interrompo-me no areal fitando o movimento das ondas ao entardecer. às vezes, como este encontro nada solene, quase dócil, precisamos de calar as coisas imensas e de escutar apenas o rumor. sabemos que a verdade do tempo é profunda e imperscrutável, mas o perpassar do vento e o crescer da água salina bastam . também deus descansou ao sétimo dia, exausto talvez do refulgir de toda perfeição
esta manhã olhei as unhas, o rigor com que a pele mascava o interior das palavras, o desenho elegante da mobília, o livro, o caderno. vi em mim o teu corpo desaparecido, o secreto júbilo que te amparava na natureza das coisas silenciosas, o arrumo dos pensamentos, a delicadeza das sombras
nunca depois da tua morte me pareceste tão real
olhei as minhas mãos entre as flores secas do vaso, na linha do aparador, no papel imaculado, os meus dedos erguendo o pequeno suporte de vidro onde voltará um círio a arder (agora e para sempre) em louvor da Sagrada Família, a minha pele contra o rumor das cortinas que ferem de leve as paredes
as unhas derramam o vazio e tu vens: tocares cada poema com ternura é ainda – mãe minha e nossa – algo que me consola
quando subíamos da cave para a luz e os olhos atordoados se desembaraçavam das trevas – do substrato húmido das penumbras – aprendíamos que era esse o caminho do poema
não sabíamos não existe outra forma de o atravessar
sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada, o pó-verdete repousando entre as volutas do seu dorso. depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz que a casa acalenta com prazer
a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue translúcido e perfumado – e amargo – e as narinas ventilam a sua presença vívida e pujante
nenhum alimento desdenha o segregar humilde deste citrino, como não o faz a memória à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora nos impunham a decência inquebrável da caneta sobre o caderno
diria que o sangue dos limões é cândido e talvez um pouco triste, mas jamais inócuo – jamais indiferente