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MÃE.
Maria Alice Pereira Costa
08.06.1956 – 21.09.2024
in memoriam
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para onde tu fores nós iremos, mãe.
por muito que nos fujas,
nós perseguiremos a tua mão
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© João Ricardo Lopes (21.09.2024)
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. Caderno de Poesia (2021-2026) .

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CONSOLAÇÃO
às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde
para um café.
o interior da chávena, como se umbigo
do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo,
um olhar, falsas promessas, o desfecho
que há muito se pedia para um poema
a solitude reage ao tampo de mármore, tomba
num movimento próprio de corpo atingido
por uma saraivado de flechas
vemos de súbito lugares de infância, colegas
da faculdade, frases que um dia lemos
obliquamente
no interior de um livro preferido
e que foram decerto escritas para a nossa catarse
o café é um lenitivo, um veneno, uma porta
para o abismo
às vezes nada resta sobre o tampo álbido
de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas
tristes, contadas,
como palavras que emudeceram para sempre
e que guardam para nós, ainda, o pouco sol
de uma consolação
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© João Ricardo Lopes (2024)
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ESCOLHE UM BOM LUGAR PARA MORRER
escolhe um bom lugar para morrer.
não permitas que as circunstâncias banalizem
a tua vida, mesmo que a vida do fim,
mesmo que igual a um grão de alface a despenhar-se
na terra, mesmo se essa vida noutra coisa
te destrona
escolhe um bom lugar para morrer:
um candeeiro aceso, uma gota de água,
o bico de um pássaro
partir não é uma minudência qualquer.
nenhuma criatura deve abandonar este mundo
à toa, mas a bem, sem pressa, ocupando
um relâmpago na memória
não permitas que te soneguem
o derradeiro impulso da alma: filho,
quando morreres, morre
em paz
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© João Ricardo Lopes (2024)
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A LENTA DESAPARIÇÃO DE NÓS MESMOS
atravesso as dunas, a lenta oscilação da cor, o vento,
o áspero rancor das areias, os rizomas secos,
atravesso a sombra inócua dos meus passos submersos,
o esquivo lugar que caldeia o sangue e me chama pelo nome,
atravesso formas de tinta, borrões, elegíacas borboletas
zarpando da cabeça em direção ao nada,
atravesso lunações, lucivelos, lágrimas que tudo subtraem à luz,
atravesso os fundos granitos da água como um barco,
atravesso a alta ruína que estremece com todo o medo
e sou dia e noite nos interstícios dos equinócios
e sou uma dor crescente,
atravesso o silêncio, a frívola armação em esqueleto das ideias,
atravesso-me como um inseto, como pó vazando as cavidades,
atravesso o sensível vazio que se antecipa ao varrer do vento,
as dunas, a máquina do silêncio, a dicotomia da morte,
atravesso o poema, a semântica, a cinza que dele em breve
há de restar no lugar do lume,
atravesso o meu próprio arrepio de me saber nada,
absolutamente nada, nem a memória de nada, nada, nada,
e depois calo, desofego, imobilizo-me,
sou um ponto amarfanhado no chão, depois nem isso,
depois, em última análise, nem a memória desse esquecimento
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© João Ricardo Lopes (2024)
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IMITAÇÃO DE CRISTO, KEMPIS.
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nunca é tarde demais.
procura a força do deserto, a distância,
procura a luminosidade dos grãos movediços e duros,
o adobe,
o cheiro das dunas,
o vento dobrando-se no erg,
procura-te na voz do nazareno,
na secura dos essénios,
na abstinente leveza dos berberes de túnica azul
nunca é tarde demais.
despoja-te do tempo e do espaço, despe-te da sombra e da luz.
nada existe no mundo que seja maior,
ou mais do que tu
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DA LUZ
foi indubitavelmente numa manhã assim
nascida da indulgência da luz
sem vafrícia,
sem balofice,
sem unhas iníquas na sombra,
que Vilhelm Hammershøi pintou
o que também nos seus retratos viu Vermeer
ou o que no rosto de Lucrezia Buti atingiu Fra Filippo Lippi
não tocamos as coisas,
somos antes tocados pelo movimento leve e sereno
que entre elas e nós
é a profundidade tangencial do espírito
ou, dito de outro modo,
é o nosso olhar reconciliado com a lente do poema
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MEDITAÇÃO, LAGO LUCERNA
então de súbito o sol aclara o vidro opaco
e enche de silêncio o espaço.
é um sinal de que talvez dias mais propícios nos aguardem à puridade
e de que talvez nos encontrem numa plataforma confusa
onde comboios param e partem a toda a hora,
de que talvez esses dias fastos nos coloquem a mão sobre o ombro
e conheçam o nosso nome,
e de que então de súbito saibamos exatamente quem somos,
iluminados por uma paz em tudo igual a esta paz,
igual à que nos frescos de Pompeia e de Herculano produzem
o vermelho-cinábrio e o ocre e o azul,
igual à que possuem certas palavras quando numa manhã anódina,
numa manhã como esta, escambrando o céu sobre o Lago Lucerna,
alguém as murmura com amor, sem pressa, ao nosso ouvido
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