errado
de que as flores se amam pelo cheiro
ou pela cor
ou pelo alarde
e não pelo que nelas nos alegra
em silêncio
e mantém de deus e de nós
uma exatidão irrenunciável

deveríamos partir antes talvez
da premissa de que a beleza é acima de tudo
um modo de confessar-nos,
de que amamos as flores pela nossa fragilidade,
pelo que nelas e em nós
existe de promessa fulgurante,
e sobretudo
de sublime desaparição