O meu pai

Fotografia de Florin Dumitru

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O MEU PAI

O meu pai ergue estacas no quintal.
Com esta idade levanta ainda as linhas ensarilhadas das ervilhas
e os morangos e também as flores brancas da ameixoeira
e depois os belos corpos pesados dos seus frutos.
Põe-se de cócoras, em silêncio, a emendar fios de arame
e a entrançar e a desentrançar cordas de abóboras.
Às vezes à noitinha continua a atar e a desatar nós,
sempre de cócoras, sempre de costas.
Se lhe oferecemos uma palavra, água, uma mão cheia de nozes limpas,
ergue uma mão em sinal de protesto.
Amiúde regresso da escola ao crepúsculo e ele calado, unindo
e desunindo, perto, longe, sempre em silêncio, a trama
das galáxias.
Para que trabalha tanto o meu pai?
A quem quer passar tão sofridamente as suas estacas ao alto?
O que diz a sua língua defessa, prenhe de alusões,
faminta já – quero acreditar – da eternidade?

19.03.2026