Insónia

Fotografia de Branislav Fabijanic

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INSÓNIA


cegos ainda das imagens que ficaram do dia anterior,
acordamos,
acordamos muitas vezes na mesma manhã

os estilhaços estão por toda a parte,
fazem parecer impossível a inteireza de uma ideia
ou a força de um rumo

recordarmos uma estrada,
por exemplo aquela em São Miguel ladeada de hortênsias altas,
ou a que no deserto de Lanzarote parecia conduzir-nos
ao abismo

a vida ilude

olhada muito de perto, como um fotograma de Tarkovsky,
sugere linhas ininteligíveis, absurdidade pura, ofensas gratuitas,
filões de poesia emaranhando sofrimento

lembramo-nos também daquela estrada em ziguezague
entre a floresta do Fanal e Ponta do Sol

a vertigem alimenta em nós sentimentos ancestrais

acordamos cansados, cheios de silêncio,
limpando no canto dos lábios frases mortas à nascença
quando nos queríamos olhar um ao outro

porém algo mudou.
talvez uma estação tenha passado por nós e posto
no lugar das velhas ressonâncias um certo vinho novo,
um mel mais doce, um amor mais sincrético,
igual a esse que liga os arbustos, o pó e o asfalto obediente
ao mesmo corpo quieto
das noites de insónia

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© João Ricardo Lopes (2026)

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Mirador del Río (Lanzarote)

Fotografia de arquivo pessoal (2018)

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MIRADOR DEL RÍO (LANZAROTE)

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para a Catarina

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entre as escarpas e os talhões de terra vulcânica, há uma estrada limpíssima a perder de vista, bordejada por um muro contínuo – não muito alto, perfeitamente geométrico – de pedra basáltica. de um lado, em baixo, o oceano com a mansuetude da ilha Graciosa. do outro lado, a terra ocre e os retângulos frisados deste chão de grânulos negros onde os nossos sapatos caminham com dificuldade. ao fundo, a encosta imponente do La Corona. são sete da tarde. o nevoeiro sobe rapidamente do mar, galgando os píncaros e atravessando à nossa frente a estrada de que falo. ocultado e desocultado pelo vapor, o sol deixa tudo a contraluz: e é a beleza das imagens assim nascidas da neblina, a silhueta depurada dos nossos corpos, a distância tão breve do abismo, o som das vozes que aparecem e desaparecem – que se desvanecem ao longo da estrada – é esse instante antes do crepúsculo, acima das origens, tudo o que nos fica

Caleta de Famara, 24 de agosto de 2018

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