Um cigarro

Fotografia de Enes Dincer

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UM CIGARRO

era preciso que falássemos,
que abríssemos entre nós
o conforto das manhãs desassombrosas
e o cheiro do mar posto
no aroma do café
ou num cigarro

não precisávamos de palavras,
precisávamos de comunicar

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Consolação

Fotografia de Massimiliano Mancini

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CONSOLAÇÃO

às vezes nada resta senão convidar-nos à tarde
para um café.
o interior da chávena, como se umbigo
do mundo, aclara as mensagens secretas do tempo,
um olhar, falsas promessas, o desfecho
que há muito se pedia para um poema

a solitude reage ao tampo de mármore, tomba
num movimento próprio de corpo atingido
por uma saraivado de flechas

vemos de súbito lugares de infância, colegas
da faculdade, frases que um dia lemos
obliquamente
no interior de um livro preferido
e que foram decerto escritas para a nossa catarse

o café é um lenitivo, um veneno, uma porta
para o abismo

às vezes nada resta sobre o tampo álbido
de uma mesa na sombra, a não ser essas moedas
tristes, contadas,
como palavras que emudeceram para sempre
e que guardam para nós, ainda, o pouco sol
de uma consolação

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© João Ricardo Lopes (2024)

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Felicidade

Coffee Jan van der Linden
Fotografia de Jan van der Linden

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FELICIDADE

talvez não reste grande coisa,
talvez pouco mais do que a chávena de café,
as seis suítes de Bach,
o modo como o sol tardio nos vem acender sem pânico
um cigarro esquecido na boca,
a certeza de que agora, nel mezzo del camin, somos sinceros
como um espirro

restam-nos talvez migalhas, bugigangas, pequeníssimas porções
de luz.
tornámo-nos a bem dizer ladrões,
larápios do instante:
cada dia é uma casa nos subúrbios,
um corredor labiríntico,
um cofre complicado que precisamos de estudar

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Café

Chávena de café; cup of cofee
Fotografia de ldia

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CAFÉ

bebo café, continuarei a bebê-lo como
quem lança cuspo às mãos ou um fio de água
às pedras que se talham

as noites são às vezes cruéis, às vezes impenetráveis
no som rouco que desce pelas paredes, às vezes
insípidas

não é fácil buscar esse outro lugar
de memórias, onde nos guardamos do óxido, esse
outro lugar mavioso, feérico, das palavras, que
por nossa causa foram um dia ditas
com amor extremo

as noites às vezes são densas, é preciso
por isso parafinar as mãos, impermeabilizar-lhes
o ardor

bebo café, continuarei a bebê-lo até
que o poema resgate o belo que há, que houve
na vida, até ser dia, até que se britem
os estuporados átomos da melancolia, até ser leda
a luz que atravessa a forma informe das palavras, até
o café frio mais não ser do que o nosso
próprio sangue caindo em nós,
muito de cima, muito dentro, sem
amparo
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