CAMPOS DE ALFAZEMA, PROVENÇA

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Fotografia de MireXa

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CAMPOS DE ALFAZEMA, PROVENÇA

dificilmente se olvida um gesto de ternura,
um vestido vaporoso correndo
entre ângulos de luz solar ao cair do dia,
ou os cabelos loiros que esvoaçam entre linhas
intermináveis de alfazema florida

dificilmente se esquece o perfume
que em junho ou julho de um ano antigo,
numa aldeia qualquer nos arredores da Provença,
nos prende à substância do amor,
que é como se sabe o oposto da morte

dificilmente se perdoa a nós mesmos
o quilate de uma lembrança assim,
o corpo (leve de anos) correndo atrás daquela
que no campo, envolta em luz, nos foge
rindo, triunfante, para o lado da memória

dificilmente pode alguém imitar o poema
perfeito, ainda que guardando no bolso
alguns restos desse sol, algumas migalhas
dessa brisa, alguns pedaços desse riso,
algumas sobras desse amor com que o escrevias

DEUS

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Foto retirado do banco de imagens Pixabay

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DEUS

Dieu
je t’apelle
comme si tu existais
Anise Kolz

Mendonça encontrava deus nos baldios,
Eliot descobriu-o (a ele e a três leopardos albinos)
debaixo de um junípero azul,
Cocteau tocou-o na face mais fresca
da almofada

aos quarenta e cinco preocupa-me
em lado nenhum o ter descortinado ainda

talvez desconfie do vento, do vento que desalinha
os cabelos e nos enregela os ossos,
quando rente ao mar caminhamos lado a lado
e nevoenta – espumosa – a tarde cai sobre a cidade
e dedos longínquos de vapor – invisíveis –
acendem e ocultam e amam os lampiões

CAVE

Peter H
Foto de Peter H (via Pixabay)

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CAVE

noutra parte da casa guardam o vinho, o azeite, o mel,
as nozes –
ânforas e vasilhas, cântaros, tulhas,
mas também a palha e o serrim, o pó,
teias de aranha gigantescas, pegadas de roedores
a forma talhada do silêncio

é um tesouro mal visitado,
casto, sem ar

debaixo da terra, num buraco, guardou o avô
cartas que a luz não pode ler.
e eu penso nesse lugar morto,
no quanto as palavras devem assentar
e não ferir –
digamos, como sucede nos sonhos
onde as palavras devoram metal,
mas que ninguém escuta
de tão calafetadas e duras que são

guardam aí o inominável,
ecos, vagas alusões, cheiros humedecidos
de papel e tinta, estalidos nas traves,
gritos que o tempo apagou

em resumo, um silo enorme a nossa vida –
cântaros, arcas, potes e bilhas,
sacos de serapilheira empilhados no escuro,
no nada

guardamos tudo –
o vazio, ele também

ORPHEU, SOBRE EURÍDICE

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Fotografia recolhida na página Pexels

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ORPHEU, SOBRE EURÍDICE

não é a morte a que tu receias,
mas a luz,
a lâmpada que te consome a nervura do olhar e branca
te anoitece – como o pavor dos cegos
e dos ofuscados

VOU CONTAR-TE

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Fotografia de Роман Когомаченко (Pixabay)

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VOU CONTAR-TE

vou contar-te:
agora mesmo
a minha pele arrepiou-se
ao sentir a luz
e quando deslizou sobre
as palmas floridas
da citronela
e depois ao escutar no quarto
o ranger da madeira
na velha escrivaninha

um segredo:
de repente
descobri que vivia

25 de abril de 2021

TRANSTROMERIANA

.David Martín Castán

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TRANSTROMERIANA

embrenhar-me na penumbra como na garganta de um bosque.
lado de cá, lanterna acesa, formações de gelo,
marcas de botas, estrias na terra.
depois a lanterna desligada, a ardósia celeste, a poalha luminosa,
álgidas estrelas de aço

torniquetes para o além: ninguém arrisca dizer qual