VENDE-SE

Bragi Ingibergsson - BRIN
Fotografia de Bragi Ingibergsson

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VENDE-SE

cotos de sabão secando nas margens do tanque,
frascos vazios e teias de aranha no parapeito das janelas,
algum fruto esquecido,
triste até à exaustão

dentro das gavetas naftalina,
peças brancas de linho, cambraias, lenços, os coturnos de lã

a esmo, no remanso de uma caixa de sapatos, os óculos,
os teus alfinetes, retratos ovais cor de sépia,
suponho que duas ou três algumas cartas,
não de amor mas dos filhos, do ultramar,
o bilhete de identidade com o dizer “vitalício”

alguém juntou tudo à pressa

fecharam os portões com arame e um cadeado grosso,
puseram à mostra, em letras gordas, a vermelho,
as palavras “vende-se”

depois veio da imobiliária uma moça loira, de minissaia

percebia bastante destas coisas,
torceu o nariz mais do que uma vez,
disse que da casa não era de esperar grande coisa

as saudades estão hoje ao preço da chuva

PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

Alberto Ghizzi Panizza
Foto: Alberto Ghizzi Panizza

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PELAS FRINCHAS DA GARAGEM

pelas frinchas da garagem
entram os dedos da lua

depois é um eco de velhas sucatas
adormecidas, cablagens e
candeeiros a petróleo, caixas de
sapatos e bonecos de caco,
coisas dispersas, despejadas pelo
tempo ao acaso através da pele

sem rasto é o cheiro do silêncio,
o rosto que nos pertencia
e hoje não passa de gelo talhado
a esmo, por entre as frestas
da memória

11 de maio de 2011

PODENCE (MACEDO DE CAVALEIROS)

Podence_Caretos
Foto de arquivo pessoal (2021)

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PODENCE (MACEDO DE CAVALEIROS)

também o diabo visita às vezes
este solo vetusto
a chocalhar com alarido
no corpo dos homens,
atrás do paraíso
(que podia muito bem ser o Azibo,
ali tão perto),
mas que é afinal o desenho subtil
das mulheres,
a quem se pede o engenho
da água sobre o fogo,
ou (quem sabe, porque não?)
do lume sobre a lava

agosto de 2021

CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

Foto de arquivo pessoal (2021)

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CASTELO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES

nos dias de chuva
nada há a separar as muralhas das nuvens,
mas nos dias de sol
o granito renasce na paisagem ao redor
e abre a sua pele dura
às mãos que o queiram tocar.
aqui onde o país se esqueceu de Portugal
nem a bandeira flutua,
só os mortos,
só o silêncio que o vento tomba entre castanheiros
e ressequidas ervas ralas
que são como línguas exaustas no meio das pedras.
do alto avista-se a soledade,
e pomares de maçãs, e montanhas cansadas.
um arco desperta-nos o olhar,
o da porta da traição:
por ela tudo se foi, até os crentes desta igreja medieval
para onde a tarde escorre em pó,
trazendo não sei que triste piedade

agosto de 2021