W. B. Yeats

Fotografia de Taylor Smith

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W. B. YEATS

em junho nasceu o irlandês Yeats.
escreveu, amou, morreu.
cinquenta e nove cisnes mais uma prima
foram o fascínio que gravou nas pedras

certas curiosas semelhanças apertam
em tardes iguais a esta, tardes baças em que se
me incendeia nos olhos a mesma
névoa sublime da deceção

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Salah Stétié

Poeta argelino Salah Stétié
Fotografia de Kuma

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SALAH STÉTIÉ

quando subíamos da cave para a luz
e os olhos atordoados se desembaraçavam das trevas
– do substrato húmido das penumbras –
aprendíamos que era esse o caminho do poema

não sabíamos
não existe outra forma de o atravessar

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Pequeno elogio aos limões

Fotografia de Bruno Neurath Wilson

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PEQUENO ELOGIO AOS LIMÕES

para a Céu

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sopeso-os na mão, acaricio-lhes a pele enrugada,
o pó-verdete repousando entre as volutas do seu
dorso.
depois na fruteira eles são invariavelmente o sol, luz
que a casa acalenta com prazer

a faca que os corta pela metade enche-se do seu sangue
translúcido e perfumado – e amargo –
e as narinas ventilam a sua presença vívida
e pujante

nenhum alimento desdenha o segregar humilde
deste citrino, como não o faz a memória
à voz de velhos mestres que se tiveram, e que outrora
nos impunham a decência inquebrável
da caneta sobre o caderno

diria que o sangue dos limões é cândido
e talvez um pouco triste,
mas jamais inócuo – jamais indiferente

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© João Ricardo Lopes (2025)

Viagem pela Europa

Fotografia de Yijie Miao

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VIAGEM PELA EUROPA

nada suplanta esta impressão que o sol empresta às coisas,
este beijo da luz sobre os teus ombros,
contra as paredes,
por entre as palavras

é-se feliz e inocente, é-se livre e capaz
em Troia e em Ítaca, em Estocolmo
ou Lisboa

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Paris

Paris at sunset
Fotografia de Chris Linnet

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PARIS

clarões de memória, fosfenos dançando nos olhos, a data
de trinta de maio de dois mil e quatro

ranúnculos de todas as cores nos jardins,
especialmente vermelhos, vidraças repletas em direção ao Sena,
depois um Malinois enorme, a rapariga negra
de olhos esmeralda

pequenas alfinetadas na ponta dos dedos, cheiro de
algum cigarro esquecido no cinzeiro da mesa de café, vozes
misturadas de gatos e pássaros nas varandas

o céu em tons de fogo declinava para os lados da Bastilha,
o cão altivo acompanhava a sua deusa,
eu sobraçava um livro com retratos de Giorgio Morandi
e aquilo tudo por alguma razão ficou,
ou mesmo por nenhuma

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© João Ricardo Lopes (2025)

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Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcelana, Abraham Mignon

Abraham Mignon, Natureza Morta com frutas, ostras e uma tigela de porcela, 1660

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NATUREZA MORTA COM FRUTAS, OSTRAS E UMA TIGELA DE PORCELANA, ABRAHAM MIGNON

entre a abundância e a miséria os olhos prevaricam
colhidos pela beleza dos frutos,
pela majestade da majólica azul de Delft,
pela cascata de luz que cai sobre os rebordos da sombra,
que desce em silêncio das folhas de videira
aos bagos das uvas e das uvas às ostras abertas
e das ostras à portentosa seda,
onde toda a cena renasce e morre,
morre e renasce

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© João Ricardo Lopes (2024)

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Lavra, Matosinhos

ddzphotos
Fotografia de ddz_photo

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LAVRA, MATOSINHOS

regressámos hoje a este lugar pelágico
onde as runas e os líquenes vermelhos cobrem os rochedos,
onde a antiga voz de deus corre às dunas e ao sol
para reencontrar-se com o brilho frágil
das gramíneas

depois que partiste
todo o espaço pareceu encarquilhado e rude.
a miséria da dor afundou-nos os olhos
e silenciou as palavras

porém este lugar acicata.
como um sopro lançado às brasas, faz-nos caminhar
horas infinitas pelos corredores do vento
e com o mar em fundo

voltamos por isso a nós,
renascentes parturidos do âmago do fogo, aos poucos,
de outro tempo, noutro corpo

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© João Ricardo Lopes (2025)

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