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SOBRE AS MÃOS
a algidez das mãos deve-se não tanto
às manhãs de dezembro, mas ao lugar sombrio
de onde provêm as palavras, como se a noite
– na sua forma de cinza – pudesse permanecer
por elas e dentro e contra nós
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© João Ricardo Lopes (2025)
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. Caderno de Poesia (2021-2026) .

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O CAOS
os dias atropelam-se às vezes na mesma linha
em que as manhãs pedem um poema
sabemos que o tempo é outro
quando o crocitar das gralhas interrompe a neblina do bosque
e nos torna permeáveis ao frio
deus, talvez uma variável do silêncio, mostra-se
um pouco mais nas mãos
sabemos que o tempo lhe pertence
porque a pele se tinge de medo e de euforia ao sol
e se entrega por completo ao esquecimento
palavras que não são nossas perpassam o ar gélido
e percutem, não indefesas mas caóticas.
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© João Ricardo Lopes (2025)
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UM CIGARRO
era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro
não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar
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© João Ricardo Lopes (2025)
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RUA DE DELFT
algo de quase inocente ergue-se
nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos
que deus se demora no vento, nas portadas em direção
aos pátios, nas cores quentes que acordam
os impercetíveis movimentos da casa
algo nos traz aqui, tu dirás
o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz
humilde que tropeça na rua a esmo, acidental,
e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto
de uma novíssima oração
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© João Ricardo Lopes (2025)
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UMA JURA
jurámos cuidar de ti a despeito de toda a peçonha,
de toda a inoculação, a despeito de toda a maleza
multiplicada no sangue
jurámos por uma vez na vida
tomar no corpo o sacrifício de Eneias,
abdicando da pronta bastardia dos luxos
por amor a ti, princípio
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© João Ricardo Lopes (2026)
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QUASE AO LUSCO-FUSCO
interrompo-me no areal fitando o movimento das ondas ao entardecer. às vezes, como este encontro nada solene, quase dócil, precisamos de calar as coisas imensas e de escutar apenas o rumor. sabemos que a verdade do tempo é profunda e imperscrutável, mas o perpassar do vento e o crescer da água salina bastam
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também deus descansou ao sétimo dia, exausto talvez do refulgir de toda perfeição
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© João Ricardo Lopes (Apúlia, 2025)
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