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MAR, MANHÃ
é do mar que falo precisamente todos os dias,
do mar que nunca teve outro nome, se algum existe
aqui agora, diante dos meus olhos
abro as persianas, abro o vidro das janelas, abro
as portas e a muralha da luz, abro os pulmões para esta
maciez conjunta de claridade e sossego, pássaros
tardios e cheiro de ervas secas
nada disto é mar, mas é sábado, é uma manhã
de outubro. toda a semana fui cego e faminto, mas
agora aqui, bebo a chávena de café sobre o quintal
e esqueço
é o mar aquele que fica nos meus ouvidos e insondável
bate nos orifícios e recessos, como quando gostamos
de ler alguém e é Homero quem lemos numa soleira antiga
batida pelo sol, algures em Delfos ou em Creta
ou Corinto
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© João Ricardo Lopes (2026)
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