Sobre as mãos

Fotografia de Alexander Grey

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SOBRE AS MÃOS

a algidez das mãos deve-se não tanto
às manhãs de dezembro, mas ao lugar sombrio
de onde provêm as palavras, como se a noite
– na sua forma de cinza – pudesse permanecer
por elas e dentro e contra nós

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© João Ricardo Lopes (2025)

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O caos

Fotografia de Hulki Okan Tabak

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O CAOS

os dias atropelam-se às vezes na mesma linha
em que as manhãs pedem um poema

sabemos que o tempo é outro
quando o crocitar das gralhas interrompe a neblina do bosque
e nos torna permeáveis ao frio

deus, talvez uma variável do silêncio, mostra-se
um pouco mais nas mãos

sabemos que o tempo lhe pertence
porque a pele se tinge de medo e de euforia ao sol
e se entrega por completo ao esquecimento

palavras que não são nossas perpassam o ar gélido
e percutem, não indefesas mas caóticas.

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Um cigarro

Fotografia de Enes Dincer

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UM CIGARRO

era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro

não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Nihil

Fotografia de Sven Fennema

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NIHIL

a casa em repouso absoluto, alicerces,
paredes, placas de betão

manhã, tarde, noite, o futuro, o presente, o passado,
rasto de cinza o tempo, de pé, ao alto, ainda,
como se um escombro pudesse ser belo

e é!
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© João Ricardo Lopes (2025)

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Rua de Delft

Jan Vermeer , Rua de Delft, c. 1657-58

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RUA DE DELFT

algo de quase inocente ergue-se
nos tijolos de Delft e abre o olhar: sabemos
que deus se demora no vento, nas portadas em direção
aos pátios, nas cores quentes que acordam
os impercetíveis movimentos da casa

algo nos traz aqui, tu dirás
o sossego, as linhas seguras de Vermeer, a luz
humilde que tropeça na rua a esmo, acidental,
e eu direi o tempo ainda não perdido, o tempo intacto
de uma novíssima oração
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© João Ricardo Lopes (2025)

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Jurámos

Fotografia de Matt Hoffman

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UMA JURA

jurámos cuidar de ti a despeito de toda a peçonha,
de toda a inoculação, a despeito de toda a maleza
multiplicada no sangue

jurámos por uma vez na vida
tomar no corpo o sacrifício de Eneias,
abdicando da pronta bastardia dos luxos
por amor a ti, princípio

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Quase ao lusco-fusco

Fotografia de Tim Marshall

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QUASE AO LUSCO-FUSCO

interrompo-me no areal fitando o movimento das ondas ao entardecer. às vezes, como este encontro nada solene, quase dócil, precisamos de calar as coisas imensas e de escutar apenas o rumor. sabemos que a verdade do tempo é profunda e imperscrutável, mas o perpassar do vento e o crescer da água salina bastam
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também deus descansou ao sétimo dia, exausto talvez do refulgir de toda perfeição

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© João Ricardo Lopes (Apúlia, 2025)

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