quando subíamos da cave para a luz e os olhos atordoados se desembaraçavam das trevas – do substrato húmido das penumbras – aprendíamos que era esse o caminho do poema
não sabíamos não existe outra forma de o atravessar
sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada, o pó-verdete repousando entre as volutas do seu dorso. depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz que a casa acalenta com prazer
a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue translúcido e perfumado – e amargo – e as narinas ventilam a sua presença vívida e pujante
nenhum alimento desdenha o segregar humilde deste citrino, como não o faz a memória à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora nos impunham a decência inquebrável da caneta sobre o caderno
diria que o sangue dos limões é cândido e talvez um pouco triste, mas jamais inócuo – jamais indiferente
clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data de trinta de maio de dois mil e quatro
ranúnculos de todas as cores nos jardins, especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena, depois um Malinois enorme, a rapariga negra de olhos esmeralda
pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes misturadas de gatos e pássaros nas varandas
o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha, o cão altivo acompanhava a sua deusa, eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi e aquilo tudo por alguma razão ficou, ou mesmo por nenhuma
Abraham Mignon, Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcela, 1660
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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON
entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam colhidos pela beleza dos frutos, pela majestade da majólica azul de Delft, pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra, que desce em silêncio das folhas de videira aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas e das ostras à portentosa seda, onde toda a cena renasce e morre, morre e renasce
regressámos hoje a este lugar pelágico onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos, onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol para reencontrar-se com o brilho frágil das gramíneas
depois que partiste todo o espaço pareceu encarquilhado e rude. a miséria da dor afundou-nos os olhos e silenciou as palavras
porém este lugar acicata. como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar horas infinitas pelos corredores do vento e com o mar em fundo
voltamos por isso a nós, renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos, de outro tempo, noutro corpo